Évora e o Montado: Roteiro de Verão pelo Sobreiro
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Évora e o Montado: Roteiro de Verão pelo Sobreiro

· · Évora

Às duas da tarde de Agosto, o sítio mais fresco do Alentejo é debaixo de um sobreiro. Um roteiro de carro a partir de Évora que trata o montado como destino e não como paisagem de passagem, com horários invertidos, gaspacho em vez de migas e Monsaraz depois das seis da tarde.

Há uma coisa que ninguém diz sobre o Alentejo em Agosto: às duas da tarde, o montado é o sítio mais fresco da região. Não a piscina do hotel, não o interior de uma igreja, não o carro com o ar condicionado no máximo. Debaixo de um sobreiro adulto, com a copa aberta como um guarda-sol de trinta anos de idade, a temperatura desce vários graus e o chão cheira a poeira quente e a erva seca. Os porcos sabem disto há séculos. Os turistas continuam a insistir em visitar o Templo Romano ao meio-dia, de bermudas, a fotografar colunas e a queixarem-se do calor.

Este roteiro parte de Évora e trata o montado, aquela paisagem de sobreiros e azinheiras espalhados por campos dourados, como destino e não como aquilo que se vê pela janela a caminho de outro sítio. É um roteiro de Verão, o que significa que está construído ao contrário: manhãs cedo, tardes lentas, noites longas. Quem tentar fazer isto com horário de cidade vai odiar o Alentejo e a culpa não é do Alentejo.

Antes de arrancar: onde dormir em Évora

Évora funciona bem como base. Está a menos de hora e meia de Lisboa pela A6, tem estradas nacionais em todas as direcções e, ao contrário do que muita gente pensa, é uma cidade pequena onde se caminha tudo em vinte minutos.

A questão é o orçamento. Se a viagem é de mochila e o carro é alugado partilhado com amigos, o Old Évora Hostel resolve o problema do dormir sem consumir a verba do jantar, e fica dentro das muralhas, o que em Évora conta muito: significa que se sai à noite a pé e se volta a pé, sem a ginástica dos parques de estacionamento extramuros.

No extremo oposto, e vale a pena pelo menos uma noite se a viagem for a dois, está o M'AR De AR Aqueduto, encostado ao Aqueduto da Água de Prata. É daquelas coisas raras: um hotel de design que não finge que o edifício histórico não existe. Em Agosto, a piscina justifica sozinha a diferença de preço, sobretudo depois de um dia de estrada.

Há ainda uma terceira via, para quem quer descer mais a sul e usar o Baixo Alentejo como segunda base. O MouraSuites Hotel serve bem quem quer dividir a viagem em dois blocos em vez de fazer sempre ida e volta a Évora. Fazer 200 quilómetros por dia no calor alentejano é a forma mais rápida de transformar férias em logística.

O carro, sem romance

Não há alternativa ao carro neste roteiro. Os comboios servem Évora e pouco mais, e os autocarros entre vilas do interior têm horários pensados para quem trabalha, não para quem passeia. Aluguem o carro mais pequeno possível: as ruas de Évora intramuros foram desenhadas para carroças e há esquinas em Monsaraz onde um SUV é uma humilhação pública.

Duas regras práticas: encham o depósito sempre que passarem por uma vila com bomba, porque há trechos de estrada nacional com quarenta quilómetros sem nada, e levem água a sério, quatro ou cinco litros no porta-bagagens. Não é dramatismo, é Agosto no Alentejo.

Dia 1: Évora, mas na ordem certa

A ordem certa é: cedo, muito cedo. Às sete e meia da manhã a Praça do Giraldo pertence aos varredores e a duas ou três pessoas a tomar café ao balcão. Às onze, pertence a autocarros de excursão. A diferença entre estas duas Évoras é brutal e custa apenas um despertador.

Comecem pelo alto, na zona da Sé e do Templo Romano, e desçam. É contra-intuitivo para quem gosta de terminar no ponto alto, mas em Julho e Agosto quer-se estar a subir escadas ao fresco e a descer com o sol já alto.

