Repúblicas de Coimbra: Onde a Praxe Ainda Mora
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Repúblicas de Coimbra: Onde a Praxe Ainda Mora

· · Coimbra

São cerca de uma dúzia, têm nomes como Pra-Kys-Tão e Bota-Abaixo, e funcionam como pequenas repúblicas independentes onde se cozinha em panela comum e se canta fado à sobremesa. Um guia honesto às casas onde a Praxe ainda paga renda.

Há uma porta na Rua dos Combatentes da Grande Guerra que, vista de fora, parece estar prestes a cair. A campainha não funciona desde, provavelmente, o Estado Novo. Bate-se com os nós dos dedos e espera-se. Lá dentro, alguém grita o nome de outro alguém, há o som arrastado de chinelos pelo soalho, e quando a porta finalmente abre é um rapaz de vinte anos, descalço, com uma colher de pau na mão, a perguntar se vens jantar ou se vens só ver. Esta é uma República. E é o último sítio em Portugal onde o século XIX ainda paga renda.

As Repúblicas de Coimbra não são casas partilhadas. Não são repúblicas no sentido jurídico, nem comunas no sentido hippie. São, no rigor da palavra, instituições. Coletivos estudantis com nome próprio, brasão, livro de actas, panela comum e uma forma muito particular de eleger quem entra e quem sai, votada à mesa, geralmente depois do jantar, sempre com a porta fechada. Há cerca de uma dúzia ainda activas. Algumas têm mais de cem anos. Todas vivem o paradoxo de serem património vivo numa cidade que adoraria embalá-las e vendê-las a turistas, mas não pode, porque ainda há lá gente a dormir.

O que é, afinal, uma República

Comecemos pelo princípio prático. Uma República é uma casa alugada colectivamente por estudantes universitários, com regras internas escritas, eleição de cargos (cônsul, ministro das finanças, ministro da alimentação) e uma identidade que se mantém ao longo de décadas, mesmo quando todos os moradores mudam. O contrato de arrendamento, em muitos casos, passa de geração em geração de estudantes desde os anos 30 do século passado. Por isso é que as rendas continuam absurdamente baixas e por isso é que os senhorios, quando podem, tentam expulsá-las. Tem havido despejos. Tem havido manifestações na Praça 8 de Maio com cartazes pintados à mão e tarjas em latim macarrónico.

O nome de cada República é parte do folclore: Pra-Kys-Tão (a mais antiga, de 1927, no Alto de Santa Clara), Bota-Abaixo, Rapo-Sá-Ki-Tá, Kuckus, Real República Marias do Loureiro (a única feminina histórica, hoje mista), Palácio da Loucura. Os nomes são, quase sempre, um trocadilho ou uma piada interna que ninguém de fora compreende, e é exactamente esse o ponto.

A Praxe, vista de dentro

Antes de continuar, é preciso dizer uma coisa que nem todos os guias dizem: a Praxe Académica de Coimbra é polémica em Coimbra. Há professores que a defendem como tradição secular, há ex-praxistas que a renegam como hierarquia abusiva, e há caloiros todos os anos que desistem ao fim de uma semana. Não é, nem nunca foi, um espectáculo folclórico. É um sistema de socialização com regras, hierarquias e, sim, ocasionalmente, excessos.

Quem quiser entender o lado público e festivo da coisa, leia o nosso guia honesto da Queima das Fitas, que cobre a semana grande em Maio. Mas as Repúblicas são o lado privado, doméstico, quotidiano da vida estudantil coimbrã. É lá que se cozinha, se estuda, se discute política da AAC até às quatro da manhã, e se canta fado de Coimbra sem público, sem palco, sem aplausos. Só pela necessidade fisiológica de cantar.

Onde estão e como as reconhecer

A maior parte das Repúblicas concentra-se em três zonas: a Alta (à volta da Universidade), Santa Clara (do outro lado do Mondego) e a Baixa (Sé Velha, Rua da Sofia, zona de Celas). Não estão sinalizadas. Não têm placa. Reconhecem-se pelas bandeiras à janela, pelos brasões pintados na porta, e pelos graffiti políticos que cobrem as fachadas, normalmente em homenagem ao 25 de Abril, ao Che, ou a algum confronto recente com a câmara municipal.

A Pra-Kys-Tão, por exemplo, fica no Alto de Santa Clara, num casarão de três pisos com vista para a Universidade. A Real República dos Inkas é na Rua dos Combatentes. A Bota-Abaixo é em Celas. Não vou listá-las todas porque não sou guia turístico e porque, sinceramente, a graça é encontrá-las por acaso, ao passar.

Pode-se visitar?

Resposta curta: às vezes. Resposta longa: depende.

Algumas Repúblicas, sobretudo em datas específicas (festas de aniversário, jantares de comemoração da Queima, dias de portas abertas durante a Latada em Outubro), recebem visitantes. Há também jornadas organizadas pelo Conselho das Repúblicas, normalmente em Maio. Fora desses dias, aparecer à porta sem ser convidado é considerado, no mínimo, mal-educado. Não é um museu. É a casa de alguém. Se conhecer um estudante de Coimbra, peça-lhe para o levar a jantar a uma. Se não conhecer, vá à Sé Velha às onze da noite num sábado em Maio: provavelmente vai ouvir cantar de uma janela aberta e isso é, em si, uma forma de visita.

