Esqueça o Algarve em Agosto: A Costa de Leiria
Em Agosto, o Algarve é um teste de paciência com preços triplicados e areia mais cheia que o metro de Tóquio. A alternativa: usar Leiria como base e atacar a costa atlântica de São Pedro de Moel, com jantares honestos e noites frescas no interior.
Vou ser direto consigo. Em Agosto, o Algarve deixa de ser um destino e passa a ser um teste de paciência. A A2 vira um parque de estacionamento linear a partir das dez da manhã, a areia da Praia da Rocha está mais densamente povoada do que o metro de Tóquio à hora de ponta, e um bitoque numa esplanada de Albufeira custa-lhe o mesmo que um jantar decente em qualquer outro sítio do país. Toda a gente sabe isto. E toda a gente vai na mesma. Todos os anos.
Então deixe-me propor uma heresia: e se, em vez de descer até ao extremo sul com meio país, ficasse a meio caminho? Leiria e a sua faixa de costa atlântica não têm as falésias douradas dos postais, é verdade. O que têm é oceano a sério, pinhal até quase à praia, e a possibilidade real de estender uma toalha sem pedir licença a três famílias. Este é o guia para quem quer o mar de Agosto sem a parte em que odeia a humanidade.
Porque é que o Algarve em Agosto é uma armadilha
Não estou a dizer que o Algarve é mau. Estou a dizer que Agosto é o pior mês possível para o visitar. Os preços de alojamento triplicam, as praias mais bonitas (Marinha, Benagil, Camilo) enchem antes das nove da manhã e o parque só tem quarenta lugares, e a temperatura da água ronda os 20 graus mesmo com aquele calor todo, porque é Atlântico e não Mediterrâneo, por mais que os folhetos insistam no contrário.
A verdade prática: se quer grutas de Benagil vazias, vá em Maio ou Setembro. Se quer Agosto, mude de estratégia. E a mudança de estratégia mais inteligente que conheço é usar o Centro como base e atacar a costa a partir daí, com Leiria como quartel-general.
A costa a norte de Leiria: onde o Atlântico ainda respira
A faixa entre a Nazaré e São Pedro de Moel é uma coisa curiosa: toda a gente conhece a onda gigante da Nazaré (a do Inverno, a dos surfistas malucos), mas quase ninguém associa esta zona a praia de Verão. E é exatamente isso que a torna respirável em Agosto.
São Pedro de Moel é o meu ponto de partida. É uma pequena estância de veraneio encravada no meio do Pinhal de Leiria, aquela mancha de pinheiros plantada há setecentos anos para travar as dunas. Chega-se lá de carro em vinte minutos a partir de Leiria pela estrada que atravessa o pinhal, e o simples ato de conduzir por debaixo daquela abóbada de pinheiros já vale a viagem. A praia tem bandeira azul, a vila tem restaurantes de peixe fresco a preços que não são de Albufeira, e há sombra a sério nas ruas por baixo dos pinheiros.
Mais a sul, a Praia do Pedrógão e a Praia da Vieira são o segredo mal guardado de quem é de Leiria. Areal largo, ondulação para bodyboard, e uma informalidade que se perdeu no litoral algarvio há vinte anos. Não espere restaurantes de estrela Michelin nem cocktails de autor. Espere sardinha assada, cerveja fresca, e a sensação de que ainda há sítios onde o Verão português não foi embalado e vendido.
Onde comer quando voltar do mar
Depois de um dia de sal e areia, o que se quer é comida honesta e abundante. Leiria e os arredores fazem isto extraordinariamente bem, e sem o imposto turístico do sul.
Se há um sítio que define a cozinha desta zona, é a Casinha Velha, nos arredores de Leiria. É daqueles restaurantes que os locais protegem como um segredo de família e onde a carta de vinhos é tão séria que parece um erro de casting para uma casa de aspeto tão modesto. Vá com fome e sem pressa.
Para algo mais informal, com aquela lógica de taverna onde se pede muitos pratos e se partilha tudo, a Mata Bicho Real Taverna é a escolha certa para o fim de tarde. É o tipo de sítio onde uma refeição se transforma sem aviso numa noite inteira. E se quer subir um pouco o registo, com cozinha mais cuidada e uma sala com jeito, reserve mesa no Restaurante Culinaris, no coração da cidade, perfeito para um jantar em que se quer impressionar sem se armar em coisa que não é.
