Rota do Dão à Volta de Viseu: Guia para Iniciantes
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Rota do Dão à Volta de Viseu: Guia para Iniciantes

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Viseu não tem comboio, e isso diz-te tudo: a Rota do Dão faz-se de carro e com calma. Um guia honesto para iniciantes, do Encruzado ao queijo da serra, com os melhores cafés e mesas da cidade pelo meio.

Há uma coisa que ninguém te conta sobre Viseu antes de chegares: não há comboio. A cidade é, provavelmente, a maior capital de distrito do país sem estação ferroviária a funcionar, e isso diz-te logo o essencial sobre a Rota do Dão. Isto faz-se de carro, com calma, e de preferência com alguém sóbrio ao volante. Se vens de Lisboa são cerca de duas horas e meia pela A1 e A25; do Porto, hora e meia. Não há atalho. E ainda bem, porque a paisagem de pinhal, granito e vinha baixa que rodeia Viseu é exatamente aquilo que estás aqui para ver.

O Dão é, para mim, a região de vinhos mais subestimada de Portugal. Toda a gente fala do Douro e do Alentejo, e o Dão fica ali no meio, encavalitado entre a Serra da Estrela, o Caramulo e o Buçaco, protegido dos extremos por essas montanhas como uma tigela de granito. O solo é granítico de verdade (aqui posso usar a palavra), pobre e ácido, e é precisamente essa pobreza que dá aos vinhos a sua elegância nervosa. Não esperes os tintos potentes e doces de fruta do sul. O Dão é mais magro, mais mineral, mais a pensar do que a gritar.

Primeiro: percebe o que estás a beber

Antes de saíres para o campo, vale a pena dedicar uma manhã a perceber as castas. A Touriga Nacional, a casta-rainha de Portugal, é originária daqui (o Douro que me perdoe). É ela que dá estrutura e aquele aroma a violeta e bergamota aos melhores tintos. Acompanham-na a Alfrocheiro, a Jaen e a Tinta Roriz. Mas o segredo do Dão, aquilo que devias provar primeiro mesmo que sejas pessoa de tintos, são os brancos de Encruzado. É uma das melhores castas brancas do país: estruturada, com acidez de limão e capacidade de envelhecer anos em garrafa. Um Encruzado bem feito faz frente a muito Borgonha pelo dobro ou triplo do preço.

Para uma introdução honesta sem sair da cidade, começa pela loja da Comissão Vitivinícola Regional do Dão, em Viseu, onde podes provar referências de várias quintas e perceber o estilo antes de te comprometeres com uma visita. Confirma horários e condições de prova localmente, porque mudam consoante a época. A vantagem é clara: provas dez produtores numa hora e percebes de quais gostas, em vez de conduzir 40 minutos até uma quinta cujo vinho afinal não é para ti.

Como planear: três quintas, não dez

O erro do iniciante é querer ver tudo. Não. Duas ou três visitas por dia, no máximo, com tempo para almoçar e digerir. As quintas do Dão estão espalhadas por concelhos como Mangualde, Nelas, Carregal do Sal, Penalva do Castelo e Tondela, quase todas a 20 ou 40 minutos de Viseu. Marca sempre com antecedência: estas não são as adegas industriais do Douro com autocarros à porta. Muitas são casas de família onde te recebe o enólogo ou o dono, e isso exige um telefonema ou email prévio.

A minha sugestão de lógica para um primeiro dia: uma quinta clássica de manhã para perceber o Dão tradicional, almoço numa adega com restaurante, e uma quinta mais moderna ou de autor à tarde. Reserva o segundo dia para a parte que torna o Dão especial, que não é só o vinho.

O Dão não vive só de vinho

Aqui está a minha opinião forte: se vens ao Dão só para provar vinho, estás a desperdiçar metade da viagem. Esta é terra de queijo Serra da Estrela, daquele queijo amanteigado de coalho de cardo que se come à colher quando está no ponto. A poucos quilómetros de Viseu, em Penalva do Castelo, a Casa da Ínsua é uma daquelas paragens que justificam o desvio, e dá para combinar com um workshop onde aprendes a fazer queijo Serra da Estrela com as próprias mãos. Provar um Encruzado ao lado de um queijo da serra feito por ti é o tipo de experiência que não esqueces, e ensina-te mais sobre harmonização do que qualquer curso.

