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Covilhã a Pé: Trilhos da Serra por Dificuldade

· · Covilhã

Cinco trilhos da Serra da Estrela, ordenados pela dificuldade real, com paragens estratégicas em cafés que servem o pequeno-almoço a sério e conselhos sobre quando absolutamente não vir (agosto, sempre).

Há duas formas de conhecer a Covilhã. A primeira é a versão postal: ficar no miradouro da Praça do Município a olhar para a Cova da Beira, fotografar as fachadas em xisto, comer um pastel de feijão e ir embora. A segunda é calçar botas, encher uma garrafa de água numa fonte pública (sim, ainda existem) e meter pelos trilhos que sobem da cidade até aos 1993 metros da Torre. Esta é uma guia para quem escolhe a segunda.

Antes de qualquer coisa, um aviso: a Serra da Estrela não é o Gerês. Não tem cascatas escondidas a cada curva nem aldeias com tasca de bifana ao fundo do trilho. O que tem é granito, vento, vacarias abandonadas e silêncios longos. É uma serra para quem gosta de paisagem horizontal, não vertical. E é, sem dúvida, o melhor parque natural de Portugal para quem quer caminhar sem se cruzar com mais ninguém durante quatro horas seguidas, fora do mês de agosto.

Organizei os trilhos por dificuldade real (não a do papel) e por aquilo que considero a relação esforço/cenário. Comecei pelos mais acessíveis, que se podem fazer em meia manhã antes do almoço, e termino com aqueles que exigem comida na mochila e respeito pelo tempo. Deixei de fora os percursos que oficialmente existem mas que estão por sinalizar há anos, ou que terminam em estradas alcatroadas. Não vale a pena.

Antes de partir: o ritual da Covilhã

A caminhada começa antes da caminhada. Os locais sabem isso. O pequeno-almoço faz-se num de três sítios, e a escolha diz muito sobre o tipo de caminhante que se é. Se o trilho começa cedo e quer arrancar com café duplo a sério e uma torrada que aguente quatro horas, vá ao Café Primor. É o sítio onde os pais levam os filhos antes de irem para a escola, onde os reformados leem o jornal em silêncio e onde o empregado já sabe a sua bica antes de a pedir. Sem cerimónia, sem latte art, sem playlist de jazz. Perfeito.

Se prefere algo mais lento, com mesa para abrir o mapa e discutir o percurso, o Café Saudade é a melhor opção. Tem mais espaço, atendimento sem pressa e bolos caseiros decentes. Não vá pelo nome (que é um cliché), vá pelo facto de ser um dos poucos cafés da cidade onde se pode estar uma hora sem que ninguém olhe de lado.

Para quem quer começar com sol na cara, o Café Bar Covilhã Jardim tem esplanada virada ao jardim público. Bom para o regresso, aliás: depois de cinco horas de granito, sentar ali com uma imperial e umas azeitonas é a melhor recompensa que a cidade oferece por menos de dez euros.

Trilhos fáceis: pernas verdes, postais garantidos

1. PR3 Covilhã, Trilho do Cabeço (cerca de 6 km)

Este é o trilho que recomendo a quem chega à cidade na sexta-feira à noite e quer fazer alguma coisa no sábado de manhã sem se comprometer demasiado. Sai da zona da Cova da Beira, sobe suavemente por entre carvalhos e pinheiros e oferece, no ponto mais alto, uma vista limpa sobre a cidade e os seus telhados de ardósia. Faz-se em duas horas a passo confortável.

Vale o esforço? Sim, mas não pelo cenário, que é correto sem ser memorável. Vale pela introdução. É aqui que se percebe o tipo de terreno: lascas de xisto soltas, troços de pista florestal, alguns lanços por estradão. Se sentir que isto já é demais, esqueça os trilhos das próximas secções. Se sentir que é fácil de mais, está pronto para o que vem a seguir.

