Manteigas no Verão: Os Poços de Água Gelada dos Locais
Em agosto, o rio Zêzere ainda corre a 12 graus quando Lisboa está a derreter. Onde é que os manteiguenses vão mergulhar sem turistas, drones, nem filas no Poço do Inferno.
Em julho, quando Lisboa derrete a 38 graus e o Algarve cobra 7 euros por uma cerveja morna na praia, há uma cidade a 1100 metros de altitude onde a água do rio mal passa dos 12 graus e os locais ainda se queixam que está demasiado quente. Manteigas, encaixada no fundo do Vale do Zêzere, é o melhor segredo de verão de Portugal, e os habitantes preferem mantê-lo assim.
Vou ser direto: este artigo não é sobre a Lagoa Comprida, nem sobre a Torre, nem sobre os poços que vêm em todos os blogues de viagem. Esses sítios estão tão cheios em agosto que parece a fila do IKEA num sábado. Vou contar onde é que os manteiguenses vão quando querem mergulhar sem ouvir um drone a zumbir por cima da cabeça.
Porquê Manteigas no Verão (e Não a Praia)
A geografia faz o trabalho todo. O Vale do Zêzere é o único vale glaciar perfeito da Europa Mediterrânica, esculpido em forma de U por um glaciar que recuou há cerca de 20.000 anos. O que isso significa na prática: o rio Zêzere nasce a 1900 metros, na Torre, e desce praticamente em queda livre durante 13 quilómetros até Manteigas. Quando chega à cidade, ainda está gelado. Em agosto. Em pleno verão.
Acrescente-se a altitude da própria vila (775 metros), o ar seco da serra, e as noites em que se dorme com cobertor mesmo quando em Castelo Branco está a 30 graus à meia-noite. É um microclima que nenhuma outra zona do interior consegue replicar.
Já agora, um aviso prático antes de continuar: a água tem 12 a 14 graus em julho e agosto. Não é refrescante, é um choque térmico. Entre devagar, comece pelos pés, e se tiver algum problema cardíaco fale com o médico antes de fazer mergulhos de cabeça. Os locais riem-se de quem entra a correr e sai aos gritos cinco segundos depois. Não seja essa pessoa.
Os Poços que os Locais Usam (Por Ordem de Dificuldade)
Poço do Inferno: O Óbvio, Mas Vá Cedo
Sim, eu sei. O Poço do Inferno está em todos os mapas turísticos. Está nos itinerários do Booking. Aparece a primeira posição quando se pesquisa "Manteigas piscinas naturais". E sim, em agosto está cheio.
Mas. Mas. Se chegar antes das 9h30, particularmente num dia de semana, ainda tem aquela queda de água de dez metros toda para si. A estrada de acesso (M1003) é estreita e curvilínea, demora uns 20 minutos a partir do centro de Manteigas, e estaciona à beira do caminho. Não há entrada paga, não há funcionários, não há cafés. Há apenas uma queda de água espetacular num poço azul-esverdeado com cerca de 4 metros de profundidade.
Conselho de manteiguense: vá de manhã, traga café de termos, e saia antes das 11h30 quando começam a aparecer os autocarros e as famílias. Voltar à tarde é perder tempo.
Covão da Ametade: Família, Sombra, e Truta
A meio caminho entre Manteigas e a Torre, o Covão da Ametade é um anfiteatro natural com pradarias verdes, choupos, e um troço do Zêzere onde se formam pequenas piscinas naturais ideais para crianças. Há mesas de piquenique, sombra a sério, e na zona de churrascos quase sempre se vê uma família a grelhar costeletas.
Não é o sítio para mergulhos heroicos, é o sítio para passar o domingo. Há uma truticultura ali perto onde se pode comer truta acabada de sair da água (peça no balcão, eles dizem-lhe onde ir).
As Piscinas Naturais Antes da Cidade
Aqui é onde entra o conhecimento local. Se vier pela N338 a partir de Belmonte, antes de entrar em Manteigas, há vários pontos onde o rio se alarga e forma poços de pedra. Não estão sinalizados. Não estão no Google Maps. Estacione onde vir outros carros estacionados, atravesse o muro de pedra, e desça os 50 metros até ao rio.
Os melhores poços ficam na zona entre a Albergaria do Vale do Zêzere e a entrada da vila. Procure os sítios onde já há cordas penduradas em árvores, isso significa que os miúdos da terra usam-nos para se atirar à água. Se vir corda, vir mais carros que pessoas, e ouvir risos, encontrou.
Vale do Rossim: Para Quem Tem Tempo
A 12 quilómetros da vila, subindo em direção à Torre, está a Barragem do Vale do Rossim. Tecnicamente é uma albufeira, mas funciona como uma lagoa de altitude. A água é mais quente que no rio (chega aos 18 graus em pleno agosto, o que é uma sauna comparado com o Zêzere), há um parque de campismo ali ao lado, e o pôr do sol sobre a água, com a Cântara em fundo, é dos melhores que se vê em Portugal continental.
É também o sítio onde os locais vão fazer kayak. Há aluguer durante os meses de verão, peça informações no posto de turismo.
Como Chegar e Onde Ficar
Manteigas não tem comboio. Nunca teve, e provavelmente nunca terá. O acesso é de carro: pela A23 saindo em Belmonte ou Covilhã, ou pela IP5 vindo do norte. De Lisboa são cerca de 3h30 sem trânsito. Da Porta são umas 3 horas. Não tente vir de transportes públicos no verão, é uma frustração que não vale a pena.
