Belmonte de Comboio: 48 Horas Sem Carro
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Belmonte de Comboio: 48 Horas Sem Carro

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A estação chama-se Belmonte-Manteigas, mas Manteigas fica a trinta quilómetros e do outro lado da serra. Resolvido esse equívoco, esta é a Aldeia Histórica mais fácil de percorrer sem carro: castelo, museu judaico e uma torre romana que ninguém consegue explicar, tudo em 48 horas.

A estação chama-se Belmonte-Manteigas, e esse é o primeiro equívoco simpático desta viagem. Manteigas fica do outro lado da Serra da Estrela, a uns bons trinta quilómetros de estrada em curva, e não há maneira nenhuma de lá chegar a pé a partir da gare. O nome é uma herança da era em que o caminho de ferro servia meio distrito e a toponímia era generosa. Aceite-o com bom humor: é o tipo de detalhe que define a Beira Interior, uma região que promete uma coisa e entrega outra, normalmente melhor.

O segundo equívoco é achar que a estação fica em Belmonte. Não fica. A vila está cerca de três quilómetros a noroeste, no alto, com o castelo a vigiar o vale. Se sair do comboio com uma mala de rodinhas e a ideia romântica de subir a pé, saiba que a última parte é a subir e que não há passeio contínuo. Vale a pena, se levar mochila e pernas. Se não, combine boleia com o alojamento antes de partir ou trate de táxi com antecedência: em vilas destas os táxis existem, mas não estão à espera na praça a qualquer hora.

Como chegar (e porque é que o comboio faz sentido aqui)

Belmonte está na Linha da Beira Baixa, a mesma que sobe de Lisboa por Entroncamento, Castelo Branco, Fundão e Covilhã. O troço entre a Covilhã e a Guarda esteve encerrado doze anos e reabriu em maio de 2021, o que devolveu Belmonte ao mapa ferroviário depois de uma década de esquecimento. Há serviços Intercidades e Regionais. Não vou inventar horários: consulte cp.pt antes de comprar, porque a frequência é modesta e um comboio perdido em Belmonte custa muitas horas de vida.

A vantagem de vir de comboio não é ecológica nem moral, é prática. Belmonte tem tudo o que interessa concentrado num raio de dez minutos a pé: castelo, museus, sinagoga, igreja, cafés. É uma das doze Aldeias Históricas de Portugal e talvez a mais fácil de percorrer sem carro. O carro só se torna necessário quando quiser sair do perímetro, e mesmo aí há soluções.

Dia 1, tarde: granito, uma janela manuelina e o homem do Brasil

Largue a mala e suba ao castelo. É pequeno, é de granito honesto, e o que o salva de ser mais um castelo de fronteira é a janela manuelina encaixada na muralha, uma esquisitice bonita que não devia ali estar e está. Lá de cima vê-se o vale do Zêzere e, em dias limpos, a linha da serra a fechar o horizonte a poente. Fique dez minutos parado. Belmonte não se percebe a andar depressa.

Ao lado fica a Igreja de Santiago, românica, austera, com o Panteão dos Cabrais. Pedro Álvares Cabral nasceu nesta vila, facto que Belmonte usa com moderação surpreendente para os padrões portugueses. Há uma estátua, há o Museu dos Descobrimentos, e há o resto da história, que é a parte verdadeiramente interessante e não tem nada a ver com o Brasil.

Compre o bilhete conjunto. À data desta escrita rondava os 10 euros por adulto e dava acesso a meia dúzia de museus e monumentos da vila, o que torna a matemática absurdamente favorável se ficar duas noites. Confirme localmente o valor e o que inclui, porque estas coisas mudam sem aviso.

Para o jantar, uma nota de honestidade: não vou recomendar restaurantes que não conheço ao pormenor, e em vilas pequenas as casas mudam de mãos. O que sei é o que deve procurar na ementa. Cabrito assado no forno, que aqui se faz a sério e não como concessão turística. Queijo Serra da Estrela DOP, de preferência entre novembro e abril, quando está no ponto e não é aquela pasta anémica de agosto. Enchidos da região. E um tinto da Beira Interior, denominação subvalorizada que produz vinhos de altitude com acidez a sério. Reserve, sobretudo ao domingo à noite, quando metade da restauração da Beira decide descansar em simultâneo.

Dia 2, manhã: a história que Belmonte guardou durante quatro séculos

Esta é a razão pela qual se vem a Belmonte, mesmo que não se saiba antes de chegar. Depois da expulsão e da conversão forçada dos judeus portugueses no final do século XV, uma comunidade em Belmonte continuou a praticar o judaísmo em segredo. Não durante uma geração. Durante cerca de quatrocentos anos, transmitindo orações de memória, acendendo velas dentro de armários, casando entre si, mantendo o Pessach com um calendário próprio. Em 1917, um engenheiro de minas polaco chamado Samuel Schwarz percebeu o que se passava e escreveu sobre isso. O mundo exterior descobriu que havia criptojudeus vivos em pleno século XX, na Beira.

