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Angra do Heroísmo em 24 Horas, ao Ritmo Local

Pedro Sousa · · Angra do Heroísmo

Uma cidade Património Mundial que se reconstruiu pedra a pedra depois de um terramoto, com museus a dois passos de distância, uma alcatra que cozinha horas numa panela de barro e um vulcão extinto como miradouro. Um dia inteiro em Angra do Heroísmo, sem pressa.

Angra do Heroísmo em 24 Horas, ao Ritmo Local

Angra do Heroísmo não precisa de te convencer de nada. É Património Mundial da UNESCO desde 1983, foi capital de todo o arquipélago dos Açores durante séculos e, ainda assim, a cidade que hoje se percorre a pé em vinte minutos de ponta a ponta trata-se a si própria com uma informalidade que desarma. As casas de fachadas coloridas e cantarias de pedra escura não estão ali para postais: estão ali porque, depois do terramoto de 1 de janeiro de 1980, que destruiu perto de 80% dos edifícios da cidade, os angrenses reconstruíram tudo pedra a pedra, seguindo os desenhos originais. Andar por Angra é andar por uma cidade que já esteve de joelhos e que decidiu, sem drama, levantar-se outra vez. Este é um roteiro para quem tem um dia inteiro e quer usá-lo bem, sem correr atrás de tudo.

Antes das 8: a cidade ainda a espreguiçar

Começa cedo, antes de a luz ficar dura. Sobe ao Alto da Memória, no Monte Brasil, o vulcão extinto que forma a península a poente da baía. O obelisco ali no topo foi erguido em homenagem à passagem de D. Pedro IV por Angra durante a Guerra Civil Portuguesa, mas o motivo real para lá ires é o mirador: a cidade inteira, o porto, a marina e as duas baías estendem-se lá em baixo, e a esta hora tens o lugar praticamente só para ti. Se preferires caminhar mais, o perímetro do Monte Brasil, com a Fortaleza de São João Baptista lá dentro, dá para um passeio de uma hora, mas isso fica melhor guardado para o final da tarde, quando o sol já não bate a pique.

Manhã: pão quente, pedra e pólvora

Desce até ao centro histórico para o pequeno-almoço no O Forno, que faz exactamente o que o nome promete: pão e broa saídos do forno, ainda mornos, sem cerimónia. Não é o sítio para um brunch elaborado, é o sítio para comer como um local antes de andar o dia inteiro.

Com o estômago tratado, entra no Museu de Angra do Heroísmo, no antigo Convento de São Francisco. É um dos edifícios religiosos que sobreviveram, com adaptações, ao terramoto, e o museu reúne peças de arte sacra, etnografia e a história marítima que fez de Angra escala obrigatória das frotas vindas das Índias e do Brasil entre os séculos XV e XIX. Reserva pelo menos uma hora, mais se gostares de azulejo e talha dourada.

A dois passos dali, o Núcleo de História Militar Manuel Coelho Baptista de Lima conta a outra metade da história de Angra: a de cidade fortificada, alvo de piratas e potências rivais desde o século XVI, com uniformes, armamento e a memória das guarnições que, durante séculos, defenderam este porto estratégico no meio do Atlântico. É um museu pequeno e sem pretensões, mas se gostas de perceber porque é que uma cidade açoriana tem fortalezas deste calibre, vale a paragem.

Meio-dia: a cidade que renasceu pedra a pedra

Sai dos museus e deixa-te andar sem pressa pela zona classificada. A Sé Catedral do Santíssimo Salvador, erguida no final do século XVI sobre uma igreja gótica anterior, é a maior igreja de todo o arquipélago e continua a servir de referência visual desde o mar. O Palácio dos Capitães-Generais, antigo colégio jesuíta transformado em sede do poder político depois de 1766, ocupa um quarteirão inteiro e ainda hoje é usado em cerimónias oficiais. Sobe pela Rua de São João ou pela Rua da Sé e repara nas fachadas: o contraste entre a cantaria de basalto escuro e o reboco branco não é um capricho estético, é a arquitectura açoriana clássica, pensada para durar sismos.

