Lisboa e Vale do Tejo

De Alfama ao choco frito de Setúbal, da Serra de Sintra às praias da Arrábida, Lisboa e Vale do Tejo tem mais quilómetros de diversidade do que a maioria dos visitantes imagina. A região onde 40 minutos de comboio mudam completamente a paisagem, a mesa e o sotaque.

Lisboa e Vale do Tejo é a região que mais engana quem a visita pela primeira vez. A maioria chega, fica três dias na capital, tira fotos no elétrico 28 e nos pastéis de Belém, e parte convencida de que conhece a zona. Não conhece. A região estende-se do Atlântico ao interior ribatejano, e a diversidade entre a costa e o campo é brutal.

Para lá de Lisboa

A capital merece tempo, os bairros históricos de Alfama, Mouraria e Graça têm uma vida de rua que não se encontra noutras capitais europeias. Mas o erro clássico é não sair de lá. Sintra fica a 40 minutos de comboio e tem uma serra com microclima próprio, onde a vegetação subtropical cresce ao lado de palácios que parecem cenários de ópera. O Palácio da Pena e a Quinta da Regaleira são os mais visitados, mas a Serra de Sintra tem trilhos que levam a conventos abandonados e miradouros sem ninguém.

Cascais transformou-se nos últimos anos. Já não é só a praia da linha, o mercado da vila, a zona do Guincho com as suas ondas pesadas e a Boca do Inferno continuam a atrair, mas hoje há uma cena gastronómica séria e uma vida cultural que vai além do verão. A Ericeira, mais a norte, é Reserva Mundial de Surf desde 2011 e mantém um centro histórico de vila piscatória que ainda não foi completamente engolido pelo turismo.

A margem sul e a Arrábida

Atravessar o Tejo muda tudo. Almada tem o Cristo Rei e a vista mais icónica de Lisboa, mas Sesimbra é o destino real, uma vila de pescadores encaixada numa baía protegida, com peixe grelhado que chega direto do barco para o prato. A Serra da Arrábida, entre Sesimbra e Setúbal, tem praias de água transparente como a Praia de Galapinhos e a Praia dos Coelhos, acessíveis por trilhos entre a vegetação mediterrânica. Setúbal em si é uma cidade subestimada: o mercado do Livramento é dos melhores do país, e o choco frito é prato obrigatório, crocante por fora, tenro por dentro, servido com arroz de tomate ou batatas fritas.

O interior ribatejano

Santarém é a capital do gótico em Portugal e a capital da gastronomia ribatejana. A sopa da pedra de Almeirim, as alcatra e os morcelas de arroz fazem parte de uma tradição de mesa farta que não tem equivalente na costa. Em outubro, a Feira Nacional do Cavalo em Golegã atrai gente de todo o país. Óbidos, mais a norte, é conhecida pela vila muralhada e pela ginjinha servida em copo de chocolate, mas também pelo festival literário em julho e pelo festival de chocolate em março e abril.

O que comer

Em Lisboa, os bifanas no Cais do Sodré, as pataniscas de bacalhau nos tascas de Alfama, os pastéis de nata da Manteigaria. Em Setúbal, o choco frito. Em Santarém, a sopa da pedra. Na Ericeira, ouriços-do-mar quando a época permite. Em Sintra, os travesseiros da Piriquita e as queijadas. Cada zona tem a sua mesa, e o erro é achar que a cozinha de Lisboa representa toda a região.

Quando ir

Setembro e outubro são os meses ideais: o calor intenso de agosto passou, as praias esvaziam, e a luz é perfeita. A primavera, entre março e maio, também funciona bem, especialmente para caminhar na Arrábida ou em Sintra sem o calor do verão. O inverno em Lisboa é suave, raramente desce abaixo dos 8°C, e a cidade ganha um ritmo diferente, com menos filas e mais espaço para descobrir os bairros a sério.

Mafra merece uma menção à parte: o Palácio Nacional, com a sua biblioteca de 36 mil volumes, é um dos edifícios barrocos mais impressionantes da Península Ibérica, e a Tapada de Mafra oferece percursos de natureza a menos de uma hora de Lisboa. Torres Vedras, por sua vez, é terra de Carnaval, um dos mais antigos e irreverentes de Portugal, sem o brilho televisivo de outros, mas com uma energia de rua autêntica.