Se chover, ou se simplesmente quiseres um dia diferente, Viseu tem uma tradição de azulejaria que vale a pena conhecer por dentro. Um workshop de pintura de azulejo com o mestre António Cruz é a desculpa perfeita para perceber porque é que a cidade tem aquele ar de painéis azuis e brancos por todo o lado. Sais com uma peça pintada por ti, o que é bem melhor souvenir do que mais um íman.

Onde comer e descansar entre provas

Provar vinho de estômago vazio é receita para um fim de tarde miserável. Felizmente, Viseu come bem e sem frescuras. O centro histórico, à volta da Sé e do Adro, está cheio de sítios, mas tenho os meus.

Para almoço ou jantar a sério, o Armazém do Caffè é uma aposta segura: cozinha de produto, ambiente descontraído e uma carta de vinhos onde encontras boas referências do Dão a copo, o que é ideal quando queres provar sem abrir uma garrafa inteira. Pede ao staff para te sugerir um Dão local em vez de ires ao seguro de uma marca conhecida; é assim que descobres os produtores pequenos.

Para começar o dia, esquece o pequeno-almoço do hotel. O Café Hermínio é uma instituição em Viseu, daqueles cafés de bairro onde te servem a bica e o balcão é o centro do mundo às oito da manhã. É o sítio para tomar o pulso à cidade antes de pegares no carro. E a meio da tarde, quando o açúcar baixa entre uma quinta e outra, a Confeitaria Amaral resolve-te a vida com a doçaria conventual da região. O Dão tem uma tradição de doces de ovos que combina surpreendentemente bem com um tinto velho ou um licoroso, se a quinta tiver.

O que comprar e quanto gastar

Boas notícias para a carteira: o Dão continua a ser uma das regiões com melhor relação qualidade-preço do mundo. Um tinto sério de uma quinta respeitada anda muitas vezes entre os 8 e os 15 euros na origem, e um Encruzado de gama média pelo mesmo dinheiro. As garrafas de topo, os vinhos de parcela e as reservas antigas, sobem para os 25, 40 euros ou mais, mas mesmo essas são pechinchas comparadas com vinhos equivalentes de outras regiões.

As provas nas quintas variam: algumas são gratuitas se comprares, outras cobram uma taxa simbólica que reverte em desconto na compra. Confirma sempre ao marcar. O meu conselho prático: leva uma caixa de cartão ou uma mala de cabine com proteção, porque vais comprar mais do que pensas, e os correios para fora de Portugal saem caros.

  • Para levar tinto: escolhe um Dão clássico de lote, de uma quinta com história, para perceber o estilo da região.
  • Para levar branco: um Encruzado, sem dúvida. Guarda-o dois ou três anos e agradeces-me.
  • Para impressionar: um tinto de uma só casta de Touriga Nacional ou um vinho de parcela única.
  • Para beber já: qualquer rosé ou branco jovem da região, perfeito para o verão.

Quando ir

A época das vindimas, em setembro e início de outubro, é mágica: as quintas cheiram a mosto, há cestos de uvas por todo o lado e os enólogos estão entusiasmados (e exaustos). Mas é também a altura mais ocupada, por isso marca com semanas de antecedência. A primavera, de abril a junho, é a minha preferida: as vinhas estão verdes, os dias são longos e há menos gente. O inverno é mais cru e algumas quintas pequenas fecham ao público, mas a vantagem é provar tintos ao lado da lareira, que é como o Dão sempre se bebeu.

Reserva pelo menos dois dias. Um para as quintas a oeste e a sul de Viseu, outro para o lado de Penalva do Castelo e Mangualde, com a paragem do queijo pelo meio. E se sobrar uma manhã, perde-te no centro histórico de Viseu, sobe à Sé, vê o Museu Grão Vasco e percebe que esta cidade tem muito mais do que vinho.

Honestamente

O Dão não te vai assaltar com drama. Não tem o Douro a cair a pique sobre o rio nem multidões a fazer fila para tirar a fotografia. É uma região para quem gosta de conduzir devagar por estradas secundárias, parar numa adega onde o dono te conta a história de cada vinha, e voltar para Viseu ao fim da tarde com o porta-bagagens cheio. Faz parte da nossa série de guias honestos, como o guia da Queima das Fitas de Coimbra ou o roteiro de trilhos pela zona de Caldas da Rainha: dizemos-te o que vale a pena e o que podes saltar.

E o que podes saltar? Quintas que vendem a experiência mais do que o vinho, com lojas grandes e provas em linha de montagem. O Dão a sério é o oposto disso. É pequeno, é teimoso, é granito e Encruzado. Bebe-o devagar.

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