Serra da Estrela

O ponto mais alto de Portugal continental é também o mais subestimado: uma região onde se faz queijo DOP à mão com cardo, aldeias de granito servem de pista de parapente, e o vale glaciar do Zêzere rivaliza com paisagens alpinas. A Serra da Estrela não é só neve, é o Portugal que a maioria dos portugueses ainda não conhece.

A Serra da Estrela é o ponto mais alto de Portugal continental, 1993 metros que mudam tudo o que se pensa saber sobre o país. Quem conhece Portugal apenas pelo litoral e pelo Algarve não imagina que existe uma região onde neva no inverno, onde os pastores ainda fazem queijo à mão com cardo e leite cru de ovelha bordaleira, e onde aldeias de granito parecem ter sido esquecidas pelo século XXI, às vezes para melhor.

O que define a Serra da Estrela

Esta não é uma serra qualquer. É a única região de Portugal com uma estação de ski (por mais modesta que seja), a única onde se produz o queijo DOP mais famoso do país, e uma das poucas onde o cão de raça autóctone, o Serra da Estrela, ainda trabalha a guardar rebanhos. A paisagem muda drasticamente com a altitude: vinhas e pomares no vale do Zêzere, bosques de carvalhos e castanheiros nas encostas médias, e planalto rochoso varrido pelo vento lá em cima, com lagoas glaciares como a Lagoa Comprida e a Lagoa Escura.

As cidades da região funcionam como portas de entrada distintas. A Covilhã, antiga capital da lã portuguesa, é a maior e mais urbana, com universidade e uma energia jovem que contrasta com a serra acima. Seia tem o Museu do Pão e o Museu do Brinquedo, e é o ponto de partida clássico para quem sobe ao Torre pelo lado poente. Manteigas, encaixada no vale glaciar do Zêzere, é provavelmente a vila mais bonita da serra, ponto de partida para trilhos sérios como a rota do vale glaciar. Gouveia é mais discreta, com um centro histórico compacto e bom queijo nas lojas locais. Belmonte tem a sua história judaica notável, uma das poucas comunidades cripto-judaicas que sobreviveu séculos em segredo. E Linhares da Beira, aldeia histórica com castelo medieval, é um dos melhores sítios de parapente em Portugal.

O que comer

O queijo Serra da Estrela DOP é obrigatório, o verdadeiro, curado, com interior cremoso que se come à colher. Compre-o diretamente a produtores em Manteigas ou Gouveia, não na autoestrada. Além do queijo: o cabrito assado no forno a lenha, o arroz de carqueja, as migas com entrecosto, e a truta do rio Zêzere quando a encontrar fresca. No Fundão, as cerejas são instituição, há festival em junho e a fruta é excepcional. No inverno, os enchidos da região e a sopa de castanhas aquecem como deve ser.

Quando ir

A maioria dos portugueses pensa na serra apenas em duas alturas: neve (dezembro a fevereiro, mas nem sempre há) e verão (julho-agosto, para fugir ao calor). Os melhores meses são maio-junho e setembro-outubro. Na primavera, os trilhos estão verdes e floridos, as temperaturas são perfeitas para caminhar, e não há multidões. No outono, os castanheiros mudam de cor e começa a temporada do queijo novo. O inverno vale pela experiência, mas a estrada para o Torre fecha com frequência e as condições são imprevisíveis.

O que os turistas erram

O erro mais comum é subir ao Torre de carro, tirar uma foto junto à torre de telecomunicações, comprar um queijo industrial na loja de souvenirs, e descer. A serra não está no cimo, está nos vales, nos trilhos, nas aldeias. Outro erro: vir só de passagem num dia. A Serra da Estrela pede pelo menos duas noites. Precisa-se de tempo para caminhar o vale glaciar, para sentar numa tasca em Manteigas, para visitar Linhares ao fim da tarde quando a luz bate no castelo. Quem tem pressa perde tudo o que interessa.