Seia em Julho: Onde Comer Sardinha Assada na Serra
Seia fica a duas horas do mar, mas em Julho a brasa também se acende na Serra. Onde encontrar a melhor sardinha das festas, porque a broa de centeio faz toda a diferença, e como montar o dia perfeito de Verão na Estrela.
Vou ser honesto consigo logo no primeiro parágrafo, porque é melhor do que deixá-lo a procurar uma marisqueira que não existe: Seia fica a quase duas horas do mar. Estamos a 500 metros de altitude, com a Serra da Estrela a tapar o horizonte, e o peixe que aqui chega vem de camião, não de barco. Se a sua ideia de Julho em Portugal é uma esplanada à beira-Atlântico com a sardinha a pingar gordura para cima da brasa, então, francamente, devia estar em Sesimbra ou em Matosinhos, não na Serra.
E no entanto. Em Julho, mesmo aqui em cima, a sardinha aparece. Aparece porque Portugal inteiro cheira a sardinha assada entre o São João e o final de Agosto, e nenhuma vila beirã se atreve a ficar de fora dessa festa. A diferença é que em Seia a sardinha não é a estrela: é a convidada. Saber isto muda completamente a forma como se come por aqui no Verão. Este guia é sobre encontrar a boa sardinha na Serra, sim, mas também sobre perceber porque é que talvez não seja por ela que vale a pena subir até aqui.
A verdade sobre a sardinha de montanha
A sardinha está no seu melhor entre Junho e Outubro, quando ganha gordura e fica daquele tamanho em que a espinha se solta sozinha e a pele estala. Isto é verdade no Algarve e é verdade em Seia, porque a sardinha é a mesma: a questão é a distância que ela percorre. Numa vila de montanha, a melhor sardinha que vai comer é quase sempre a das festas, dos arraiais dos Santos Populares e das festas de Verão das freguesias, onde alguém comprou caixas frescas de manhã e as pôs na grelha à tarde, ao ar livre, com pão e pimento assado ao lado.
O calendário das festas em Seia e nas aldeias em redor concentra-se entre o São João, a 24 de Junho, e meados de Agosto. É aí, nos largos das aldeias, que a brasa fica acesa horas a fio. Não lhe vou inventar datas nem preços de uma festa específica, porque essas coisas mudam todos os anos e dependem da junta de freguesia. O conselho prático é simples: quando chegar, pergunte. Pergunte no café, pergunte na padaria, olhe para os cartazes colados nos postes. Em Julho há sempre uma festa a menos de quinze minutos de carro, e é nessas grelhas improvisadas que está a melhor sardinha que vai comer na Serra. Uma dose costuma andar pelos valores de qualquer arraial do país, mas confirme localmente.
A regra de ouro: coma a sardinha onde a vê a ser assada à sua frente. Se está numa vitrina sob lâmpadas de aquecimento, passe à frente. Aqui em cima, a sardinha boa é um acontecimento de rua, não um prato de carta.
O ritual à volta da brasa
A sardinha assada não se come sozinha, e em Seia a companhia faz toda a diferença. O pão é tudo. Esqueça o prato: a forma correcta de comer sardinha de festa é sobre uma fatia grossa de broa, deixar o sumo e a gordura encharcarem o miolo, e comer a sardinha com os dedos, raspando a carne para cima do pão. No fim, a melhor parte é a broa ensopada.
E é aqui que Seia joga em casa. Antes de procurar a brasa, faça um desvio que parece estranho mas faz todo o sentido: o Museu do Pão, que conta a história do pão da Beira melhor do que qualquer livro. Não é uma paragem de turista distraído. É a forma de perceber porque é que aqui o pão se leva a sério, e porque é que uma sardinha sobre broa de centeio da Serra é uma coisa diferente da sardinha sobre pão branco da praia. Tem restaurante próprio e uma loja onde se compra broa a sério para levar para a festa.
Acompanhe a sardinha com pimentos assados, batata cozida com pele e um vinho da Beira, tinto e fresco, ainda que a tradição mande beber o tinto à temperatura da adega. Em pleno Julho, com 30 graus à sombra, ninguém o vai julgar por pedir o tinto fresco.
Onde comer e onde fazer uma pausa em Seia
Fora das festas, a hipótese de comer sardinha em Seia num dia qualquer é menor, e prefiro ser direto consigo do que mandá-lo para uma tasca que não conheço. O que Seia faz bem, faz mesmo bem, e há sítios que valem a paragem mesmo que não tenham uma grelha à porta.
