Onde Mergulhar em Angra do Heroísmo: As Piscinas Vulcânicas
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Onde Mergulhar em Angra do Heroísmo: As Piscinas Vulcânicas

· · Angra do Heroísmo

Spoiler: praias fluviais em Angra do Heroísmo não existem. O que existe são piscinas naturais de lava com água de aquário. Da Silveira aos Biscoitos, mais onde comer lapas e provar a alcatra da Terceira.

Vou ser franco logo de início: se vieste à procura de praias fluviais em Angra do Heroísmo, vais sair desiludido. Não há rios com margens de areia branca, nem represas tranquilas onde as crianças chapinham ao sol do interior. Estamos numa ilha vulcânica a mais de 1500 quilómetros do continente, e a água aqui não desce da serra, sobe do Atlântico. O que a Terceira tem, e tem em abundância, são piscinas naturais escavadas na lava: poços de água salgada e cristalina, abrigados das ondas por paredões de basalto negro que o mar moldou ao longo de milhares de anos. Esquece o conceito de praia fluvial. Em Angra, mergulha-se na rocha.

E, honestamente, é melhor. Areia que se cola à toalha não há, ressaca traiçoeira também não, e a água tem aquela transparência de aquário que só se encontra onde o fundo é pedra escura e limpa. Passei vários verões a explorar estes poços e tenho opiniões fortes sobre quais valem a viagem e quais podes saltar. Aqui está o meu mapa pessoal.

A Silveira: o banho mais próximo da cidade

Se estás hospedado no centro histórico e não tens carro, a Silveira é o teu salva-vidas. Fica a sul da cidade, a poucos minutos de táxi ou a uma caminhada decente pela orla, e é o ponto de banho preferido dos angrenses precisamente por isso: é o quintal das traseiras da cidade. As plataformas de betão sobre a rocha facilitam a entrada na água, há escadas metálicas para quem não quer arriscar saltar e, ao fim da tarde, enche-se de gente da terra que vem dar o último mergulho antes do jantar.

O meu conselho: vai de manhã, antes das 11h. Depois disso, no pico de agosto, o espaço nas plataformas vira uma disputa de toalhas. A água está fresca o ano inteiro, ronda os 20 a 22 graus no verão, por isso não esperes Caraíbas. Esperas algo mais revigorante e infinitamente mais limpo.

Negrito e São Mateus: lava, marisco e barcos de pesca

Sigo agora para oeste, em direção a São Mateus da Calheta, o porto de pesca mais movimentado da ilha. Mesmo ali ao lado fica o complexo balnear do Negrito, com piscinas naturais entre formações de lava que parecem ter arrefecido ontem. É um dos sítios mais fotogénicos da costa: pedra preta, água azul-turquesa e, ao fundo, os barcos coloridos a entrar e sair do porto.

O grande trunfo do Negrito é combinar o banho com almoço. São Mateus vive do mar e come-se aqui o peixe e o marisco mais frescos da Terceira, muitas vezes pescados nessa mesma manhã. Não te vou inventar nomes de restaurantes que não conheço ao detalhe, mas a regra é simples: senta-te onde houver locais à mesa e pergunta o que entrou no barco hoje. Lapas grelhadas com alho e limão, cracas se tiveres sorte, e um caldo de peixe que aquece depois da água fria. Confirma os horários localmente, porque muita coisa em São Mateus fecha cedo fora da época alta.

Porto Martins e Cabo da Praia: o lado leste

Do outro lado da ilha, a leste de Angra, ficam Porto Martins e a zona de Cabo da Praia. Porto Martins tem uma das zonas balneares mais agradáveis para famílias, com poços rasos e abrigados, ideais para quem leva miúdos pequenos ou simplesmente não gosta de profundidade. É menos espetacular do que o Negrito, mas mais seguro e tranquilo.

Cabo da Praia merece um parágrafo só dele, e não exatamente pelo banho. A antiga pedreira transformou-se numa lagoa costeira de águas pouco profundas que se tornou o melhor ponto de observação de aves dos Açores. Maçaricos, pernaltas e aves migratórias raras fazem aqui escala, e é aqui que a melhor experiência de natureza da ilha acontece. Recomendo sem reservas a expedição de observação de aves com a ComunicAir ao Cabo da Praia: vais com binóculos, um guia que sabe distinguir um pilrito de um maçarico a 200 metros e sais a perceber que os Açores são muito mais do que vacas e queijo. Faz isto numa manhã de maré baixa, quando o lodo expõe a comida das aves e o espetáculo é máximo.

Biscoitos: a catedral das piscinas naturais

Se só tiveres tempo para um sítio, faz a viagem até aos Biscoitos, no extremo norte da ilha. É o complexo de piscinas naturais mais famoso da Terceira e merece a fama. Os poços abrem-se entre torres de basalto negro e o mar, e em dias de ondulação o espetáculo das ondas a rebentar nos paredões enquanto nadas em água serena é qualquer coisa que não se esquece. Há vários poços de diferentes profundidades, infraestruturas decentes e, no verão, um bar de apoio.

