Covilhã

Antiga capital dos lanifícios portugueses, a Covilhã reinventou-se com arte urbana de nível internacional e uma universidade que ocupa as fábricas de outrora. É o ponto de partida ideal para a Serra da Estrela, mas merece pelo menos uma noite por mérito próprio.

A Covilhã não é uma cidade bonita no sentido convencional. É íngreme, com ruas que sobem e descem sem piedade, e o betão de algumas décadas menos felizes convive com fachadas que já viram melhores dias. Mas é exactamente esse atrito, entre a decadência industrial e a reinvenção, que torna este sítio interessante.

Uma cidade que se reconstruiu em lã e tinta

Durante séculos, a Covilhã foi a "Manchester Portuguesa", com fábricas de lanifícios ao longo das ribeiras da Carpinteira e da Degoldra. A Real Fábrica de Panos, mandada construir por ordem de D. José I em 1764 sob o impulso do Marquês de Pombal, foi o motor da cidade. Quando a indústria têxtil colapsou nos anos 70, ficou o esqueleto. A Universidade da Beira Interior ocupou os edifícios da antiga fábrica, e hoje o Museu de Lanifícios, instalado na tinturaria original, mostra os tanques de tingimento recuperados como património nacional. Vale a visita, nem que seja para perceber o peso que a lã teve aqui.

A outra camada chegou em 2011, quando o festival WOOL começou a convidar artistas internacionais para pintar as paredes da cidade. Não é street art decorativa: cada mural dialoga com a história do sítio, pastores, montanhas, teares. Um passeio pelas ruas mais íngremes do centro revela dezenas de obras que transformaram empenas cegas em galerias a céu aberto.

O que comer e quanto tempo ficar

A Covilhã é porta de entrada para a Serra da Estrela, mas merece pelo menos uma noite por direito próprio. De manhã, um café nos clássicos do centro, o Café Primor ou o Café Saudade, antes de subir à serra. Para comer, o queijo Serra da Estrela amanteigado com pão da região é obrigatório, e os restaurantes locais servem cabrito assado e javali com doses generosas. A Varanda da Estrela, com vista para o vale glaciar, é uma referência para cozinha serrana.

A melhor altura para visitar depende do que procura: neve entre Dezembro e Março (a Torre, o ponto mais alto de Portugal continental, fica a meia hora), ou caminhadas e aldeias de xisto na Primavera e Outono, quando o calor não aperta e a serra está verde. O Verão traz o WOOL e uma energia universitária que a cidade perde em Agosto.

Ponto de partida, não paragem técnica

Muita gente passa pela Covilhã a caminho da neve ou das aldeias serranas. É um erro tratá-la apenas como base logística. A combinação de história industrial, arte urbana com curadoria séria e a presença jovem da UBI dá-lhe uma personalidade que outras cidades do interior não têm. Não é perfeita, mas é genuína, e isso, no interior de Portugal, vale muito.