Para o meio da manhã, depois de uma volta a pé pelo centro, vá à Confeitaria Mimosa, a paragem certa para os doces e o café da manhã em Seia. É o tipo de pastelaria de província que faz a doçaria como deve ser, sem firulas, com o balcão cheio e a malta da terra a entrar e a sair. Comece o dia aqui antes de qualquer plano sério.
Ao fim da tarde, quando o calor afrouxa e a vila ganha vida nas esplanadas, o Café Concerto é o ponto de encontro para uma bebida ao entardecer. É o sítio para estar sentado a ver passar a vila, a planear a noite e a descobrir, na conversa com quem está na mesa do lado, em que aldeia é a festa desse fim de semana. Em Seia, a informação útil viaja sempre de boca em boca.
Dormir longe da brasa: a aldeia em vez da vila
Se vai ficar uns dias, e em Julho vale mesmo a pena, fuja do centro à noite. A minha recomendação clara é dormir na serra, no Chão do Rio, um conjunto de casas de turismo de aldeia recuperadas em pedra. É a antítese do hotel de estrada: casas de xisto e granito, o som da ribeira à noite, e aquele frescor de montanha que faz com que se durma com a janela aberta mesmo em pleno Verão. Depois de uma tarde de sardinha e vinho numa festa de aldeia, voltar para aqui é a melhor decisão que vai tomar.
É também a base perfeita para o resto. De manhã, antes do calor, parte-se daqui para a serra. Tem o dia inteiro para o gastar nos planaltos antes de a brasa voltar a acender ao fim da tarde.
O que fazer entre refeições
Julho na Serra da Estrela não é só comida e festa. As manhãs são para andar, e a tarde é para a sombra e a água. Se quer um plano de meio dia que combine bem com uma noite de festa, suba à serra cedo e desça a tempo do jantar. Para quem gosta de pôr os pés ao caminho, há rotas clássicas a curta distância: a vizinha Manteigas, com os seus poços de neve e a serra levada a sério, é a melhor introdução à montanha alta, com piscinas de rio para refrescar a meio da tarde.
Se preferir trocar a altitude pela pedra e pela história, o roteiro de um dia da Covilhã às aldeias de xisto dá-lhe um lado completamente diferente desta região, com aldeias paradas no tempo e cozinha de montanha em todas as paragens. É um plano para um dia de céu limpo, antes de regressar a Seia para a sardinha da noite.
E para perceber a verdadeira Beira em festa, vale a pena guardar na memória o ciclo das estações por aqui: a primavera tem o seu próprio espetáculo, como mostra o despertar das cerejeiras em flor no Fundão. Em Julho, claro, a flor já deu cereja e a cereja já se comeu, mas serve para perceber que esta é uma região que vive ao ritmo do calendário, e a sardinha é apenas o capítulo de Verão dessa história.
Como chegar e como organizar o dia
Seia não tem comboio. Chega-se de carro, e essa é também a forma de a aproveitar, porque as melhores festas e as melhores grelhas estão espalhadas pelas aldeias em redor. Da A23 ou da A25, conte com uma viagem de cerca de duas horas a partir do Porto ou de Coimbra, um pouco mais a partir de Lisboa. Há carreiras de autocarro, mas sem carro fica refém dos horários e perde metade da graça.
O dia ideal de Julho em Seia, na minha versão, é este. Pequeno-almoço cedo na Confeitaria Mimosa. Manhã na serra, a andar ou a refrescar numa praia fluvial antes do pico do calor. Almoço leve e sesta. Ao fim da tarde, broa fresca comprada na loja do Museu do Pão. Uma bebida no Café Concerto enquanto se descobre onde é a festa dessa noite. E depois a brasa: a fila para a dose de sardinhas, o copo de tinto fresco na mão, a música a tocar no largo e a serra escura por cima de tudo. À uma da manhã, de volta às pedras frias do Chão do Rio, vai perceber que comer sardinha na montanha não era um disparate. Era apenas uma forma diferente, e melhor, de o fazer.
Três conselhos rápidos
- Coma a sardinha onde a vê a assar. Vitrina com lâmpadas, nunca.
- Leve sempre broa, de preferência da Serra. A sardinha é só metade do prato.
- Em Julho há festa quase todos os fins de semana. Pergunte no café qual é a desse sábado. É sempre melhor do que qualquer roteiro escrito com antecedência.
Não venha a Seia só pela sardinha. Mas venha em Julho, e coma-a aqui pelo menos uma vez, com pão de centeio e os pés na terra da Serra. Vai ser diferente do que esperava. E, suspeito eu, melhor.