Angra do Heroísmo: Praias Sem Multidões na Terceira
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Angra do Heroísmo: Praias Sem Multidões na Terceira

· · Angra do Heroísmo

Na Terceira, as melhores praias não têm areia. As piscinas naturais de Angra do Heroísmo e arredores, de Cinco Ribeiras aos Biscoitos, oferecem banhos de mar espectaculares sem as multidões. Basta saber quando ir e por onde descer.

Vamos ser directos: se procura extensões de areia branca com espreguiçadeiras alinhadas, a Terceira não é para si. E ainda bem. As praias de Angra do Heroísmo e arredores são feitas de rocha vulcânica, piscinas naturais escavadas pelo Atlântico e recantos onde, com alguma estratégia, pode passar uma tarde inteira sem ouvir outra voz além do mar.

A maioria dos visitantes aterra na Terceira, vai directa à Prainha, a única praia de areia da cidade, e queixa-se que está cheia. Claro que está cheia. É a única com areia. A questão é que as melhores zonas balneares da ilha não têm areia nenhuma, e é precisamente isso que as torna extraordinárias.

A Prainha: bonita, mas chega cedo

Não vou fingir que a Prainha não existe. Encaixada na Baía de Angra, com o Monte Brasil como cenário, é objectivamente bonita. Areia escura, água transparente, vista para a marina e para o casario classificado pela UNESCO. O problema é que toda a gente sabe disto. Em Julho e Agosto, às 11h da manhã já mal há espaço para estender uma toalha.

A minha recomendação: vá à Prainha, sim, mas entre as 8h e as 9h30 da manhã. A essa hora, os turistas ainda estão a tomar o pequeno-almoço e os locais que trabalham já saíram. Tem ali uma janela de hora e meia em que aquilo é só seu e do Monte Brasil. Depois, levante-se e vá explorar o que realmente interessa.

Silveira: a piscina natural com bar

A cinco minutos de carro do centro de Angra, ou uns quinze a pé, descendo pela costa, a zona balnear da Silveira é onde os angrenses realmente vão. É uma piscina natural formada por rocha basáltica, com água do mar a entrar pelas fendas. Tem estacionamento decente, balneários, duches e, detalhe que faz toda a diferença, um bar. Não espere cocktails sofisticados, mas uma imperial gelada com os pés quase na água é difícil de bater.

A Silveira enche ao fim de semana, especialmente ao domingo à tarde. O truque é ir durante a semana ou, se for fim de semana, chegar antes das 10h. A água é mais fria do que na Prainha, estamos a falar de Atlântico açoriano, confirme localmente as temperaturas, mas conte com algo entre os 18°C e os 22°C no Verão.

Cinco Ribeiras: o esforço compensa

Aqui é onde a coisa fica séria. As piscinas naturais das Cinco Ribeiras ficam na costa sudoeste, a cerca de 15 minutos de carro de Angra. São três piscinas escavadas na rocha vulcânica, constantemente renovadas pelas ondas. A água é cristalina, o cenário é dramático, basalto negro contra o azul do Atlântico, e, detalhe crucial, há menos gente. Muito menos gente.

Porquê? Porque para chegar à água há uma escadaria longa e íngreme. Nada impossível, mas suficiente para desencorajar quem procura conforto fácil. Se tem mobilidade reduzida, não é o sítio ideal. Para todos os outros, é uma recompensa. A descida demora uns cinco minutos, a subida talvez dez, e no meio tem um banho de mar que vale cada degrau.

Não há bar nem restaurante nas Cinco Ribeiras, leve água, fruta e um lanche. E protector solar, obviamente. A sombra é escassa.

Biscoitos: as piscinas mais famosas da ilha

Na costa norte, a meia hora de Angra, as piscinas naturais dos Biscoitos são provavelmente as mais fotografadas da Terceira. E com razão: são espectaculares. Um labirinto de piscinas de diferentes tamanhos e profundidades, formadas por lava solidificada, com a serra ao fundo e o oceano a espumar nas rochas exteriores.

Mas sejamos honestos: os Biscoitos já não são segredo nenhum. Em pleno Verão, especialmente aos fins de semana, aquilo parece uma piscina municipal. A entrada é paga (valores modestos, confirme localmente), e há balneários, bar e estacionamento. Se quer ir, vá logo de manhã ou ao fim da tarde, quando as excursões já regressaram a Angra. Setembro é o mês de ouro: água ainda quente, turistas já em debandada.