2. Rota das Faias do Pessegueiro (cerca de 8 km)

Pouco conhecido fora da região, este percurso faz-se a partir da aldeia do Sarzedo. As faias são o detalhe que justifica a viagem: é uma das raras manchas de faia da Beira Interior, e em outubro e novembro, quando as folhas mudam para um amarelo cobre, o efeito é qualquer coisa que não se esquece. Em janeiro, com geada, é outra história. Em julho, com calor, escolha outro trilho.

Vá com botas impermeáveis. Há um par de troços com nascentes a brotarem no meio do caminho durante todo o ano. Encontrar quem o sinalize bem é difícil, por isso descarregue o GPX antes de sair de casa.

Trilhos médios: onde a serra começa a falar a sério

3. PR1 MTG, Trilho dos Poços (cerca de 9 km)

Este é o trilho mais subestimado de toda a Serra da Estrela, e digo-o com convicção. Faz-se a partir de Manteigas (a 30 minutos de carro da Covilhã), atravessa o Vale do Zêzere pela margem esquerda e termina num conjunto de poços de neve do século XVIII que serviam para conservar gelo durante o verão. Para quem quer aprofundar este percurso e a sua história, recomendo a leitura do guia Manteigas: Os Poços de Neve e a Serra a Sério, que cobre a logística com mais detalhe e contextualiza a indústria do gelo na região.

O grau de dificuldade é médio porque há um troço de subida íngreme nos primeiros quilómetros, mas o resto é confortável. Faça-o numa manhã de outubro ou abril, com lanche na mochila, e leve fato de banho se for em maio ou junho: as poças do rio são geladas, mas funcionam.

3. Trilho da Garganta de Loriga (cerca de 10 km)

A Garganta de Loriga é a mais espetacular de toda a serra, e ainda assim continua menos visitada que a Covão dos Conchos (essa, sim, já com fila para fotografias). O trilho desce pela ribeira até à praia fluvial de Loriga, atravessando uma garganta com paredes de granito de mais de cem metros. Em junho e julho, com a água alta, é cinematográfico. Em agosto está cheio. Em setembro, perfeito.

Aviso: tem cerca de 600 metros de desnível negativo. A descida é a parte fácil. A subida de regresso, sob o sol, é punitiva. Se puder, deixe um carro em Loriga e suba de boleia até ao ponto de partida. Os táxis locais cobram cerca de 15 euros por este serviço (confirme localmente).

Trilhos exigentes: para quem leva a serra a peito

4. PR1 SEI, Trilho das Penhas Douradas e Vale do Rossim (cerca de 14 km)

Aqui já se exige preparação. O percurso começa nas Penhas Douradas, atravessa planaltos de granito a 1500 metros de altitude, passa pelo Vale do Rossim (onde, no verão, é possível mergulhar na albufeira) e regressa pelo trilho das vacarias antigas. São cinco a seis horas de caminhada efetiva, com pouco abrigo do sol e do vento. Em julho, com 30 graus em baixo e 22 em cima, ainda é confortável. Em fevereiro pode haver gelo nas pedras.

O cenário é a razão para vir: granito, granito e mais granito, com líquenes amarelos a quebrar a monotonia. Não há árvores. Há vento sempre. Há, em compensação, silêncios que só existem aqui e nos Açores. Leve dois litros de água por pessoa, mesmo que vá voltar a passar por uma fonte: o calor seca tudo.

5. Travessia Covilhã, Torre, Manteigas (cerca de 22 km)

Este é o trilho que separa quem caminha de quem só passeia. Sobe da Covilhã pelo vale glaciar (a antiga via romana, com vestígios visíveis em vários pontos), passa pela Torre e desce para Manteigas pelo Vale do Zêzere. Faz-se em sete a nove horas, depende do ritmo. Não é tecnicamente difícil. É longo, é alto e é exposto.

Recomendo dividir em dois dias com pernoita na pousada da Torre ou numa das casas de turismo rural de Manteigas. Faz-se também em jeito de travessia integral, mas exige condição física séria. Não tente em janeiro nem em fevereiro sem equipamento de neve. A Torre, lembrar, está a 1993 metros e o tempo muda numa hora.

