Banho de Floresta no Bussaco: Meia Manhã desde Coimbra
A Mata do Bussaco é a primeira floresta certificada como Healing Forest na Península Ibérica e fica a 45 minutos de Coimbra. O Instituto de Banhos de Floresta organiza sessões guiadas de shinrin-yoku entre os cedros plantados pelos Carmelitas Descalços no século XVII, e a sessão da manhã, antes dos autocarros chegarem, vale mais do que dez caminhadas.
O que é, na prática, um banho de floresta
Banho de floresta não é caminhada nem trail. É quase o oposto: andas devagar, paras muito tempo, e a maior parte da sessão estás simplesmente parado debaixo das árvores a fazer pouco mais do que respirar. A prática vem do shinrin-yoku japonês dos anos 80 e tem estudos clínicos sérios a sustentá-la, incluindo trabalho recente publicado pelo Centro Cirúrgico de Coimbra sobre redução de cortisol e tensão arterial após duas horas em ambiente florestal.
No Bussaco isto faz especial sentido. A Mata Nacional do Bussaco foi a primeira floresta certificada como Healing Forest na Península Ibérica, com cedros do Bussaco de mais de duzentos anos plantados pelos monges Carmelitas Descalços a fazer sombra sobre fontes de pedra coberta de musgo. O ar tem outra densidade. Aviso desde já: se vais à espera de uma caminhada com vista panorâmica, esta experiência não é para ti. Se queres sair de Coimbra durante meia manhã e voltar a casa com a cabeça noutro sítio, dificilmente encontras melhor a quarenta e cinco minutos da cidade.
Quem organiza e como reservar
O operador certificado para sessões de banho de floresta em Portugal é o Instituto de Banhos de Floresta, com guias formados pelo Forest Therapy Hub e protocolos com a Fundação Mata do Bussaco, que gere o espaço. As sessões guiadas marcam-se pelo site institutodebanhosdefloresta.pt ou pelo email da Fundação, [email protected]. Há sessões abertas no calendário, e podes também juntar um grupo privado a partir de quatro pessoas.
O preço da sessão guiada varia conforme número de participantes e duração, por isso confirma diretamente com o operador. A entrada na Mata, paga à parte na Porta das Ameias ou na Porta da Rainha, fica entre 5 e 7 euros por pessoa para visitas guiadas e é gratuita para acesso pedonal livre, segundo a tabela da Fundação Mata do Bussaco. Reservar com pelo menos uma semana de antecedência é o aconselhável, sobretudo de abril a outubro.
Como chegar a partir de Coimbra
De carro são cerca de 30 quilómetros pela A1 e depois pela N234, com a última subida pela Mata do Luso a demorar uns quinze minutos. Estaciona no Largo da Cruz Alta ou junto ao Palace Hotel: é grátis e fica a poucos minutos a pé do ponto de encontro habitual, a Cruz Alta ou a entrada do Vale dos Fetos, consoante a sessão. Sem carro, há comboios de Coimbra-B para Luso-Buçaco várias vezes por dia, com a viagem a durar 25 minutos. Da estação até à Mata é uma subida de cerca de vinte minutos a pé, ou um táxi por menos de dez euros.
Como decorre a sessão
A meia manhã começa cedo, normalmente às 9h30, e dura entre duas horas e meia e três horas dentro da Mata. O guia faz uma breve introdução à prática, recolhe telemóveis para uma mochila comum, e logo aí percebes que isto não é uma visita turística. A partir desse momento fala-se pouco.
A sessão organiza-se em convites, propostas sensoriais que o guia lança ao grupo. Podem ser tão simples como percorrer dez metros em silêncio durante dez minutos, ou identificar três sons distintos sem mexer a cabeça. Entre cada convite há momentos de partilha curta em círculo, sem pressão. Caminha-se pouco, talvez um quilómetro no total, com paragens longas no Vale dos Fetos, na Fonte Fria, e junto aos cedros centenários da chamada Mata Relíquia.
O melhor momento, na minha opinião, é o convite final, normalmente uma cerimónia simples de chá feito com plantas locais da Mata, eucalipto-citriodora ou erva-cidreira, servido em copos de barro. Não é instagramável e é exatamente esse o ponto.
O que vestir e levar
- Calçado fechado com sola firme. Não é trail, mas há raízes, pedra molhada e desníveis suaves.
- Camadas. A Mata fica a 540 metros de altitude e em qualquer mês do ano pode estar dez graus mais fresca do que Coimbra ao meio-dia.
- Casaco impermeável de abril a outubro. As brumas formam-se em minutos e a chuva fininha é frequente mesmo no verão.
- Cantil de água e uma peça de fruta. Não há cafés dentro do percurso. O chá final é fornecido pelo guia.
- Repelente natural de abril a setembro. Os mosquitos junto à Fonte Fria não brincam em serviço.
- Nada de perfumes ou colónias. Estraga a experiência olfativa para todo o grupo e os guias pedem expressamente.
Quando ir e dicas de quem já foi
A sessão da manhã é claramente superior à da tarde. A luz filtrada pelos cedros antes das onze é diferente, e ainda não há autocarros turísticos a chegar ao Palace Hotel. Evita domingos e feriados se possível. Outubro e novembro são os meses ideais: temperatura amena, cogumelos a despontar entre as fetas, e cores de outono sobre as sequoias importadas da Califórnia no século XIX.
Depois da sessão, recomendo descer ao Luso a pé pelos antigos trilhos termais, beber água da Fonte de São João diretamente da bica, e almoçar no Vacariça ou na Pedra dos Grilos, ambas a cinco minutos do Luso. Se voltares a Coimbra com fome, deixa o jantar para o Zé Manel dos Ossos, que faz uma chanfana que justifica reservar com dias de antecedência. Antes disso, vale a pena uma paragem no Miradouro do Vale do Inferno sobre o Mondego, especialmente no final da tarde.
Para perceberes melhor onde aterras quando voltas à cidade, lê o nosso guia de Coimbra e a peça sobre os cafés onde os estudantes realmente se sentam. Faz sentido fechar o dia com um galão e silêncio, depois de três horas de cedros, com a noção rara de que se calhar não precisas de fazer mais nada.