Il Gallo d'Oro
Funchal
Uma ilha de montanha no meio do Atlântico, onde 3.000 km de levadas atravessam a última floresta Laurissilva da Europa. Na Madeira come-se espada preta com banana, caminha-se acima das nuvens entre o Areeiro e o Ruivo, e descobre-se que o norte selvagem da ilha vale tanto como o Funchal.
A Madeira não é um destino de praia, e quanto mais cedo os visitantes aceitarem isto, melhor a viagem será. É uma ilha de montanha que calhou estar no meio do Atlântico, com falésias que caem a pique no mar, florestas que existem desde antes de Portugal ser país, e uma cultura gastronómica que deve tanto ao clima subtropical como à teimosia dos seus habitantes em cultivar cada metro quadrado de terra.
A ilha organiza-se a partir do Funchal, que concentra a maioria dos hotéis, restaurantes e vida noturna. Mas limitar a visita à capital é um erro comum. Câmara de Lobos, a poucos quilómetros para oeste, é uma vila piscatória onde ainda se vê espada preta a ser descarregada de manhã cedo, e onde Churchill se sentou a pintar em 1950. Machico, do lado leste, tem a única praia de areia natural da ilha e uma tranquilidade que o Funchal já perdeu.
Para norte, a paisagem muda radicalmente. São Vicente abre-se num vale protegido com grutas vulcânicas visitáveis. Santana é conhecida pelas casas triangulares de colmo, turísticas, sim, mas genuínas na sua origem agrícola. E Porto Moniz, no extremo noroeste, tem as piscinas naturais de rocha vulcânica que se tornaram imagem de postal, mas que continuam a valer a deslocação, sobretudo fora de agosto.
Os cerca de 3.000 km de levadas, canais de irrigação construídos a partir do século XV, são hoje a maior rede de trilhos pedestres da ilha. Nem todos são iguais: a Levada do Caldeirão Verde, que parte de Queimadas perto de Santana, atravessa túneis escavados à mão e termina numa cascata de 100 metros. A Vereda do Pico do Areeiro ao Pico Ruivo é mais exigente, a caminhar acima das nuvens entre os dois pontos mais altos da ilha. A Floresta Laurissilva, Património UNESCO, sobrevive aqui como em mais nenhum lugar da Europa, um fóssil vivo do Terciário que cobre grande parte da encosta norte.
A espada preta com banana é o prato-símbolo, e funciona melhor do que parece, o peixe de profundidade, de carne branca e firme, combina surpreendentemente bem com a banana da ilha frita. O bolo do caco, pão de batata-doce cozido em laje de basalto, aparece em qualquer mesa e come-se com manteiga de alho. A espetada madeirense, carne de vaca em espeto de louro, é comida de festa que se tornou quotidiana. Para sobremesa, o bolo de mel (que leva melaço de cana, não mel) é denso, escuro e dura meses.
A poncha, feita com aguardente de cana, mel e sumo de limão ou maracujá, é a bebida obrigatória. E o vinho Madeira, que vai do Sercial seco ao Malmsey doce, é um dos grandes vinhos fortificados do mundo, merece uma visita às adegas do Funchal, como a Blandy's na Avenida Arriaga.
A Madeira tem clima ameno o ano inteiro, mas as melhores condições para trilhos são entre abril e outubro. O Funchal enche no Natal e Ano Novo, os fogos de artifício de 31 de dezembro são dos maiores da Europa e transformam a baía num espetáculo real. A Festa da Flor, em abril ou maio, enche as ruas de tapetes florais. Fevereiro traz o Carnaval, com desfiles que rivalizam com os do continente.
Muitos visitantes ficam três dias no Funchal, fazem uma levada e partem. A Madeira pede pelo menos uma semana. A costa norte, de São Vicente a Santana, tem uma personalidade completamente diferente do sul: mais verde, mais húmida, mais selvagem. E alugar carro é praticamente obrigatório; os autocarros existem mas não servem quem quer explorar a sério. As estradas são boas, com túneis modernos que encurtaram distâncias que antes levavam horas.
São Vicente tem um único museu digno de bilhete, escavado numa língua de lava com 890 mil anos. O resto do dia resolve-se nas piscinas negras do Clube Naval e no balcão da padaria, com o bolo do caco ainda quente.
Em São Vicente a chuva não cancela o dia, só muda o plano: grutas de lava com 890 mil anos, três padarias com o forno quente e um complexo balnear que fica mais interessante precisamente quando o mar está bravo.
Em São Vicente não há filas de turistas nem cappuccinos para Instagram, só três cafés que servem propósitos diferentes: pão quente ao pé da praia, uma pausa a sério com bica ou galão, e sacos de doces para levar. Aqui fica o roteiro completo de um dia.
Enquanto o Funchal coleciona sol, São Vicente coleciona nuvens. Aqui fica o roteiro certo para os dias de chuva: das grutas vulcânicas às piscinas naturais, passando pelas padarias onde os locais se sentam a ver o tempo passar.