Aproveita a ida para conhecer a tradição vitivinícola da zona. Os Biscoitos produzem vinho de uva verdelho em currais de pedra, aqueles muros baixos que protegem as vinhas do vento salgado, e há um pequeno museu do vinho que vale a paragem se gostares do tema. Confirma os horários localmente antes de ires.

Onde comer depois do mergulho

Toda esta natação abre o apetite, e aqui é que Angra brilha de verdade. De volta à cidade, a minha recomendação firme é o restaurante O Forno, no centro histórico de Angra. É o tipo de casa onde se come comida terceirense a sério, sem firulas, com porções que respeitam quem passou a manhã na água. Reserva se fores em agosto, porque enche.

Mas se há uma coisa que tens mesmo de fazer na Terceira, é provar a alcatra. É o prato-rei da ilha: carne de vaca estufada lentamente num alguidar de barro, com vinho, pimenta da terra, cravinho e toucinho, durante horas, até a carne se desfazer ao toque do garfo. Em vez de a comeres distraído num restaurante qualquer, sugiro que aprendas a fazê-la com as próprias mãos: a experiência da arte da alcatra na Terceira põe-te no alguidar, na cozinha, a perceber porque é que cada família da ilha jura ter a receita certa. Saio sempre destas coisas a perceber muito mais sobre um sítio do que de qualquer museu.

Quando o mar está bravo: o plano B cultural

Sejamos realistas: nem todos os dias na Terceira são de banho. O Atlântico tem temperamento, e há manhãs em que a ondulação fecha as piscinas naturais e te empurra para terra. Nesses dias, Angra do Heroísmo, classificada como Património Mundial pela UNESCO, é uma cidade extraordinária para se andar a pé.

Começa pelo Museu de Angra do Heroísmo, instalado no antigo convento de São Francisco. É o melhor lugar para perceber porque é que esta cidade existe: foi durante séculos o porto onde paravam as naus que faziam a carreira da Índia e do Brasil, escala obrigatória no meio do Atlântico. A coleção conta essa história de cruzamento de mundos com clareza, e o próprio edifício, com a sua igreja barroca anexa, vale a entrada.

Para os curiosos da história militar, o Núcleo de História Militar Manuel Coelho Baptista de Lima explica como a posição estratégica da ilha a transformou numa fortaleza no meio do oceano, com canhões, armaduras e a memória das batalhas que se travaram por este pedaço de chão. E, para quem prefere arte ao presente, a galeria de arte contemporânea Carmina, dedicada a Dimas Simas Lopes, mostra que a Terceira não vive só de tradição. É uma paragem rápida mas que recalibra a ideia que se tem dos Açores.

Como chegar e como te mexeres

Voa-se para o Aeroporto das Lajes, na própria Terceira, com ligações diretas de Lisboa e do Porto e, no verão, de várias cidades europeias e da América do Norte. A partir daí, sê honesto contigo mesmo: para fazer a volta das piscinas naturais, precisas de carro. Os transportes públicos existem, mas não foram pensados para quem quer apanhar a Silveira de manhã, almoçar em São Mateus e mergulhar nos Biscoitos à tarde. Aluga um carro logo no aeroporto; a ilha é pequena, atravessa-se de ponta a ponta em menos de uma hora.

Quanto a custos, a boa notícia é que a maioria das piscinas naturais tem entrada gratuita. Pagas o estacionamento em alguns sítios no verão e pouco mais. Leva sapatos de água: o basalto é lindo mas afiado, e os ouriços não perdoam pés descalços. Leva também protetor solar, porque o vento atlântico engana e queima sem avisar.

Mais Açores para explorar

Se a Terceira te apanhou e estás a pensar saltar de ilha, vale a pena planear com cuidado. O Faial e o Pico ficam à distância de um voo curto ou de um ferry, e a cidade da Horta é uma das mais cosmopolitas do arquipélago: recomendo o roteiro de 24 horas pela Horta e, para fechar o dia ao pôr do sol, o guia dos melhores rooftops e panorâmicas da Horta. Já se o teu voo de regresso passar por São Miguel, reserva pelo menos uma refeição para o percurso gastronómico por Ponta Delgada, onde o cozido das Furnas, cozinhado no calor da terra, é uma experiência à parte.

Mas isso fica para outra viagem. Por agora, fica-te pela Terceira, atira-te à água nos Biscoitos ao nascer do dia, almoça lapas em São Mateus e termina o dia com um alguidar de alcatra. Praias fluviais não terás. Terás algo melhor: o Atlântico domesticado em poços de lava, e uma ilha que se recusa a ser apenas mais um destino de verão.

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