Se preferirem fazer isto com quem sabe do assunto, a experiência Caminhar por Évora tem a vantagem de explicar o que se está a ver, que em Évora é mais complicado do que parece: há camada romana, camada árabe, camada medieval e camada manuelina no espaço de duzentos metros, e sem contexto é tudo apenas pedra bonita.

Por volta das onze, quando a rua começa a arder, entrem no Museu Nacional Frei Manuel do Cenáculo. Duas razões, uma nobre e outra prática. A nobre: a colecção de pintura e escultura conta a história desta cidade melhor do que qualquer painel informativo na rua. A prática: é fresco, é grande, e tem-se ali uma hora e meia de refúgio pelo preço de um bilhete de museu. Aproveitem para ver com calma a secção de escultura medieval, que é a parte que a maioria das pessoas atravessa a correr a caminho da pintura.

Almoço e a tarde que não existe

O almoço alentejano de Verão é uma armadilha para forasteiros. A tentação é pedir porco preto, migas, carne de alguidar, tudo o que aparece nas listas de pratos regionais. Erro. Isso é comida de Inverno, feita para quem trabalhou no campo com frio. Em Agosto, peçam gaspacho alentejano, que aqui se serve com pão em pedaços e por vezes com peixe frito ou presunto ao lado, e sopa de cação. São pratos de calor, pensados por gente que vive neste calor há gerações.

Depois do almoço, não façam nada. A sério. Entre as duas e as cinco da tarde, o Alentejo fecha, e há uma razão biológica para isso. Voltem ao hotel, durmam, leiam, entrem na piscina. Quem tentar visitar monumentos nesta janela vai passar a viagem irritado e desidratado.

Dia 2: o montado, a cortiça e a estrada para Monsaraz

Este é o dia da paisagem. Saiam de Évora pela estrada em direcção a Reguengos de Monsaraz e Monsaraz, com o depósito cheio e sem pressa. O que interessa aqui não é chegar, é a estrada.

A dada altura vão começar a ver os troncos vermelhos. Um sobreiro descortiçado tem o tronco cor de ferrugem viva na parte que foi despida, e um número branco pintado que indica o ano do último descortiçamento. É a coisa mais próxima de um sistema de gestão florestal visível a olho nu que existe em Portugal: aquele número diz quando a árvore pode voltar a ser trabalhada, e a lei impõe nove anos de intervalo. Uma árvore é descortiçada talvez quinze ou dezasseis vezes ao longo de uma vida de mais de um século.

O trabalho faz-se no Verão, tipicamente entre Maio e Agosto, porque é quando a casca se solta da árvore sem a ferir. Se passarem numa herdade em plena campanha, vão ouvir o som antes de ver: pancadas secas de machado, ritmadas, e depois o estalo da prancha a soltar-se. Os tiradores trabalham de madrugada e param muito antes do meio-dia. Ninguém no Alentejo, nem os turistas nem quem trabalha, faz o que quer que seja às três da tarde em Agosto.

Parem o carro num sítio seguro, saiam, e passem a mão num tronco descortiçado. É a coisa mais barata e mais memorável deste roteiro. Regra óbvia: não entrem em propriedade privada e não toquem em nada que esteja em plena operação. As herdades são negócios, não parques temáticos.

Monsaraz ao fim da tarde

Monsaraz é uma vila murada no alto de um monte, com vista para o Alqueva, e é indiscutivelmente linda. Também é indiscutivelmente cheia de gente entre as dez e as cinco. A solução é simples: cheguem às seis e meia ou sete da tarde. Os autocarros já foram embora, a luz fica rasante e dourada, e as ruas de calçada branca esvaziam-se.

