Covilhã com Pouco Dinheiro: Onde Comer, Ver e Caminhar
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Covilhã com Pouco Dinheiro: Onde Comer, Ver e Caminhar

· · Covilhã

A Covilhã é a cidade portuguesa onde se vive melhor com vinte euros por dia, se souberes onde ir. Um guia honesto: cafés a oitenta cêntimos, prato do dia abaixo dos dez euros, e o truque do funicular que poucos turistas conhecem.

Há uma teoria entre quem trabalha na Universidade da Beira Interior: a Covilhã é a cidade portuguesa onde se vive melhor com vinte euros por dia. Eu acrescento outra: é também aquela onde mais turistas gastam mal o dinheiro, fechando-se em hotéis no sopé da serra e perdendo a cidade real, a que sobe e desce em escadinhas, a que cheira a café às sete da manhã e a lã húmida ao fim da tarde. Este guia é para quem quer fazer o contrário: ficar na cidade, comer onde os professores almoçam, andar de funicular em vez de Uber, e sair com a carteira ainda viva.

Aviso: a Covilhã não é Lisboa nem Porto. As tentações de gastar muito não são muitas, e isso é uma vantagem. O risco aqui não é o preço, é o tédio se não souberes onde ir. Resolvo-te isso.

Como chegar (e como não pagar a mais)

O comboio Intercidades de Lisboa para a Covilhã demora cerca de quatro horas e, se reservares com cinco dias de antecedência na CP, costuma ficar abaixo dos vinte euros em segunda classe. Do Porto, a viagem faz-se de autocarro Rede Expressos via Guarda, ou de comboio com transbordo na Guarda, mais lento mas com paisagens que justificam a paciência. Confirma horários localmente, porque a frequência é, digamos, beirã: poucas, mas pontuais.

Da estação até ao centro, há um pormenor que muita gente ignora e que, sozinho, justifica este artigo: o funicular da Covilhã, que liga a estação à zona alta da cidade, custa cêntimos e poupa-te uma subida brutal com a mochila. Se chegares com bagagem pesada, é a melhor moeda que vais gastar na cidade.

Onde dormir sem hipotecar a viagem

Esquece os hotéis de spa no sopé da serra. Para uma estadia barata, há três opções honestas. A primeira é a pousada da juventude da Covilhã, gerida pela Movijovem, com camas em dormitório e quartos privados a preços que continuam a ser dos melhores do país. A segunda é olhar para guesthouses no centro histórico, que em época baixa (Outubro a meados de Dezembro, fora das pontes) descem a valores quase ridículos. A terceira, para quem fica mais de três noites, é alugar um quarto numa república de estudantes em férias, anunciado nos grupos da UBI no Facebook. Não é para toda a gente, mas é a Covilhã verdadeira.

Conselho prático: evita reservar para finais de semana de Janeiro a Março, quando a serra abre para o ski. Os preços duplicam e a cidade enche-se de gente do Porto com tabuleiros amarrados ao tejadilho. Se quiseres ir à neve, vai num dia da semana e dorme na cidade na quinta-feira anterior.

Pequeno-almoço: a religião do café

A Covilhã leva o café a sério, e ainda bem, porque é onde se faz o melhor investimento da viagem: oitenta cêntimos por uma bica decente, dois euros por café com torrada e meia, e a cidade inteira a passar à tua frente.

O meu sítio favorito para começar o dia é o Café Primor, uma instituição da cidade onde a manhã ainda se cumpre como devia. Pede a torrada com manteiga, café duplo, e ouve os reformados a discutir a Câmara. É uma aula de português falado a sério, com o sotaque da Beira que arrasta os "e" finais como se tivessem peso.

Para quem prefere ambiente mais jovem e wifi que aguenta uma chamada de trabalho, o Café Saudade tornou-se ponto de encontro de estudantes da UBI e nómadas digitais com bom gosto. Os bolos da casa são honestos, o café é melhor do que a média, e podes ficar duas horas com um galão sem ninguém te olhar de lado. Por sete ou oito euros, sais com pequeno-almoço, almoço ligeiro e a sensação de não teres feito turismo.

Almoço: a regra dos dez euros

Aqui vai a regra que devias gravar: na Covilhã, qualquer almoço que custe mais de dez euros num restaurante "normal" é caro. Há prato do dia em vários sítios da Rua Direita e da zona universitária a oscilar entre seis e nove euros, sopa, prato, sobremesa, café e por vezes uma bebida. Não vais comer mal. Vais comer simples, beirão, com porções que duvido que consigas terminar.

O que pedir, quando aparece: bacalhau à Brás, arroz de pato, mão de vitela com grão, e nos dias em que está fresco, qualquer coisa com queijo da serra derretido por cima. O queijo da serra DOP é o luxo acessível por excelência da região: cinco a oito euros num supermercado pequeno da cidade compram-te metade de um queijo amanteigado que vais comer a colher, com pão, num banco de jardim. Acompanha com um vinho da Beira Interior, leve, com uma acidez que limpa a gordura, à volta dos quatro euros a garrafa no supermercado.