Onde dormir: a jogada de mestre é ficar no interior
Aqui está o truque que separa o turista esperto do turista que passou Agosto a suar num apartamento sobrelotado. Não durma na praia. Durma a dez ou quinze minutos dela, no verde, onde as noites são frescas e os preços fazem sentido.
A Quinta do Bamby é a definição desta filosofia: campo, piscina, o silêncio das noites de Verão do interior, e a praia a uma curta viagem de carro. Para quem viaja em grupo ou família e prefere ter cozinha e independência, o Locoinlameiro oferece exatamente esse tipo de base descontraída. E se procura algo com um pé na natureza e outro no conforto, a Rural Natura Leiria é a aposta para quem quer acordar com pássaros e não com o vizinho a arrastar a mala às sete da manhã.
Para uma ocasião especial, aquele fim de semana em que se quer fingir que se é rico durante quarenta e oito horas, o retiro privado na Villa Nour, em Arrabal, é o tipo de luxo rural que faz esquecer completamente que existe uma coisa chamada trânsito na A2.
Os dias em que o mar está fechado
Há sempre aquele dia em Agosto em que a nortada se levanta e a praia passa a ser um exfoliante de areia a cinquenta quilómetros por hora. É para esses dias que Leiria guarda as melhores cartas.
A minha sugestão preferida é meter as mãos no barro. O workshop de olaria tradicional na Bajouca é uma daquelas experiências que soam a atividade de brochura mas que, na prática, são profundamente satisfatórias: passar duas horas ao torno, sujo até aos cotovelos, a perceber porque é que os oleiros desta região são o que são. Leva-se uma peça para casa e, mais importante, leva-se uma noção nova das mãos.
Se preferir esticar as pernas, a região do Centro está cheia de caminhos que compensam quando o calor aperta menos. O nosso guia honesto dos trilhos em torno de Caldas da Rainha serve tão bem no fim de Agosto como na Primavera, sobretudo ao início da manhã ou ao fim do dia.
Enquadrar a viagem no calendário do Centro
Uma coisa que aprendi a fazer é planear estas fugas em torno do que a região oferece para lá da praia. Se calhar apanhar Leiria no início de Agosto e prolongar a viagem para sul, vale a pena saber que o Centro tem um calendário próprio e denso. Coimbra, a menos de uma hora, tem uma energia estudantil que explica muito do carácter da região, e mesmo fora da época o nosso guia honesto da Queima das Fitas ajuda a perceber essa cultura da praxe que molda a cidade.
E há Fátima, a vinte minutos de Leiria, que em Agosto tem menos peregrinos do que em Maio mas continua a ser um dos lugares mais interessantes do país para observar fé e turismo a misturarem-se. Se quiser entender o fenómeno em toda a sua escala, o guia da peregrinação de 13 de Maio dá-lhe o contexto que faltava.
Contas feitas: o plano de Agosto sem sofrimento
Deixe-me resumir a estratégia. Fica no interior de Leiria, num alojamento com piscina e sombra. Sai de manhã cedo, antes das nove, para São Pedro de Moel ou Pedrógão, apanha as melhores horas de sol e mar, e regressa antes do pico do calor. Almoça leve na praia, dorme a sesta, e ao fim do dia desce à cidade ou fica pela vila para jantar com calma. Nos dias de vento, olaria, trilhos, ou uma escapada a Coimbra ou Fátima.
Orçamento realista: alojamento rural para dois a partir de cerca de 70 a 100 euros por noite em Agosto (contra os 200 e muitos do litoral algarvio), jantar completo com vinho por 25 a 35 euros por pessoa nos restaurantes que referi, e combustível para as escapadas à praia que cabe no bolso porque tudo fica a menos de meia hora. Confirme sempre preços e horários localmente, que Agosto é traiçoeiro e as coisas mudam.
Não vou dizer-lhe que a costa de Leiria é mais bonita que o Algarve, porque não é verdade e você saberia que estava a mentir. O que lhe digo é isto: em Agosto, a beleza de uma praia mede-se pelo espaço que sobra para respirar. E aí, meu caro, Leiria ganha por uma distância que envergonha. Deixe o sul para Setembro. O sul agradece, e o seu Agosto também.