A Sinagoga Bet Eliahu foi inaugurada em 1996. O Museu Judaico de Belmonte abriu em 2005 e foi o primeiro museu do país inteiramente dedicado à história do judaísmo português. As peças vão da Idade Média ao século XX e muitas foram usadas de facto, em casa, às escondidas. Vá de manhã, quando está vazio, e leia os textos todos. Fecha à segunda-feira e tem horários diferentes no verão e no inverno, por isso confirme antes.

Se quiser ir além das vitrinas, vale muito a pena marcar uma visita privada à história sefardita de Belmonte. A diferença entre ler um painel e ouvir alguém explicar por que motivo certas famílias ainda hoje não falam do assunto com estranhos é a diferença entre visitar e perceber. É também a única forma de sair daqui sem a sensação de ter percorrido um museu bonito sem tocar em nada.

Dia 2, tarde: a torre romana que ninguém consegue explicar

A cerca de cinco quilómetros da vila, em Colmeal da Torre, está a Torre de Centum Cellas. É um bloco de granito de época romana, século I, com três pisos, janelas em sítios estranhos e nenhuma explicação consensual. Villa? Praetorium? Pousada de estrada? Templo? Os arqueólogos discutem há décadas. O que ninguém discute é o efeito de a ver ao fim da tarde, isolada no meio do campo, com as andorinhas a entrar e a sair dos vãos.

Sem carro há duas opções. A pé, cerca de uma hora por estrada secundária, com trânsito escasso mas sem berma decente em alguns troços, portanto colete refletor se for ao fim do dia e nunca com crianças pequenas. Ou táxi, com combinação prévia de hora de regresso, porque não há nada ali além da torre e de campo. Recomendo a caminhada de manhã cedo, no fresco, e o táxi no regresso se as pernas reclamarem.

A alternativa para a tarde, se preferir estar sentado, é a prova de vinhos na Quinta dos Termos, aqui mesmo no concelho. É uma das casas que fez pela reputação da Beira Interior quando quase ninguém dava atenção à região, e provar os vinhos onde as vinhas estão a olhar para si muda a leitura do copo. Marque com antecedência e trate do transporte no mesmo telefonema, porque não se chega lá a pé e porque, sejamos práticos, provas de vinho e condução não combinam.

Onde dormir: três casas, três feitios

Belmonte não tem hotelaria de cadeia e ainda bem. O que tem são casas com dono, o que significa que a qualidade da estadia depende muito de com quem calha.

  • TheVagar Countryhouse: a escolha para quem quer conforto contemporâneo e não se importa de estar ligeiramente fora do centro. Bom para casais e para quem valoriza um pequeno-almoço que justifique acordar.
  • Kazas do Serado: turismo rural clássico, pedra e madeira, o tipo de sítio onde se acende a lareira sem ironia. Ideal em novembro, quando a Beira fica húmida e cinzenta e isso é exatamente o que se quer.
  • Quinta do Rio: para quem viaja em grupo ou família e prefere espaço, cozinha e a possibilidade de fazer o jantar em casa. Prático quando os restaurantes fecham cedo.

Em qualquer uma delas, pergunte no ato da reserva se fazem recolha na estação. Muitas fazem, ou indicam o táxi certo, e isso resolve o único problema logístico real de Belmonte.

Se sobrar tempo: a linha continua

A grande vantagem de estar na Beira Baixa sem carro é que a linha férrea faz de eixo. A Covilhã fica a sul, a poucos minutos de comboio, e é a base natural para um roteiro de um dia pelas aldeias de xisto, embora aí já precise de carro alugado ou de excursão organizada. O Fundão está na mesma linha e, em março ou início de abril, transforma-se: é a altura de ver as cerejeiras em flor na Serra da Gardunha, um espetáculo que dura duas semanas escassas e que praticamente nenhum estrangeiro conhece.

Quanto a Manteigas, apesar do nome da estação, esqueça o comboio. Chega-se de carro, pela estrada do vale do Zêzere, e é uma das melhores viagens de montanha do país. Se conseguir arranjar transporte, o percurso dos poços de neve é a Serra da Estrela sem teleféricos e sem multidões. Guarde para outra viagem e volte com carro.

Quando ir e o que levar

Maio, junho e setembro são o compromisso perfeito: dias longos, calor tolerável, museus vazios. Julho e agosto trazem emigrantes, festas e temperaturas que passam dos 35 graus no vale. O inverno é frio a sério, com nevoeiro e possibilidade de neve na serra ao fundo, e tem o seu encanto se gostar de vilas de granito molhado e de queijo da Serra no ponto certo. Leve calçado que aguente calçada irregular, um casaco corta-vento mesmo em junho, e dinheiro em numerário para casos em que o multibanco da vila decide ter opinião própria.

Belmonte não se despacha em duas horas nem se esgota em dois dias, mas quarenta e oito horas chegam para perceber uma coisa rara: esta é uma vila que guardou um segredo durante quatro séculos e que agora o conta com uma naturalidade desarmante. Vem-se pelo castelo e por Cabral. Fica-se pela outra história.

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