Para um final de tarde a sério, sobe à zona dos jardins e instala-te no Café Bar Covilhã Jardim, com a melhor vista de esplanada da cidade pelo preço de uma cerveja. Ao fundo tens a Cova da Beira, à direita a Gardunha, e à frente um imperial a um euro e meio. Faz as contas: se passares lá uma hora ao final do dia, gastaste menos do que num cocktail em Lisboa e viste a luz a mudar sobre a serra. É o tipo de momento que devolve sentido à viagem.

Programa de tarde, custo zero ou quase

A Covilhã é uma cidade para andar a pé, e os melhores programas são gratuitos. O centro histórico, na zona alta, faz-se em duas horas com calma: ruas estreitas, casas com varandas de ferro, igrejas pequenas, e a tal arte urbana que tornou a cidade conhecida nos últimos anos. Há murais espalhados por edifícios industriais devolutos, antigas fábricas de lanifícios convertidas, e cantos surpreendentes para quem olha para cima.

Se quiseres entender o que estás a ver, há dois investimentos que valem o pouco que custam. O primeiro é a visita guiada Lã e Paredes, que liga o passado têxtil da cidade aos murais contemporâneos numa caminhada de duas horas. É a melhor forma de não ficares apenas a fotografar fachadas sem perceber porque é que aquela fábrica está ali, porque é que aquele mural existe, e o que aconteceu à indústria que fez a Covilhã rica.

O segundo é o Museu de Lanifícios da UBI, instalado numa antiga real fábrica e dos museus mais bem montados do interior. A entrada é simbólica, e a visita compensa por inteiro: máquinas em funcionamento, salas com explicações honestas sobre as condições de trabalho, e uma percepção clara de que a Covilhã é o que é por causa da lã, não apesar dela. Reserva uma manhã ou tarde inteira.

Excursões de um dia: o truque dos transportes públicos

Aqui é onde a maior parte dos guias falha: dizem-te para alugar carro, e tu, com cem euros para uma semana, pões-te a pensar se vale a pena. Vale, em alguns casos, mas há alternativas.

Para o Fundão, há comboios regionais várias vezes ao dia e a viagem custa pouco mais que um café. Em Março e Abril, vai. A florada das cerejeiras na Serra da Gardunha é um espectáculo que dura duas a três semanas e que muita gente do Porto e Lisboa nunca viu. Leva pão, queijo, fruta, e faz piquenique entre as árvores. Custo total do dia, com transporte: menos de quinze euros.

Para Manteigas, é mais complicado sem carro: há autocarros, mas com horários a respeitar à risca. Se te organizares, dormes uma noite na vila e fazes a caminhada dos Poços de Neve, que leva à serra a sério, longe das pistas de ski e dos turistas de domingo. É a Estrela como devia ser conhecida: pedra, silêncio, e história industrial do gelo. Em Junho a Setembro, dá para fazer em sapatilhas. Fora disso, exige equipamento.

Se conseguires juntar-te a alguém com carro (a UBI tem grupos de boleia, vale a pena perguntar), o programa que recomendo é a viagem às Aldeias do Xisto. O roteiro de um dia da Covilhã às Aldeias de Xisto cobre quatro ou cinco aldeias com lógica, sem te obrigar a fazer trezentos quilómetros num dia. Combustível dividido por três pessoas, almoço numa tasca de aldeia por dez euros, e regressas com a sensação de que viste outro Portugal. Total: vinte e cinco euros por pessoa, com folga.

Jantar barato sem se ressentir

Para o jantar, a regra é simples: foge dos restaurantes que põem a ementa em quatro línguas e procura os que só têm prato do dia escrito a giz na parede. Petiscos partilhados, uma sopa, uma bifana caseira, uma sangria de pressão, e ficas pelos doze a quinze euros por pessoa.

Se quiseres jantar uma vez a sério (e na Covilhã isso significa um restaurante familiar com cabrito assado ou bacalhau no forno), reserva e conta com vinte a vinte e cinco euros. Não é mais. Sai depois da sobremesa, anda dez minutos pela cidade adormecida, e percebe porque é que os covilhanenses têm um certo orgulho silencioso: vivem bem, comem bem, e não precisam de provar nada.

Orçamento realista para três dias

  • Comboio Lisboa, Covilhã, ida e volta: cerca de 35 a 45 euros se reservares com antecedência.
  • Alojamento, três noites em pousada da juventude ou guesthouse simples: 60 a 90 euros.
  • Pequenos-almoços nos cafés da cidade: 10 a 15 euros no total.
  • Almoços de prato do dia: 25 a 30 euros no total.
  • Jantares mistos (dois ligeiros, um "a sério"): 40 a 50 euros.
  • Funicular, museu de lanifícios e visita guiada: cerca de 25 euros.
  • Excursão de comboio ao Fundão: 10 a 15 euros.
  • Margem para cervejas no Jardim, queijo da serra e imprevistos: 20 a 30 euros.

Total honesto, três dias na cidade: entre 175 e 245 euros, viagem incluída. Tira o comboio e fica abaixo de cento e cinquenta. É das viagens mais baratas que podes fazer em Portugal sem ter de comer mal, dormir mal, ou andar a fugir de oportunidades. A Covilhã não te pede dinheiro. Pede-te tempo, atenção, e a paciência de subir uma rua. Devolve mais do que aquilo que cobra.

Covilhã Serra da Estrela viagem barata