Zé Manel dos Ossos
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Zé Manel dos Ossos

Uma tasca minúscula no Beco do Forno, escondida atrás da Sé Velha, com paredes cobertas de poemas e uma cozinha que não pede desculpa por usar banha. Não aceita reservas, a fila começa antes da abertura, e vale cada minuto de espera.

O Beco do Forno é uma daquelas ruas que só se encontram quando já se perdeu o caminho. Estreita, em pedra, escondida atrás da Sé Velha, no coração da Coimbra histórica. É aqui, no número 12, que se senta o Zé Manel dos Ossos, uma tasca minúscula que muita gente considera o melhor sítio para comer comida tradicional portuguesa na cidade. Não há site, não há ementa online, não há reservas. Há uma porta, uma fila e, lá dentro, paredes inteiras cobertas de poemas, desenhos e bilhetes que clientes deixaram ao longo de décadas.

O que é, afinal, o Zé Manel dos Ossos

Comecemos pelo essencial: isto é uma tasca familiar, não um restaurante. O espaço tem meia dúzia de mesas apertadas, talheres simples, toalhas de papel, e um ambiente onde se ouve tudo o que se diz na mesa do lado. O serviço é direto, por vezes brusco se houver fila à porta, e essa é metade da experiência. Quem procura cerimónia ou um maître a explicar o vinho, está no sítio errado. Quem quer comer bem, gastar pouco e perceber porque é que os coimbrenses defendem este lugar com unhas e dentes, está no sítio certo.

A casa é conhecida pelos pratos pesados da cozinha portuguesa rural: feijoadas, javali, cabrito, ossos (os tais do nome), enchidos, migas. É o tipo de cozinha que se come com fome, com vinho da casa, e que faz desejar uma sesta a seguir. Não é cozinha leve. Não é cozinha de Instagram. É cozinha de avó, daquela que não pede desculpa por usar banha.

O que pedir, o que evitar

  • Javali: se estiver na ementa do dia, peça sem pensar. É um dos pratos mais reconhecidos da casa.
  • Cabrito assado: outro clássico, geralmente acompanhado de batata e arroz de forno.
  • Feijoada: à moda transmontana, robusta, perfeita para um almoço prolongado.
  • Entradas: as azeitonas, o pão e os enchidos que aparecem na mesa são pagos. Recuse o que não quiser, sem culpa.
  • Sobremesas: simples, caseiras. Um pudim ou uma fatia de bolo chega bem.

O vinho da casa é honesto e barato. Não vale a pena pedir uma garrafa cara, este não é o lugar para isso. Peça um jarro do tinto, sente-se, e deixe o tempo passar.

Como chegar e onde fica

O Zé Manel dos Ossos fica no Beco do Forno 12, 3000-192 Coimbra, numa zona da Baixa colada à Sé Velha. A pé, vindo da Praça do Comércio ou da Rua da Sofia, são cinco a dez minutos por ruas em ladeira, com calçada irregular, por isso deixe os saltos altos em casa. Se vier de carro, esqueça estacionar perto: a zona é praticamente toda pedonal ou de acesso muito limitado. O melhor é parar num dos parques pagos da Baixa, como o do Mercado D. Pedro V, e subir a pé. De táxi ou Bolt, peça para o deixar junto à Sé Velha e desça à procura do beco.

Depois do almoço, vale a pena perder-se pelas ruas em volta. A subida até à Alta universitária está cheia de arte urbana inesperada, e é uma boa forma de digerir uma feijoada. Para quem quiser ar livre, o Miradouro do Vale do Inferno oferece uma das vistas menos turísticas da cidade.

O que esperar à porta

Não há reservas. Repito: não há reservas. Telefonar para o +351 239 823 790 só serve para confirmar se a casa está aberta ou se há algum prato específico nesse dia, não para guardar mesa. A fila começa antes da abertura ao almoço e ao jantar, principalmente sextas, sábados e em época de exames ou de Queima das Fitas, quando os estudantes voltam com os pais e tios para mostrar a cidade.

Estratégia honesta: chegue 15 a 20 minutos antes da hora de abertura, escreva o seu nome ou indique-o a quem estiver à porta, e espere. Pode subir a rua, beber um café numa pastelaria das redondezas, e voltar. Ao jantar, a espera tende a ser maior. Se viajar com crianças pequenas ou tiver dificuldade em estar em pé muito tempo, prefira o almoço de semana, idealmente terça ou quarta.

Pormenores práticos

  • Preço: €€. Espere algo entre 15 e 25 euros por pessoa, com vinho da casa incluído. Não é uma tasca de 8 euros, mas continua a ser comida farta a um preço justo.
  • Pagamento: confirme diretamente se aceitam cartão antes de pedir. Muitas tascas familiares em Coimbra ainda preferem dinheiro, e é prudente trazer notas.
  • Horários: não há horário oficial publicado online de forma fiável. Telefone para confirmar antes de se deslocar, sobretudo ao domingo e à segunda, dias em que muitas casas deste tipo fecham.
  • Código de vestuário: nenhum. Venha como vier. Ninguém repara.
  • Línguas: o pessoal entende o básico em inglês, mas a ementa, quando há, está em português. Se hesitar, aponte para o prato da mesa do lado.

Vale a pena?

Vale, com uma ressalva: o Zé Manel dos Ossos não é para todos. Se procura conforto, ar condicionado generoso, mesas com espaço entre si e um empregado que explica a origem do azeite, vai sair frustrado. Se procura aquele tipo de almoço em que se sai com a barriga cheia, a conta a sorrir e a sensação de ter comido num sítio que existia muito antes de você lá chegar, então sim, é uma das paragens obrigatórias em Coimbra.

Não é o sítio mais barato da cidade nem o mais sofisticado. É, isso sim, um daqueles lugares onde a comida tem nome próprio, onde as paredes têm memória, e onde se percebe rapidamente porque é que tantos coimbrenses, estudantes e veteranos, voltam ano após ano. Vá com fome, paciência, e disposição para esperar. Em Coimbra, as melhores coisas raramente são as mais rápidas.