O jantar da República: um ritual

O jantar é a instituição dentro da instituição. Acontece todos os dias, há um responsável da semana que cozinha para dez ou doze pessoas com um orçamento de cinco euros por cabeça, e há sempre, sempre, sopa primeiro. A ementa é territorial: feijoada à transmontana, arroz de pato, bacalhau à brás, sopa da pedra, e nas sextas-feiras frango. Bebe-se vinho a granel comprado em garrafão na mercearia da esquina. Discute-se tudo: o ministro da educação, a final da Champions, se Camilo Castelo Branco era pior pessoa do que Eça de Queirós, e o que fazer com o calhau que alguém roubou da Sé Velha em 1998 e ainda lá está na sala.

Se quiser comer comida de estudante coimbrão num ambiente que não é uma República mas chega perto na intensidade e no preço, vá a Zé Manel dos Ossos, a tasca minúscula com paredes cobertas de poemas e guardanapos escritos à mão. Não há reservas, há fila, e a javalina é a melhor da cidade. Leve dinheiro vivo.

O fado, dentro de portas

O fado de Coimbra não é o fado de Lisboa. É masculino (tradicionalmente), é cantado por estudantes ou ex-estudantes, é instrumentado com guitarra portuguesa afinada um tom abaixo, e o público não bate palmas: tosse. Tossir é a forma respeitosa de aplaudir o fado de Coimbra, herança directa das serenatas debaixo das janelas das raparigas do antigo Convento de Santa Clara, onde aplaudir teria sido escandaloso.

Nas Repúblicas, o fado canta-se à sobremesa, sem aviso, geralmente depois de alguém dizer uma piada e outro alguém responder com o primeiro verso de uma balada. É íntimo, é descontraído, e é absolutamente impossível de simular. Para o lado público e ritualizado do fado coimbrão, há a noite n'À Capella, uma capela do século XIV reconvertida em casa de fado, onde se ouve sentado em silêncio e se tosse no fim. Vale a pena. É a porta de entrada formal para o género e o ambiente acústico daquela abóbada não tem rival na cidade.

Quando ir a Coimbra para entender as Repúblicas

Há três alturas no ano em que a vida estudantil sai à rua e fica visível para quem não vive lá:

  • Latada (Outubro): a festa dos caloiros, com desfile pelo centro, baptismo no Mondego, e Repúblicas abertas a quem queira espreitar. É a versão informal e menos turística da Queima.
  • Queima das Fitas (Maio): a grande semana, com cortejo no domingo, noites no Parque Verde e serenatas monumentais nas escadarias da Sé Velha à meia-noite. Cobrimos tudo no guia dedicado.
  • Festa das Repúblicas (data móvel): organizada pelo Conselho das Repúblicas, com jornadas de portas abertas, exposições e jantares. Pergunte na AAC.

Fora destas três janelas, Coimbra é uma cidade universitária normal, com cinco mil turistas na fila para entrar na Biblioteca Joanina e zero na Rua do Cabido, que é onde está a vida real.

Um itinerário de meio dia, das Repúblicas para o resto

Se vier a Coimbra por um dia e quiser ver a cidade com este filtro em mente, comece de manhã pela Alta, suba pela Couraça dos Apóstolos até à Universidade (entrada paga, evite as caves se tiver claustrofobia), e desça depois pela Rua Larga até à Praça da República, onde fica a AAC e onde, à hora do almoço, vai ver tunas a ensaiar à porta. Almoce no Zé Manel ou, se a fila estiver impossível, em qualquer das tascas da Rua Direita.

À tarde, atravesse a Ponte de Santa Clara e suba até ao Miradouro do Vale do Inferno, do outro lado do rio. É o melhor sítio para perceber a topografia desta cidade: a Universidade no topo, a Baixa a escorrer para o rio, e as Repúblicas espalhadas como nódoas teimosas pela encosta. Não há cafés, não há autocarros turísticos, há um banco de pedra e o silêncio. Leve uma sandes.

Se ficar mais um dia, considere uma escapada a Condeixa para a visita ao lagar Passeite, vinte minutos de carro a sul. É um lagar de azeite com prova guiada, explica-se a química do azeite virgem extra com rigor e bom humor, e prova-se um galego que muda a forma como se entende uma sopa.

O futuro: precário, como sempre

Não vou romantizar isto. As Repúblicas estão em crise há trinta anos. As rendas que pagam são incompatíveis com o mercado imobiliário actual, os senhorios herdeiros querem vender, e a câmara, embora declare publicamente apoio, raramente intervém. Algumas casas históricas já fecharam. Outras resistem em tribunal. A Real República Boa Vida, por exemplo, foi expulsa em 2019 da casa que ocupava desde 1957.

Há campanhas, há associações de antigos repúblicos, há iniciativas para classificar as casas como património imaterial. Há também, claro, indiferença generalizada. Quando vier a Coimbra, não venha apenas pela Biblioteca Joanina e pela tour guiada da Sé. Caminhe pela Rua dos Combatentes, leia os graffiti, repare nas bandeiras às janelas. Se ouvir alguém cantar, pare. Tussa, se souber. E se conhecer um estudante, peça para ir a um jantar. É a única forma honesta de entender Coimbra.

Para quem queira combinar Coimbra com outras viagens curtas pelo centro, o guia dos trilhos de Abril em Caldas da Rainha faz boa companhia, e se calhar a sua viagem com o 13 de Maio, vale a pena ler também o guia da peregrinação a Fátima, que fica a uma hora de comboio.

Coimbra dura. As Repúblicas, com sorte, também.

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