Quando ir, e quando absolutamente não ir

A pior altura para caminhar na Serra da Estrela é agosto. Não pelo calor (que se gere), mas pelo número de pessoas. As estradas para a Torre ficam congestionadas a partir das dez da manhã, os parques de estacionamento dos trilhos populares enchem-se, e o que devia ser silêncio passa a ser conversas em três línguas e comboios de motas.

A melhor altura, na minha opinião, é entre meados de setembro e meados de novembro. Os dias ainda têm luz suficiente, as temperaturas são amenas, há cor nas faias e nos castanheiros, e os turistas regressaram a casa. Maio e junho também são bons, com a vantagem de a água dos rios estar alta. Inverno é para quem sabe o que faz: a serra com neve é majestosa mas implacável.

Logística: como chegar, onde ficar, o que comer ao fim do dia

A Covilhã tem comboio direto desde Lisboa, com paragem em Coimbra. Demora cerca de quatro horas. De carro, vem-se pela A23 e A25, e fica a três horas e meia do Porto. Para quem chega sem viatura, alugar carro é praticamente obrigatório se quiser fazer mais de um trilho: os transportes públicos para os pontos de partida são quase inexistentes.

Para dormir, a oferta na cidade é decente. Há a Pousada Serra da Estrela, no antigo sanatório, que vale a noite mesmo que não esteja a fazer caminhadas. Há também alojamentos locais em casas reabilitadas no centro histórico, geralmente bem mais económicos. Se quiser estar mais perto dos trilhos, fique em Manteigas: a vila é pequena, as casas de turismo rural são genuínas, e o pequeno-almoço com queijo da serra é melhor.

Ao fim do dia, depois do duche, o melhor sítio para comer na Covilhã não é nenhum dos restaurantes turísticos do centro. É qualquer tasca da Cova da Beira que tenha arroz de feijão com couves e um par de pratos do dia escritos a giz. Peça vinho da casa: a região do Dão começa logo ali ao lado, e os vinhos servidos a copo são, com frequência, melhores que muito Reserva de prateleira.

Para os dias em que as pernas dizem não

Nem todos os dias da semana têm de ser de trilho. Para os dias de descanso, ou quando o tempo não ajuda, a Covilhã tem uma identidade própria que vale a pena explorar. A cidade foi, durante mais de dois séculos, a Manchester portuguesa: aqui se fiou, teceu e tingiu a lã que vestiu Portugal e meio mundo. Esse legado está vivo nas chaminés, nas fachadas das antigas fábricas e na arte urbana que cobre os edifícios desativados.

O passeio guiado Lã e Paredes: Uma Incursão pelo Património Industrial e Arte Urbana da Covilhã faz exatamente esse percurso, e é a melhor forma de entender por que razão a cidade tem a densidade de murais que tem. Para uma versão mais profunda e museológica, o Museu de Lanifícios, instalado num antigo complexo industrial, conta a história com peças e máquinas originais. Vale duas horas calmas.

Se ainda tiver dias para gastar e a serra estiver fechada por neve ou chuva, dois desvios pela região fazem sentido. O guia Da Covilhã às Aldeias de Xisto: Roteiro de Um Dia propõe um circuito por aldeias rurais que parecem suspensas no tempo, com paragem para almoço numa tasca decente. E em março, se a sorte estiver do seu lado, não há melhor passeio na região do que o que descrevo no guia O Despertar da Gardunha: as cerejeiras em flor no Fundão duram pouco mais de uma semana, mas valem a viagem.

Última nota

A Covilhã não é Sintra nem é Geres. Não tem dezenas de hotéis-boutique nem vista de mar nem mil restaurantes Michelin a abrirem por mês. Tem granito, vento, fábricas paradas e gente que ainda diz bom dia ao desconhecido. Para os caminhantes, é o melhor que o país tem para oferecer: silêncio a sério, paisagem que não se cansa, e uma cidade discreta para regressar ao fim do dia, com cerveja na esplanada e pernas castigadas. Não há melhor combinação.

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