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Leiria de Bicicleta: do Pinhal ao Castelo

Pedro Sousa · · Leiria

Leiria não é conhecida por ciclismo, mas tem um pinhal centenário plano e sombreado para quem começa, e colinas a sério rumo a Fátima para quem já pedala há uns anos. Dois ritmos, um único concelho.

Leiria de Bicicleta: do Pinhal ao Castelo

Ninguém pensa em Leiria como destino de ciclismo. Pensam em Óbidos, pensam na Serra da Estrela, pensam no Douro com as suas encostas de vinha a pique. Mas Leiria tem uma coisa que poucos sítios em Portugal têm: um pinhal enorme, plano, sombreado e praticamente vazio de trânsito, que liga a cidade ao mar. E depois, se quiser subir a parada, tem colinas a sério a leste, na direção de Fátima. É um concelho que serve dois tipos de ciclista completamente diferentes, e é isso que o torna interessante.

Para quem começa: o Pinhal de Leiria

O Pinhal de Leiria foi plantado no século XIII, por ordem de D. Dinis, para travar o avanço das areias sobre os campos agrícolas. Setecentos anos depois, é o melhor argumento a favor do ciclismo fácil que este país tem para oferecer. Terreno plano, areia compactada em muitos troços, pinheiros altos que fazem sombra o dia inteiro. Entra-se pela zona da Marinha Grande ou por Leiria e pedala-se em direção à costa, até São Pedro de Moel, sem uma única subida que mereça esse nome.

É o sítio certo para quem nunca pedalou fora de uma cidade, para famílias com crianças, para quem quer uma tarde de bicicleta sem sofrimento. Não há nada de espetacular a fotografar a cada cem metros, e é exatamente por isso que funciona: o pinhal é sobre o ritmo, o cheiro a resina, o som dos pneus na areia batida. Leve água. As fontes não são garantidas e em agosto a sombra ajuda, mas o calor acumula-se de qualquer maneira.

A cidade em si: do castelo ao rio

Leiria cidade merece uma manhã à parte, mesmo antes de sair para o pinhal. O Castelo de Leiria fica em cima de uma colina que domina o rio Lis, e a subida a pé (ou a empurrar a bicicleta, sejamos honestos) já é um pequeno treino. Lá em cima, a vista sobre os telhados e sobre o vale compensa. Depois desce-se até ao rio, onde há um passeio ribeirinho tranquilo, bom para aquecer as pernas antes da rota maior ou para arrefecer depois dela.

É também aqui que se resolve a questão de comer bem, e Leiria não desilude. A Casinha Velha é referência antiga na cidade, cozinha portuguesa sem artifícios, o tipo de sítio onde se come um prato de bacalhau e se pensa duas vezes antes de pedir sobremesa porque as doses não brincam. Para quem prefere algo mais informal depois de um dia inteiro na bicicleta, uma taverna com boa carne e vinho da região resolve sem complicações. E se procura uma refeição mais cuidada, com pratos trabalhados e menos regionais, há opções na cidade que fogem ao óbvio sem se perderem em pretensão.

Para quem já pedala há uns anos: rumo ao interior

Quem já tem pernas e quer subir de nível, o pinhal rapidamente se torna repetitivo. A alternativa é virar para leste, para o interior do concelho, onde o terreno começa a ondular a sério na aproximação à Serra de Aire e Candeeiros. As estradas secundárias por ali, entre olivais e pequenas povoações, são o tipo de percurso onde se ganha ritmo cardíaco a sério, sem tráfego pesado a complicar a vida.

Uma variante popular entre ciclistas mais experientes da região é seguir na direção de Fátima. O santuário atrai sobretudo peregrinos a pé, mas a estrada que liga Leiria a Fátima é também percorrida por quem prefere duas rodas, especialmente fora das grandes datas de peregrinação. Se planeia isso para maio, vale a pena ler primeiro o nosso guia honesto sobre a peregrinação de 13 de maio, porque nesses dias as estradas enchem-se de peregrinos e o trânsito muda de figura por completo. Fora dessas datas, é uma rota tranquila, com subidas moderadas e boa visibilidade.

O que levar e quando ir

  • Primavera (março a maio) e outono (setembro a outubro) são as alturas ideais: temperaturas amenas, menos gente, menos calor no pinhal.
  • No verão, saia cedo. Antes das 9h o pinhal ainda tem frescura e a estrada para o interior não está a ferver.
  • Não há muitas lojas de aluguer de bicicletas de qualidade dentro da cidade de Leiria, ao contrário de Óbidos ou Coimbra. Se não tem bicicleta própria, é mais garantido reservar com antecedência através do alojamento.
  • Água e protetor solar são obrigatórios nas rotas do interior. No pinhal, a sombra ajuda, mas não substitui a hidratação.

Onde dormir depois de um dia de pedal

Depois de um dia inteiro em cima da bicicleta, o alojamento certo faz toda a diferença. A Quinta do Bamby é uma boa opção para quem quer acordar já perto do campo, longe do barulho, com espaço para deixar a bicicleta em segurança e talvez até estender a roupa suada ao sol. Para quem prefere algo com mais isolamento e um ritmo verdadeiramente rural, há alojamentos na zona que apostam em silêncio e natureza em vez de piscina e wifi de alta velocidade, o que, para quem só quer descansar as pernas, é exatamente o que se procura.

Se está a planear ficar mais do que um dia e quer combinar o ciclismo com outra coisa completamente diferente, vale a pena considerar o retiro privado em Arrabal, na Villa Nour, para uma pausa de luxo rural que não tem nada a ver com pedalar, mas que serve perfeitamente para recuperar músculos no dia seguinte.

Uma pausa que não é sobre pedalar

Nem tudo em Leiria tem de ser sobre quilómetros. Na Bajouca, uma freguesia do concelho com tradição antiga de olaria, é possível parar a rota e experimentar um workshop de olaria tradicional, das mãos de quem faz isto há gerações. É um bom contraponto físico: depois de horas de pernas, umas horas de mãos, à roda do oleiro, a moldar barro em vez de estrada.

Combinações para quem tem mais dias

Se Leiria for a base de uma escapadela mais longa, há sítios próximos que compensam a viagem, mesmo sem bicicleta envolvida. Caldas da Rainha, um pouco a norte, tem percursos pedestres muito bons pela zona da lagoa e do parque, e temos um guia honesto sobre os trilhos de abril por lá que vale a pena consultar se quiser trocar a bicicleta pelas botas por um dia. É uma boa forma de dar descanso às pernas de uma maneira e cansá-las de outra.

O resumo prático

Leiria não vai substituir o Douro nem a Serra da Estrela no imaginário do ciclismo português, e não é essa a intenção. O que oferece é versatilidade: um pinhal plano e generoso para quem quer começar ou simplesmente relaxar em cima de duas rodas, e colinas a sério para quem quer suar de verdade, tudo isto a uma curta distância de uma cidade onde se come bem e se dorme melhor. Não é preciso escolher entre esforço e conforto. Em Leiria, cabem os dois no mesmo fim de semana.

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