Alentejo

Um terço de Portugal, meia dúzia de pessoas por quilómetro quadrado, e uma cozinha inteira construída à volta de pão duro e porco preto. O Alentejo é onde Lisboa vai quando quer desacelerar, e raramente lhe dá o tempo que merece.

O Alentejo ocupa um terço de Portugal continental e tem menos gente por quilómetro quadrado do que quase qualquer outra região da Europa Ocidental. É essa escala, e esse vazio, que o define. Planícies de trigo e sobreiros até onde a vista alcança, vilas fortificadas no topo de colinas que parecem não ter mudado desde o século XVI, e um calor de verão que explica por que é que os alentejanos inventaram a sopa fria.

O que encontra aqui

Évora é o ponto de partida óbvio: templo romano, catedral medieval, Capela dos Ossos, universidade com cinco séculos. Mas o Alentejo real começa quando se sai de Évora. Monsaraz, no alto de uma crista com vista para a barragem de Alqueva, tem menos de 200 habitantes e um castelo do século XIII. Estremoz divide-se entre a vila medieval no alto e o mercado de sábado em baixo, onde se compra queijo de Nisa e enchidos de porco preto. Vila Viçosa guarda o Paço Ducal dos Bragança, o palácio onde viveram os reis portugueses antes de se mudarem para Lisboa.

A sul, o Alentejo muda de cara. Mértola, sobre o rio Guadiana, foi porto romano, cidade islâmica e vila mineira. A mesquita convertida em igreja matriz ainda tem o mihrab original. Beja tem o Museu Regional, instalado no convento onde Soror Mariana Alcoforado terá escrito as suas cartas de amor. Santiago do Cacém e Sines já tocam o litoral, praias ventosas, falésias, e o festival de música de Sines (FMM) em julho.

O que comer

A cozinha alentejana é de sobrevivência transformada em tradição. Açordas e migas nasceram da necessidade de aproveitar pão duro. A açorda alentejana, pão, alho, coentros, azeite, ovo escalfado, é o prato mais honesto que Portugal tem. As migas com carne de porco são pesadas e perfeitas para o inverno. O ensopado de borrego aparece em praticamente todas as tascas de Évora a Portalegre.

O porco preto é rei. Criado em montado de sobro e azinho, alimentado a bolota, dá presunto, plumas, secretos e o prato mais cobiçado: bochechas de porco preto estufadas. Em Estremoz e Borba, os queijos de ovelha são amanteigados por dentro, corta-se o topo e come-se à colher.

Os vinhos não precisam de apresentação. O Alentejo é a maior região vinícola do país em volume. Esporão, Herdade do Mouchão, João Portugal Ramos, Adega Mayor, há dezenas de produtores que recebem visitas. A casta Antão Vaz dá brancos com corpo que surpreendem quem só conhece vinhos verdes.

Quando ir

Evite julho e agosto se não tolera calor acima dos 40°C. Abril e maio são ideais: campos cobertos de flores, temperaturas nos 20-25°C, tudo verde antes de o verão queimar a paisagem. Setembro e outubro também funcionam bem, as vindimas começam, o calor abranda, e há menos gente.

O que os turistas erram

O erro mais comum é tratar o Alentejo como uma day trip a partir de Lisboa. Évora a duas horas, almoço, volta. Isso é como visitar a Toscana em três horas. O Alentejo pede pelo menos três ou quatro dias. Pede estradas secundárias, paragens em vilas que não estão em nenhum guia, e almoços de duas horas com vinho da casa. Portalegre, no norte, tem o único museu de tapeçaria contemporânea do país e uma fábrica de cortiça que se visita. Arraiolos é conhecida pelos tapetes de lã bordados à mão, tradição que remonta ao século XVII.

O Alentejo não se visita com pressa. Se tiver pressa, vá a outro sítio.