Quinta da Abelheira
Ponta Delgada
Nove ilhas vulcânicas onde se come cozido cozinhado pelo calor da terra e o queijo de São Jorge rivaliza com qualquer coisa que o continente produz. Os Açores exigem impermeável o ano todo e recompensam quem salta entre ilhas em vez de ficar só em São Miguel.
Os Açores são nove ilhas no meio do Atlântico onde o tempo meteorológico muda quatro vezes por hora e o tempo cronológico parece irrelevante. Quem chega a São Miguel esperando um destino tropical vai levar um choque: isto é verde, húmido, e a temperatura raramente passa dos 25°C mesmo em agosto. E é exactamente por isso que funciona.
O erro mais comum é tratar os Açores como um destino único. São Miguel é a porta de entrada, a maior ilha, com Ponta Delgada como capital regional, as Sete Cidades com a sua lagoa bicolor, e as Furnas onde o cozido é literalmente cozinhado debaixo da terra pelo calor vulcânico. Mas ficar só em São Miguel é como visitar Lisboa e dizer que conhece Portugal.
A Terceira tem Angra do Heroísmo, classificada pela UNESCO, com uma malha urbana renascentista que sobreviveu a terramotos e séculos de passagem de frotas atlânticas. As touradas à corda nas festas de verão, onde o touro corre pelas ruas preso por uma corda longa segura por pastores, são algo que não existe em mais lado nenhum do mundo.
O Faial tem a Horta, com o seu porto de escala transatlântica onde veleiros de todo o mundo deixam pinturas no molhe da marina, uma tradição supersticiosa que ninguém ousa quebrar. O Pico, visível do Faial em dias limpos, tem vinhas classificadas pela UNESCO plantadas em currais de basalto negro, e o ponto mais alto de Portugal a 2.351 metros.
O cozido das Furnas é obrigatório em São Miguel, panelas enterradas junto às fumarolas durante horas. Mas há mais: a alcatra da Terceira, cozinhada lentamente em panela de barro com pimenta-da-terra; o polvo guisado que aparece em praticamente todas as ilhas; e os queijos, especialmente o de São Jorge, curado e picante, que é provavelmente o melhor queijo português que a maioria dos portugueses do continente nunca provou a sério.
Os ananases dos Açores, cultivados em estufas em São Miguel desde o século XIX, são pequenos, intensamente doces e não têm nada a ver com o que se compra no supermercado. O chá da Gorreana, a última plantação de chá da Europa, produz chá verde e preto desde 1883, pode-se visitar a fábrica e os campos sem marcação.
Junho a setembro é a época mais estável, mas "estável" nos Açores significa que chove menos, não que não chove. Levar sempre um casaco impermeável, independentemente da previsão. Maio e outubro são meses excelentes, menos gente, preços mais baixos, e as hortênsias azuis que forram as estradas de São Miguel estão no pico em julho e agosto.
As festas do Espírito Santo, entre maio e setembro, são a tradição mais marcante dos Açores. Cada freguesia organiza a sua, com sopas do Espírito Santo distribuídas a toda a comunidade, uma tradição com raízes medievais que nos Açores se manteve viva enquanto no continente praticamente desapareceu.
Os Açores não são baratos. Os voos low-cost da Ryanair e SATA trouxeram preços acessíveis na viagem, mas alojamento e restauração nas ilhas têm subido. Alugar carro é essencial em qualquer ilha, o transporte público é limitado e os melhores sítios exigem mobilidade. E as distâncias entre ilhas são reais: voar do Faial a São Miguel demora uma hora, e os ferries entre grupos de ilhas são sazonais e dependentes do mar.
Ribeira Grande, no norte de São Miguel, merece mais do que uma passagem rápida. Vila do Porto, em Santa Maria, a ilha mais a sul e mais seca, tem praias de areia que as outras ilhas não conseguem oferecer.
Santa Maria não é só a ilha mais antiga dos Açores: durante quase vinte anos, a pista sobre Vila do Porto foi a última escala dos voos transatlânticos antes de atravessarem o oceano. A vila que cresceu à volta dela ainda tem esse ar de fim de linha, mas com areia dourada.
Em Santa Maria, a ilha mais antiga e mais barata dos Açores, dormir bem sem gastar muito é possível se souber onde ficar. De quintas rurais como a Quinta do Falcão a vistas gratuitas como o Miradouro da Macela, eis como fazer Vila do Porto render cada euro.
A chuva em Terceira chega sem avisar e desaparece igual, mas Angra do Heroísmo tem um convento do século XVII, um hospital militar reconvertido e uma queijada de Dona Amélia que compensam qualquer aguaceiro. Aqui está o roteiro que eu faria de propósito, chuva ou não.
Uma cidade Património Mundial que se reconstruiu pedra a pedra depois de um terramoto, com museus a dois passos de distância, uma alcatra que cozinha horas numa panela de barro e um vulcão extinto como miradouro. Um dia inteiro em Angra do Heroísmo, sem pressa.