Estacionem fora das muralhas, obrigatoriamente, e subam a pé. Andem até ao castelo, olhem para a albufeira do Alqueva, e depois desçam devagar. A vila é minúscula, vê-se em quarenta minutos, e o valor está em vê-la sem multidão. Depois do pôr do sol, esta é uma das zonas de céu mais escuro da Europa, certificada como reserva de céu nocturno. Se a noite for sem lua, vale a pena ficar mais meia hora no carro, com as luzes apagadas, apenas a olhar para cima.

Dia 3: flores secas, mercados e o ritmo lento

Ao terceiro dia, a maioria das pessoas percebe que reduziu o passo sem dar por isso. É o momento certo para fazer alguma coisa com as mãos em vez de olhar para monumentos.

A oficina A Flor do Barrocal, com Catarina Ferreira é exactamente isso: aprender a compor arranjos com a flora local, seca e resistente, aquela que sobrevive a Agostos como este. Parece uma actividade de nicho e é, mas é também a melhor forma de entender por que razão a paisagem alentejana tem o aspecto que tem. Depois de duas horas a manusear estas plantas, olha-se para a berma da estrada de outra maneira.

Para a manhã, procurem um mercado municipal em qualquer vila por onde passem. Chegam cedo, compram queijo, pão, azeitonas, um melão, e almoçam num miradouro qualquer em vez de num restaurante. É mais barato, é mais fresco, e é a forma como a maior parte das pessoas realmente come no Verão.

Se houver mais dias: subir ao Alto Alentejo

Quem tiver uma semana em vez de um fim de semana longo deve subir para norte, na direcção de Portalegre e da Serra de São Mamede. O clima muda: há mais altitude, mais verde, mais água, e as noites são efectivamente mais frescas, o que em Agosto não é detalhe menor.

Portalegre é uma cidade que quase toda a gente atravessa a caminho de Marvão e Castelo de Vide, e é um erro. Vale a pena parar e passar lá pelo menos uma noite. Para organizar isso, temos um guia de fim de semana em Portalegre sem armadilhas turísticas, um roteiro dos bairros que valem a caminhada e, para a parte mais importante, um levantamento de onde comem os locais em Portalegre.

As noites

Aqui está a coisa que ninguém explica sobre o Alentejo de Verão: a vida acontece depois das dez da noite. Jantar às oito é coisa de turista com pressa. As esplanadas de Évora enchem-se por volta das nove e meia, dez, e ficam assim até tarde, com toda a gente lá fora porque lá dentro ainda está mais quente.

Évora tem população universitária, o que muda tudo. Não é uma cidade histórica que fecha às onze. Se a noite se prolongar e apetecer música e uma pista de dança em vez de mais uma esplanada, o Praxis Club é o sítio óbvio, e enche sobretudo com gente local e estudantes, o que é precisamente o que se quer. Aviso justo: a noite alentejana começa tarde e acaba tarde, e não vale a pena aparecer à meia-noite à espera de encontrar ambiente.

O resumo, sem poesia

  • Melhor altura: a campanha da cortiça vai de Maio a Agosto. Junho e Setembro dão o melhor equilíbrio entre calor suportável e paisagem no auge.
  • Duração mínima: três noites. Menos do que isso e passa-se a viagem no carro.
  • Horário: visitas até às onze e meia, pausa longa, retoma depois das cinco e meia. Sem excepções.
  • Carro: obrigatório e pequeno. Depósito cheio sempre que possível.
  • Comida: gaspacho e sopa de cação no Verão. Deixem as migas e a carne de porco à alentejana para Novembro.
  • Erro clássico: tentar ver Évora, Monsaraz, Estremoz, Vila Viçosa, Elvas e Marvão em três dias. Escolham dois destinos e fiquem lá.

O montado não é um cenário. É um sistema agrícola com séculos, que produz cortiça, bolota, porco preto e sombra, e que existe porque alguém decidiu, geração após geração, não cortar as árvores. Conduzir por ali em Agosto, com as janelas abertas e o cheiro a erva seca a entrar no carro, é a versão mais honesta do Alentejo que existe. Não precisa de mais nada.

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