Manteigas: Os Poços de Neve e a Serra a Sério
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Manteigas: Os Poços de Neve e a Serra a Sério

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Entre os séculos XVII e XVIII, poços de pedra na Serra da Estrela armazenavam neve para abastecer Lisboa de gelo. O trilho que parte de Manteigas leva-nos até estas ruínas esquecidas, com 800 metros de desnível e vistas que compensam cada passo.

Há caminhadas na Serra da Estrela que toda a gente faz e depois há esta. O Percurso dos Poços de Neve, a partir de Manteigas, não aparece nos panfletos do posto de turismo com a mesma frequência que o passeio ao Covão d'Ametade ou a obrigatória selfie na Torre. E ainda bem. Este é um trilho que exige pernas, alguma preparação e uma certa disposição para ficar sozinho com o vento, e que recompensa com ruínas de uma indústria esquecida e vistas que justificam cada gota de suor.

O Que São os Poços de Neve, Afinal

Antes dos frigoríficos, alguém tinha de resolver o problema do gelo. Entre os séculos XVII e XVIII, a Serra da Estrela era o grande fornecedor de neve para Lisboa, Coimbra e outras cidades. Os poços, estruturas circulares de pedra, escavados no planalto acima dos 1700 metros, serviam para armazenar neve compactada, que era depois transportada em mulas serra abaixo, embrulhada em palha e fetos para retardar o derretimento. O gelo servia para conservar alimentos, preparar sorvetes e, curiosamente, para uso medicinal. Uma operação logística brutal, feita à força de braço, em condições que hoje nos mandariam para casa com um atestado.

Hoje restam várias destas estruturas no planalto, em diferentes estados de conservação. São basicamente buracos circulares revestidos de pedra, com dois a três metros de profundidade, que o mato vai engolindo lentamente. Não espere placas interpretativas sofisticadas, parte do interesse é chegar lá e ter de imaginar o que aquilo era, com a ajuda do vento e do silêncio.

O Trilho: De Manteigas ao Planalto

O percurso mais clássico parte de Manteigas e é, sem meias palavras, exigente. Estamos a falar de cerca de 16 quilómetros (ida e volta), com um desnível acumulado que ultrapassa os 800 metros. Não é uma caminhada para quem comprou botas na véspera. Dito isto, o trilho está razoavelmente bem marcado e não apresenta dificuldades técnicas, é pura e simplesmente longo e íngreme.

A subida começa na vila e segue pelo vale do rio Zêzere, passando por zonas de floresta antes de abrir para a paisagem de altitude. É nessa transição que a caminhada ganha outro carácter: as árvores desaparecem, o granito domina, e o horizonte estende-se em todas as direções. Nos dias claros, a vista desde o planalto é absurda, consegue-se ver a Gardunha e, mais além, as planícies da Beira Baixa. Se a ideia de ver as cerejeiras em flor no Fundão já lhe passou pela cabeça, saiba que daqui de cima, numa manhã limpa de primavera, quase se adivinha o branco das árvores lá em baixo.

A descida faz-se pelo mesmo caminho ou, se tiver organizado transporte, pode continuar pelo planalto em direção à Nave de Santo António e descer por outro trilho. Esta segunda opção acrescenta complexidade logística mas evita o castigo de repetir a subida nos joelhos.

Quando Ir

A janela ideal vai de maio a outubro. No inverno, o planalto pode ter neve (a sério, não a neve decorativa que às vezes cai em Lisboa nas notícias), e as condições mudam rapidamente. Mesmo no verão, leve uma camada extra, a 1800 metros, o vento corta e a temperatura pode cair dez graus em relação a Manteigas.

O melhor conselho que posso dar: comece cedo. Às sete da manhã, quando sai de Manteigas, a vila ainda cheira a pão quente e o vale do Zêzere tem aquela luz rasante que faz a fotografia sozinha. Mais importante, chega ao planalto antes do calor apertar e tem a tarde inteira para descer com calma.

O Que Levar

Água. Mais água do que acha necessário. No planalto não há fontes, não há cafés, não há nada. Leve pelo menos dois litros por pessoa, mais nos dias quentes. Comida para o almoço, protetor solar (a altitude é traiçoeira), e botas com sola decente, o terreno de altitude é pedregoso e irregular.

