Cafés de Coimbra: Onde os Estudantes Realmente Se Sentam
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Cafés de Coimbra: Onde os Estudantes Realmente Se Sentam

· · Coimbra

O Café Santa Cruz ocupa uma capela manuelina de 1923, a Briosa vende arrufadas desde 1955, e a Penta na Rua da Sofia alimenta meio departamento de Letras. Um guia aos cafés onde Coimbra realmente se senta, com o que pedir e quando ir.

Há uma coisa que nenhum guia turístico explica bem sobre Coimbra: a vida académica desta cidade não acontece nas salas de aula. Acontece nos cafés. É à mesa de mármore do Café Santa Cruz que se discutem teses, se ensaiam serenatas e se decide quem paga a próxima rodada de bicas. É no balcão da Briosa que se come a arrufada que dá energia para sobreviver a mais uma noite de estudo. Se quer perceber Coimbra, não comece pela Universidade, comece pela chávena de café que está à frente.

Café Santa Cruz: A Igreja Onde Se Reza ao Café

Vamos ao mais óbvio, porque tem de ser dito: o Café Santa Cruz é, provavelmente, o café mais bonito de Portugal. E não é exagero. Aberto em 1923, ocupa uma antiga capela anexa à Igreja de Santa Cruz, na Praça 8 de Maio, e mantém os tectos abobadados manuelinos originais, os vitrais e as paredes em pedra. Sentar-se aqui é sentar-se dentro de quinhentos anos de história, mas com café decente e pastéis de nata à frente.

Dito isto, o Santa Cruz hoje é mais turístico do que académico. Os estudantes da velha guarda que ali passavam tardes a discutir política e poesia foram, em grande parte, substituídos por visitantes com câmaras ao pescoço. Não quer dizer que não valha a pena, vale, e muito. Mas vá de manhã, antes das dez, quando o espaço ainda respira e os turistas estão no hotel a tomar o pequeno-almoço do buffet. Peça uma bica e um pastel de Santa Clara (a especialidade em meia-lua, com amêndoa e ovos, que nasceu no Mosteiro de Santa Clara-a-Velha). Se tiver sorte, apanha uma sessão de fado de Coimbra ao vivo, que ali acontecem regularmente, e se o fado lhe despertar curiosidade, considere uma noite de fado n'À Capella, que é outra experiência num edifício religioso reconvertido, mas com menos multidões e mais autenticidade.

Pastelaria Briosa: A Dona das Arrufadas

Se o Santa Cruz é o café que todos fotografam, a Briosa é a pastelaria que todos os coimbrões conhecem. No Largo da Portagem desde 1955, é aqui que Coimbra vem buscar a sua doçaria conventual a sério. A montra é um catálogo do que os conventos da região inventaram ao longo de séculos: arrufadas de Coimbra, pastéis de Santa Clara, castanhas de ovos, suspiros.

A arrufada merece um parágrafo inteiro. Parece um pão doce inofensivo, mas é o doce mais identitário de Coimbra, nasceu no Convento de Sant'Ana e durante décadas foi vendido por vendedoras ambulantes nas ruas da Baixa e na Estação Velha. É fofo, amanteigado, ligeiramente açucarado, e perfeito às oito da manhã com um galão. Não é sofisticado, não é fotogénico, mas é honesto. E a Briosa faz das melhores da cidade.

Dica prática: o espaço em si não é grande, e ao fim de semana enche com facilidade. Vá num dia de semana, peça ao balcão, e se possível leve uma caixa de sortido conventual para a viagem. É o melhor souvenir que pode trazer de Coimbra, muito melhor do que uma miniatura da torre da Universidade.

Pastelaria Penta: A Favorita da Rua da Sofia

A Rua da Sofia é, para quem não sabe, Património Mundial da UNESCO, e é também uma das artérias mais movimentadas do quotidiano estudantil. Nos números 65 e 67, a Pastelaria Penta ocupa o seu espaço há mais de trinta anos, e é o tipo de sítio onde se nota imediatamente que quem ali entra sabe o que vai pedir.

A Penta não tem tectos manuelinos nem vitrais. Tem pastéis de Tentúgal que se desfazem ao toque, queijadas com sete pregas feitas como deve ser, e bolas de Berlim que são o almoço de emergência de meio departamento de Letras. O casal que gere a casa conseguiu, ao longo dos anos, manter a qualidade da pastelaria tradicional sem ficar preso ao passado, encontra aqui tostas de salmão e opções mais contemporâneas ao lado das receitas conventuais.

É o café onde se vai sem pensar, o que fica no caminho entre a paragem de autocarro e a faculdade. E isso, em Coimbra, é o maior elogio que se pode fazer a uma pastelaria.

