Manteigas no Verão: Os Poços de Água Gelada dos Locais
Em agosto, o rio Zêzere ainda corre a 12 graus quando Lisboa está a derreter. Onde é que os manteiguenses vão mergulhar sem turistas, drones, nem filas no Poço do Inferno.
Manteigas é a única vila dentro do Parque Natural da Serra da Estrela, com acesso directo ao Vale Glaciar do Zêzere e à cascata do Poço do Inferno. Dois a três dias chegam para explorar trilhos de altitude, comer feijoca e truta do rio, e recuperar nas termas de águas sulfurosas a 42 graus.
Em agosto, o rio Zêzere ainda corre a 12 graus quando Lisboa está a derreter. Onde é que os manteiguenses vão mergulhar sem turistas, drones, nem filas no Poço do Inferno.
Em janeiro, o erro é dormir na Covilhã e subir todos os dias. Em Manteigas, sais do alojamento de botas calçadas e em vinte minutos estás no Vale do Zêzere antes de chegarem os autocarros.
O queijo Serra da Estrela DOP a sério não chega ao supermercado. Em Manteigas, vende-se ao sábado de manhã no mercado municipal e à porta de queijarias com 80 a 200 ovelhas. Um guia prático com preços, regras para escolher e o que fazer entre uma prova e a próxima.
O Vale Glaciar do Zêzere é finalista das 7 Maravilhas Naturais de Portugal, mas numa manhã fora de época é possível fazer os 17 quilómetros da Rota do Glaciar sem cruzar uma única pessoa. Manteigas é o ponto de partida para uma das melhores caminhadas do país, e a feijoca que se come à chegada justifica cada metro de subida.
Manteigas ocupa o fundo de um vale profundo, espremida entre encostas íngremes que sobem até aos pontos mais altos de Portugal continental. É a única vila que está, de facto, dentro do Parque Natural da Serra da Estrela, não na periferia, não a espreitar de longe, mas plantada no meio da coisa. Isso muda tudo: o acesso ao Vale Glaciar do Zêzere, à cascata do Poço do Inferno e aos trilhos de altitude começa à porta de casa.
O Vale Glaciar do Zêzere, com os seus 13 quilómetros, é um dos maiores vales glaciares da Europa e a razão pela qual muita gente vem aqui pela primeira vez. O vale em U, talhado por glaciares há milhares de anos, é visível desde vários miradouros acessíveis de carro, mas merece ser percorrido a pé. O Poço do Inferno, uma queda de água com cerca de 10 metros a uns 6 km da vila, é paragem obrigatória, sobretudo no inverno, quando o caudal está no máximo e o gelo se forma nas rochas.
Manteigas é pequena e não tenta ser outra coisa. A Rua 1.º de Maio concentra o comércio local e a vida de café. A Burel Factory, instalada na antiga Real Fábrica de Lanifícios, recuperou teares originais para produzir burel, o tecido de lã grossa que vestiu gerações de pastores serranos, transformando-o em peças contemporâneas. Vale a visita à fábrica, mesmo que não compre nada, para perceber o peso desta indústria na história da vila.
A gastronomia aqui é de montanha, sem subtilezas: feijoca à Manteigas (um guisado denso de feijão com enchidos), truta do rio Zêzere, cabrito assado e o inevitável Queijo Serra da Estrela, que na versão amanteigada é servido como entrada em praticamente todos os restaurantes. O Restaurante Central, no centro da vila, serve doses generosas destes clássicos. A cerca de três quilómetros ficam as Caldas de Manteigas, termas de águas sulfurosas que brotam a 42 graus, ideais depois de um dia de trilhos.
Dois a três dias é o tempo certo para explorar Manteigas sem pressa. A primavera (abril-junho) traz flores e temperaturas amenas para caminhadas; o inverno oferece paisagens dramáticas e neve nos pontos altos, mas as estradas de montanha podem fechar. Evite agosto se puder, a serra enche e os preços sobem. No resto do ano, Manteigas mantém o ritmo calmo que lhe dá sentido.