Manteigas: Mais do Que um Ponto de Partida

A maioria dos caminhantes trata Manteigas como base logística e pouco mais. Erro. A vila merece pelo menos uma tarde de atenção, de preferência depois da caminhada, quando os músculos pedem uma esplanada e um copo de vinho.

Manteigas é uma das poucas vilas serranas que manteve vida própria sem se transformar num cenário para turistas. Há mercearias a funcionar, há gente nas ruas, há um centro de saúde e uma escola. Isso dá-lhe um carácter que falta a outros sítios da serra que vivem exclusivamente do fim de semana.

Gastronomicamente, a estrela é o queijo Serra da Estrela, e aqui compra-se diretamente a produtores, não em lojas de souvenirs com preços inflacionados. Pergunte nos cafés da vila quem tem queijo fresco para vender. O cabrito assado e o arroz de carqueja são outras referências locais que vale a pena procurar nos restaurantes da zona. Quanto a restaurantes específicos, os que ficam na rua principal têm geralmente boa relação qualidade-preço, confirme localmente o que está aberto, porque fora da época alta nem todos funcionam todos os dias.

O Vale Glaciar do Zêzere

O trilho dos Poços de Neve acompanha, na sua parte inicial, o Vale Glaciar do Zêzere, um dos exemplos mais impressionantes de geomorfologia glaciar em toda a Península Ibérica. Este não é um facto que se leia e se esqueça: quando se está dentro do vale, a escala é evidente. As paredes laterais sobem abruptamente, o fundo é plano e largo, e percebe-se imediatamente que aquilo foi escavado por uma força muito maior do que a água de um rio.

O Covão d'Ametade, a meio do vale, é o ponto onde a maioria dos visitantes chega de carro e dá meia volta. Se fizer o percurso a pé desde Manteigas, passa por lá com a vantagem de o ver sem a multidão habitual, especialmente se seguiu o conselho de começar cedo.

Estender a Viagem: A Serra e os Arredores

Se tem mais do que um dia, Manteigas funciona como base para explorar toda a vertente leste da Serra da Estrela. O Vale do Zêzere oferece outros trilhos, alguns mais curtos e acessíveis, e a estrada para a Torre (N338) é uma experiência em si, sinuosa, dramática e com paragens que justificam levar a câmara.

Para quem quer complementar a serra com algo diferente, um roteiro pelas Aldeias de Xisto a partir da Covilhã é o contraste perfeito: da pedra granítica da altitude para o xisto quente e escuro dos vales. A Covilhã fica a menos de 40 minutos de Manteigas e serve como porta de entrada para esse outro mundo.

E se estiver em Portugal em março e quiser mudar radicalmente de cenário depois da serra, saiba que a costa oeste está no auge da temporada de ondas. Pode parecer uma transição estranha, da neve para o mar, mas é uma das coisas bonitas de um país deste tamanho. Consulte o nosso guia de surf em Portugal em março se a ideia lhe fizer sentido.

Informações Práticas

Manteigas tem alojamento para vários orçamentos, desde pensões simples a casas rurais com mais conforto. Reserve com antecedência nos fins de semana prolongados e no verão, a vila é pequena e esgota rápido.

De carro, Manteigas fica a cerca de 3h30 de Lisboa pela A1 e A23, ou 2h do Porto pela A25. Não há transportes públicos práticos para a vila, é um destino de carro, sem discussão. O estacionamento na vila é geralmente fácil, exceto em dias de maior afluência.

Para o trilho dos Poços de Neve, não é necessário guia, mas considere descarregar o track GPS antes de sair, a cobertura de rede no planalto é irregular. A aplicação Wikiloc tem vários registos deste percurso com indicações fiáveis. Não há taxa de entrada, mas trate o planalto com o respeito que merece: leve o lixo consigo, não faça lume, e lembre-se de que está dentro do Parque Natural da Serra da Estrela.

Uma última nota: se fizer esta caminhada e ficar com o bichinho do trekking de montanha, saiba que a Serra da Estrela tem uma rede de trilhos que daria para semanas. Mas comece por este. Os Poços de Neve contam uma história que mais nenhum trilho da serra conta, a de pessoas que trabalhavam no frio extremo para que, centenas de quilómetros a sul, alguém pudesse ter um copo de limonada fresca.

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