Para dormir, a minha recomendação é clara: ficar dentro da vila. A Casa da Vila, na zona antiga, é o tipo de alojamento que se procura quando se quer sair pela porta às 7h da manhã para fazer trilho sem ter que entrar no carro. Casa de pedra, decoração simples, sem o exagero de "alojamento turístico de charme" que se vê em Óbidos ou Marvão. É uma casa de Manteigas, ponto.
Há quem prefira ficar nas pousadas e hotéis em direção à Torre (São Lourenço, Vale do Rossim), mas perde-se a experiência de acordar na vila e descer ao café antes de tudo abrir.
O Café Caramelo e a Manhã que Faz a Diferença
Aqui vai o segredo melhor guardado de Manteigas no verão, e não tem nada a ver com água: tomar o pequeno-almoço no Café Caramelo. Abre cedo, faz pão fresco, e a torrada com queijo da Serra a derreter é um dos pequenos-almoços mais honestos que se come em Portugal interior. Custa quase nada (vá ver, eu não vou dar preços que mudam).
O café é também o sítio onde se ouve as conversas que importam. Quem é que está a pescar onde, qual é a estrada que está cortada por causa de obras, e qual é o trilho que está particularmente bom esta semana. Sente-se ao balcão, peça um galão, e ouça. Em Manteigas, a informação real circula assim.
Trilhos para Ganhar o Mergulho
Mergulhar em água a 12 graus é mais agradável depois de ter caminhado três horas debaixo do sol. Aí o choque térmico faz sentido. E o vale glaciar tem trilhos para todos os níveis.
O percurso clássico é o PR1 MTG (Rota do Vale Glaciar), 11 quilómetros de Manteigas até ao Covão da Ametade, sempre a subir pelo vale. É um trilho linear, o que significa que tem que voltar pelo mesmo caminho ou organizar transporte. Demora umas 4 a 5 horas a fazer com calma.
Para quem quer levar a sério mas sem se complicar com mapas e logística, vale a pena considerar um trilho guiado com a Estrela Outdoor. São pessoas da terra que conhecem cada pedra do vale, sabem onde ficam os poços que não estão nos mapas, e levam a partir do Larouco da vila. Se for a primeira vez na Serra, este é o investimento que evita perder um dia inteiro a tentar perceber onde fica o quê.
O Trilho dos Poços de Neve
Para os mais aventureiros, existe um trilho menos conhecido que sobe à zona dos antigos poços de neve, estruturas de pedra do século XVII onde os manteiguenses armazenavam neve para vender a Lisboa no verão. É uma história fascinante, é um trilho duro, e o panorama lá em cima é dos melhores da Serra. Tenho um guia detalhado dos poços de neve e da Serra a sério com mapas, dificuldade, e o que esperar.
Comer Bem Sem Drama
Manteigas não tem restaurantes Michelin, e ainda bem. Tem tascas honestas onde se come truta do rio, javali, cabrito assado no forno a lenha, e queijo da Serra com pão de centeio. Em qualquer dia da semana, o almoço deve custar entre 12 e 18 euros por pessoa com vinho da casa.
O queijo da Serra é uma religião local. O bom é amanteigado, quase líquido por dentro, com uma crosta firme. Compra-se em casas particulares na zona da Sameirinha (pergunte no café, eles indicam). Cuidado com o queijo de supermercado vendido como "queijo da Serra": não é o mesmo produto, ponto final.
Para o jantar, prefiro voltar à vila e comer cedo. Os restaurantes fecham relativamente cedo, e em julho e agosto é sensato reservar.
Itinerários para Esticar a Viagem
Se Manteigas é a base, vale a pena considerar dois desvios que mudam completamente a perspetiva da região.
O primeiro é descer à Covilhã e seguir para as Aldeias do Xisto. Tenho um roteiro de um dia da Covilhã às Aldeias do Xisto que cobre o essencial sem ser exaustivo. Pode ser feito de carro a partir de Manteigas em meio dia, mas é mais interessante reservar um dia inteiro.
O segundo, se vier na primavera ou no início do verão, é o Fundão. Em maio as cerejeiras enchem a paisagem de vermelho, e em julho ainda há colheita de cereja em algumas zonas. Escrevi um guia sobre as cerejeiras em flor no Fundão que serve também para quem quer entender a Serra da Gardunha, geograficamente irmã da Estrela mas com personalidade própria.
Quando Ir (e Quando Não Ir)
Junho e setembro são os meses ideais. Junho porque o rio ainda traz água da neve que derreteu em maio, os trilhos estão verdes, e ainda não há turistas. Setembro porque o calor abrandou, os miúdos voltaram à escola, e a serra está em paz outra vez.
Julho é aceitável durante a semana. Em agosto, especialmente no fim de semana de 15 de agosto, evite. A vila enche, os parques de estacionamento ficam cheios às 9h, e o Poço do Inferno parece a praia da Costa da Caparica.
Os fins de semana de outubro também são bons, com a serra a começar a mudar de cor, mas a água do rio passa a estar verdadeiramente impossível de aguentar. Mergulhos de outubro são para gente que já fez triatlo. Não tente.
Uma Última Coisa
Manteigas é uma vila pequena onde quase toda a gente se conhece. Os manteiguenses são acolhedores, mas têm pouca paciência para quem chega a tratar a serra como um parque temático. Não deixe lixo nos poços. Não faça fogo. Não estacione em cima de vegetação. Não use drones perto das casas (é considerado mal educado, mesmo que tecnicamente seja permitido).
Em troca, vai ter a serra mais bonita de Portugal, água gelada que mata o calor do verão como nenhum chuveiro mata, e a sensação rara, hoje em dia, de estar num sítio que ainda não foi completamente transformado em produto turístico. Aproveite enquanto dura.