A Rua Ferreira Borges e o Fantasma do Brasileira

Qualquer conversa sobre cafés históricos de Coimbra tem de mencionar a Rua Ferreira Borges, mesmo que com alguma nostalgia. Esta rua, uma das mais bonitas da Baixa, foi durante décadas o centro nervoso do café coimbrão. O Café Brasileira, aberto em 1921, era ponto de encontro de escritores, intelectuais e estudantes com ideias perigosas, no sentido bom da palavra. Hoje o espaço já não funciona como o café original, e a rua reinventou-se com novas lojas e espaços, mas a atmosfera de passeio urbano permanece.

Se descer a Ferreira Borges ao final da tarde, vai perceber o ritmo natural de Coimbra: estudantes de capa e batina a caminho de um ensaio, senhoras com sacos de compras, o ocasional turista perdido a tentar encontrar a Sé Velha. É aqui que se faz a transição entre a Baixa comercial e a subida para a Alta universitária, e vale a pena parar num dos cafés que hoje ocupam a rua, mesmo que nenhum tenha a aura do velho Brasileira.

Café Montanha: A Esplanada do Mondego

No Largo da Portagem, mesmo junto ao rio, o Café Montanha é uma presença constante desde 1988. Não é tão antigo nem tão monumental como o Santa Cruz, mas tem algo que nenhum outro café histórico de Coimbra oferece: uma esplanada enorme com vista para o Mondego e para a Ponte de Santa Clara.

O Montanha é mais generalista, café, pastelaria, pizzaria, refeições ligeiras, e é exactamente por isso que funciona como ponto de encontro estudantil. Ao almoço, há quem peça o bacalhau à Montanha ou um bife. Ao fim da tarde, a esplanada enche de gente com bicas e imperial. É o café para quando não se quer cerimónia, quando o objectivo é simplesmente sentar, olhar para o rio e deixar o tempo passar.

Depois do café, considere a curta caminhada até ao Miradouro do Vale do Inferno, que oferece uma perspectiva completamente diferente da cidade, verde, silenciosa, e sem qualquer multidão.

O Que Pedir: Um Guia Mínimo da Doçaria de Coimbra

A doçaria conventual de Coimbra é das mais ricas do país, e convém saber o que está a comer:

  • Arrufada de Coimbra: Pão doce conventual, nascido no Convento de Sant'Ana. Simples, reconfortante, melhor de manhã.
  • Pastel de Santa Clara: Meia-lua de massa fina recheada com doce de ovos e amêndoa. O doce mais emblemático da cidade.
  • Pastéis de Tentúgal: Massa folhada finíssima com recheio de ovos. Originários da vila de Tentúgal, a poucos quilómetros, mas vendidos em toda a região.
  • Queijadas: Com sete pregas, feitas com queijo fresco, gemas, leite e açúcar. Há quem diga que as de Pereira são as melhores.
  • Crúzios: Bolinhos à base de amêndoa e ovos, inspirados nos frades Crúzios do Mosteiro de Santa Cruz.

Não tente provar tudo num dia. Distribua ao longo da estadia. O açúcar conventual é generoso e o corpo humano tem limites.

Para Além do Café: O Que Fazer em Coimbra

Se os cafés lhe mostrarem uma face de Coimbra diferente da habitual, explore essa energia. A Alta universitária tem vindo a ganhar vida nova com os murais de arte urbana que redesenharam a Alta, vale a pena subir com olhos atentos às paredes. Para quem está a planear uma viagem mais longa pelo centro de Portugal, o nosso roteiro de uma semana no coração do país passa por Coimbra e por outras cidades que merecem o mesmo tipo de exploração lenta.

E se quiser sair da cidade por um dia, a região de Condeixa tem surpresas, incluindo uma experiência de degustação de azeite na Passeite que é tão educativa quanto deliciosa.

Notas Práticas

Os cafés da Baixa de Coimbra concentram-se todos num raio de dez minutos a pé, do Largo da Portagem à Praça 8 de Maio, passando pela Rua Ferreira Borges e pela Rua da Sofia. É um percurso natural, e pode facilmente visitar três ou quatro num único passeio matinal.

Uma bica custa entre €0,70 e €1,00 na maioria destes espaços. Os doces conventuais variam, mas raramente ultrapassam os €2-3 por unidade. Um pequeno-almoço completo num café histórico de Coimbra, café, sumo, pastel, fica por volta dos €4-5, o que, considerando o cenário, é quase uma ofensa à carteira tão leve que é.

A maioria destes cafés abre cedo, por volta das 7h30-8h00, e fecha ao final da tarde ou início da noite. Confirme localmente os horários exactos, que variam consoante a estação.

Coimbra é, acima de tudo, uma cidade que se vive devagar. E não há melhor sítio para praticar essa lentidão do que sentado num café com séculos de conversa impregnados nas paredes.

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