Para almoço, procura alcatra, o prato que define Terceira desde meados do século XV. É carne de vaca cozinhada lentamente numa panela de barro feita na ilha, em camadas com toucinho, cebola, louro, pimenta da Jamaica e vinho branco, sem se mexer durante o cozinhado, até a carne se desfazer sozinha. É comida de festa do Espírito Santo, servida tradicionalmente a centenas de pessoas em mesas compridas, mas encontra-se em várias casas de pasto de Angra ao longo do ano. Se quiseres ir mais fundo do que um prato no menu, vale a pena reservar com antecedência a experiência de cozinha tradicional dedicada à alcatra, onde aprendes a fazer o prato com as mãos em vez de te limitares a comê-lo. Faz sentido planeá-la para o dia seguinte, porque um cozinhado destes não se apressa.

Tarde: arte contemporânea e o vulcão outra vez

Depois do almoço pesado, um contraponto: a Carmina, Galeria de Arte Contemporânea Dimas Simas Lopes, mostra que Angra não vive só de património classificado. É um espaço pequeno, sem a pompa dos museus da manhã, dedicado a arte açoriana e contemporânea, e vale a visita precisamente por ser um contraste de escala e de tempo: depois de séculos de história, meia hora de arte feita agora.

É a esta hora, com o sol já mais baixo, que o Monte Brasil compensa a caminhada. O trilho que contorna a península oferece vistas alternadas sobre as duas baías de Angra, e a Fortaleza de São João Baptista, construída há mais de 400 anos e ainda hoje instalação militar em funções, dá uma escala diferente à cidade que viste de cima pela manhã. Não é um percurso técnico, mas leva calçado confortável e água, porque não há sombra em todo o lado.

Fim de tarde e noite: marina, peixe e uma cerveja devagar

Ao final do dia, desce até à marina. É ali que Angra respira mais devagar: barcos de vela que atravessaram o Atlântico, esplanadas viradas ao mar, e a luz a mudar sobre o Monte Brasil enquanto o dia acaba. Janta peixe fresco ou marisco, se encontrares lapas ou cracas na ementa, prova, são típicos da costa terceirense e raramente decepcionam. Não há necessidade de correr para um sítio específico: a zona da marina e das ruas adjacentes tem várias casas com esplanada onde o serviço é sem pressa e a conta, para duas pessoas com prato de peixe e vinho da casa, ronda valores razoáveis para os padrões açorianos, mas confirma sempre localmente antes de te sentares.

Se calhares em junho, sabe que estás a chegar perto das Sanjoaninas, a maior festa popular dos Açores, dez dias de marchas, concertos, bandas filarmónicas e tourada à corda, a modalidade em que um touro é conduzido pelas ruas preso a uma corda comprida segurada por pastores, com o público a assistir das varandas e muros. Não é para todos os gostos, mas é Terceira genuína, e se calhar acontecer durante a tua visita, vale a pena testemunhar pelo menos uma vez.

Se ficares mais um dia

Vinte e quatro horas em Angra dão para o essencial, mas a ilha Terceira pede mais tempo. Se tiveres uma manhã extra, a expedição de observação de aves ao Cabo da Praia com a ComunicAir é um dos melhores programas de natureza da ilha, com aves marinhas e migratórias que fazem escala nesta ponta do Atlântico. É uma saída matinal, por isso não tentes conciliá-la com a caminhada ao Monte Brasil no mesmo dia.

E se o teu itinerário açoriano continuar noutras ilhas, vale comparar o ritmo de Angra com o de outras capitais do arquipélago. O nosso guia sobre as 24 horas em Horta, no coração cosmopolita do Atlântico, mostra uma cidade construída por navegadores de passagem, com uma energia bem diferente da de Angra; o mesmo guia tem um capítulo à parte sobre os melhores rooftops e panorâmicas de Horta, para quem gosta de terminar o dia com vista. Se São Miguel também estiver no plano, o roteiro gastronómico por Ponta Delgada segue a mesma lógica deste texto: comer bem é a forma mais honesta de conhecer uma ilha açoriana.

Angra do Heroísmo não é uma cidade de grandes gestos. É uma cidade de pedra escura e cal branca, de museus pequenos com histórias grandes, de um vulcão extinto que serve de miradouro e de uma tigela de alcatra que leva horas a fazer porque as coisas boas, aqui, não se apressam.

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