Já que está nos Biscoitos, aproveite para visitar o Museu do Vinho, que fica literalmente ao lado. Os currais de vinha, muros de pedra que protegem as videiras do vento atlântico, são Verdelho da melhor espécie e fazem parte da paisagem classificada.

Porto Martins: para quem quer estrutura

Do lado oposto da ilha, na costa leste, as piscinas naturais de Porto Martins são a opção mais acessível no sentido literal: têm rampa de acesso, o que as torna indicadas para pessoas com mobilidade reduzida. A piscina principal é grande e protegida, a aldeia piscatória é genuína e há restauração à porta.

Porto Martins é mais popular entre os locais do que entre turistas, o que por si só é um bom sinal. Fica a uns 20 minutos de Angra por estrada. A combinação de banho e almoço na aldeia faz disto um meio-dia bem gasto.

Negrito e Salgueiros: os recantos dos locais

Se realmente quer fugir de toda a gente, o Negrito é uma pequena zona balnear perto de Angra com piscinas naturais e água especialmente límpida, bom para snorkelling se trouxer equipamento. Não tem grande infraestrutura, mas também não tem grandes multidões.

Os Salgueiros, na costa leste, é uma baía calma e abrigada, rodeada de vegetação (o nome vem dos salgueiros que lá crescem). É das zonas mais tranquilas da ilha e ideal para quem quer simplesmente flutuar em paz.

Depois do banho: comer como deve ser

Uma manhã de praia na Terceira pede uma tarde gastronómica. E nisto, Angra não falha. Para almoço, O Forno é uma aposta segura, cozinha regional honesta sem os preços inflacionados que encontra nas esplanadas da marina.

Se quer ir mais fundo na gastronomia terceirense, considere uma experiência de alcatra tradicional. A alcatra é o prato-bandeira da Terceira, carne de vaca cozinhada lentamente em panela de barro com especiarias, e aprender a prepará-la é uma forma de levar a ilha consigo.

Para além da água: o que fazer entre banhos

A Terceira não é só praias. Se gosta de natureza, a expedição de observação de aves ao Cabo da Praia é uma forma diferente de explorar a costa, e de descobrir zonas que a maioria dos visitantes nunca vê.

E se os Açores já lhe entraram no sangue e está a pensar em explorar outras ilhas, o Faial é o passo lógico seguinte. A Horta merece pelo menos 24 horas, é uma cidade com uma energia completamente diferente de Angra, mais cosmopolita e marítima. E para quem não resiste à mesa, Ponta Delgada tem um roteiro gastronómico que rivaliza com qualquer cidade do continente.

Guia prático: como montar a sua semana de praias

  • Dia 1: Prainha de manhã cedo (antes das 10h), tarde em Angra a explorar o centro histórico e o Monte Brasil
  • Dia 2: Cinco Ribeiras de manhã (leve lanche), tarde na Silveira com imperial no bar
  • Dia 3: Biscoitos de manhã cedo + Museu do Vinho, tarde livre
  • Dia 4: Porto Martins com almoço na aldeia
  • Dia 5: Negrito ou Salgueiros para um banho tranquilo, seguido de almoço no Forno

Regra de ouro: nas praias da Terceira, a manhã é sempre melhor do que a tarde. Menos gente, menos vento (a brisa levanta-se tipicamente ao início da tarde), e mais probabilidade de sol antes das nuvens da montanha descerem.

Como chegar e deslocar-se

A Terceira tem voos directos de Lisboa e do Porto via SATA e Ryanair (esta última com rotas sazonais, confirme disponibilidade). O aeroporto fica em Lajes, a cerca de 20 minutos de Angra. Alugar carro é praticamente obrigatório se quer explorar as praias fora de Angra, os transportes públicos existem mas são limitados e pouco frequentes.

As estradas são boas e a ilha é pequena: de ponta a ponta demora menos de uma hora. Estacionamento é geralmente fácil, excepto na Prainha em pleno Verão (vá a pé se estiver alojado no centro).

Uma semana é o tempo ideal para a Terceira. Menos do que isso e vai correr. Mais do que isso e pode aproveitar para saltar ao Faial ou a São Jorge, ambas a uma curta viagem de avião ou ferry.

A Terceira não precisa de ser uma ilha de multidões. Precisa apenas de quem esteja disposto a descer uns degraus a mais, a acordar um pouco mais cedo, e a trocar a areia pela rocha. O Atlântico é o mesmo. A diferença é que, nas piscinas naturais, é só seu.

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