Boca do Inferno
Cascais
Toda a gente chega a Cascais à uma da tarde e vai embora antes do jantar. É um erro: a melhor hora da vila começa às seis, quando a luz baixa e os autocarros desaparecem. Um roteiro de vinho e petiscos que começa na Boca do Inferno e acaba com moscatel gelado.
Toda a gente assume que Cascais é cara e por isso paga 14 euros por um bacalhau à brás medíocre numa esplanada da baía. Há outra maneira: a regra dos 500 metros, o museu do farol que custa quase nada, e a caminhada até à Boca do Inferno que é gratuita e é a melhor coisa da vila. Um dia inteiro por menos do que um almoço no Chiado.
Os grandes parques aquáticos ficam no Algarve, a três horas de Cascais. Mas entre falésias com mar a rugir, poças de maré, surf para iniciados e bate-voltas a Sintra e Lisboa, Cascais enche dias inteiros sem precisar de escorregas gigantes.
Descubra os melhores locais para observar o pôr do sol em Cascais, desde o recôndito Miradouro da Azarujinha até ao drama marítimo da Boca do Inferno. Um guia essencial sobre a luz atlântica, rituais locais e gastronomia de mar.
Cascais resolve um problema que muitas vilas costeiras portuguesas não conseguem: ser bonita sem ser apenas isso. A meia hora de comboio de Lisboa, com partida de Cais do Sodré e a linha a acompanhar o Tejo até ao estuário abrir para o Atlântico, chega-se a um lugar que funciona tanto para uma tarde como para uma semana inteira.
Não é uma extensão da Linha de Cascais para quem quer praia e pouco mais. Essa versão existe, Carcavelos e São João do Estoril cumprem esse papel. Cascais é outra coisa. É uma vila onde pescadores continuam a descarregar peixe no porto, onde o Mercado da Vila tem bancas com produto real a preços de quem vive cá, e onde a Rua Frederico Arouca mistura gelaterias italianas com lojas que vendem anzóis.
A Boca do Inferno fica a dez minutos a pé do centro e vale a visita, sobretudo ao final da tarde quando os autocarros de turismo já saíram. Mas o percurso entre o centro e a Boca, pela marginal junto às falésias, é mais interessante do que o destino em si. Continue até ao Farol Museu de Santa Marta, um dos poucos faróis em Portugal que se pode visitar por dentro, e desça ao Miradouro da Azarujinha por escadas escavadas na arriba, com piscinas naturais em baixo quando a maré colabora.
O peixe grelhado domina, como seria de esperar. Na Casa da Guia, um complexo de lojas e restaurantes à beira-mar entre Cascais e Guincho, come-se bem com vista, mas os preços reflectem a localização. Para algo mais directo, as tasquinhas na zona do Mercado da Vila servem pregos e bifanas sem cerimónia. Os pastéis de nata da Cascais são honestos, não são os de Belém, mas acompanham bem um café na Praça 5 de Outubro a ver o movimento.
Maio, Junho e Setembro são os meses certos. Julho e Agosto enchem, os preços sobem, e o estacionamento desaparece. Dois dias permitem cobrir o centro, a costa até ao Guincho e o Parque Natural de Sintra-Cascais sem pressa. Um dia chega para o essencial, mas vai saber a pouco.