O Centro de Portugal é a região que os turistas atravessam a caminho do Porto ou de Lisboa sem perceber o que estão a perder. É aqui que está a universidade mais antiga do país, as ondas mais altas da Europa, um dos santuários católicos mais visitados do mundo e uma tradição conventual de doçaria que rivaliza com qualquer outra em Portugal. Tudo isto numa faixa de território que vai da costa atlântica à fronteira espanhola.
Uma região de contrastes reais
Coimbra é o centro gravitacional. A Universidade, com a sua Biblioteca Joanina do século XVIII, define a cidade tanto quanto os estudantes de capa negra que ainda descem a Rua da Sofia em noites de serenata. Mas Coimbra não é só a universidade, o Mosteiro de Santa Clara-a-Velha, parcialmente submerso durante séculos, é um dos sítios arqueológicos mais fascinantes do país.
Aveiro funciona num registo completamente diferente. Os canais e os moliceiros fazem-na parecer um postal, mas o que interessa é o que se come: os ovos moles, doce conventual com massa de hóstia e recheio de gema de ovo, são o produto estrela. A Ria de Aveiro, a sul, oferece paisagens de salinas e palheiros de madeira pintados de cores fortes na Costa Nova.
Depois há Nazaré, que nos últimos anos se tornou referência mundial do surf de ondas grandes. O canhão submarino da Praia do Norte gera ondas que ultrapassam os 20 metros. Fora da temporada de ondas grandes (outubro a março), Nazaré é uma vila piscatória onde as mulheres mais velhas ainda usam as sete saias tradicionais e o peixe seca ao sol em estendais de madeira junto à praia.
O que comer
A leitão da Bairrada é provavelmente o prato mais emblemático da região, assado em forno de lenha até a pele ficar estaladiça. Mealhada é a capital do leitão, com restaurantes dedicados exclusivamente a este prato. Em Viseu, o rancho à moda de Viseu é uma sopa espessa de massa, feijão e carne. Na zona de Leiria e Batalha, a morcela de arroz é presença obrigatória.
A doçaria conventual do Centro é extraordinária. Além dos ovos moles de Aveiro, há os pastéis de Tentúgal, massa folhada finíssima com creme de ovos, e as queijadas de Pereira, em Coimbra. Em Caldas da Rainha, as cavacas são o doce local.
O que a maioria dos turistas não percebe
A maioria trata o Centro como paragem obrigatória em Fátima e pouco mais. Quem faz isto perde Tomar, onde o Convento de Cristo, sede dos Templários em Portugal, é um dos monumentos mais impressionantes do país, com a sua célebre Janela do Capítulo em estilo manuelino. Perde também Batalha, cujo Mosteiro é uma obra-prima do gótico tardio, com as Capelas Imperfeitas a céu aberto.
Viseu, no interior, é uma cidade que funciona como capital de facto da região da Beira Alta, com um centro histórico bem preservado em torno da Sé Catedral e do Museu Grão Vasco. A Guarda, a cidade mais alta de Portugal continental, tem um carácter mais austero e granítico, e as aldeias históricas à sua volta (Sortelha, Monsanto, Linhares da Beira) são das mais bem conservadas do país.
Quando ir
A primavera (abril a junho) é ideal para o Centro interior, Coimbra, Tomar, Viseu. O calor do verão no interior pode ser intenso, mas a costa (Nazaré, Figueira da Foz) funciona bem em julho e agosto. Para ver as ondas grandes de Nazaré, outubro a fevereiro. A Queima das Fitas de Coimbra, em maio, é a maior festa académica do país. Em Tomar, a Festa dos Tabuleiros acontece de quatro em quatro anos, a próxima deve ser em 2027.