Viseu a Pé: Casa do Adro e Rua Direita Sem Pressa
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Viseu a Pé: Casa do Adro e Rua Direita Sem Pressa

· · Viseu

A cidade velha de Viseu não se faz a correr. Um guia a pé pela Rua Direita e pela Casa do Adro, com paragens obrigatórias na Confeitaria Amaral, no Café Hermínio e no Armazém do Caffè, e duas oficinas que mudam o tom do dia.

Há cidades que se entregam ao primeiro café. Viseu não é uma delas. A cidade velha, encaixada entre a Sé e a Praça D. Duarte, foi construída em granito cinzento da serra do Caramulo, e esse granito tem uma propriedade peculiar: às nove da manhã está frio como uma lápide, às duas da tarde devolve o sol com juros, e ao fim do dia fica cor de mel. Se quiser ver isso, tem de andar. A pé, sem mapa aberto no telemóvel, com pernas dispostas a subir e descer a mesma rua duas ou três vezes.

Este guia é para quem quer fazer Viseu como ela se deixa fazer: devagar, parando muito, comendo bem. Concentra-se em duas artérias que toda a gente atravessa sem reparar, a Rua Direita e o conjunto à volta da Casa do Adro, e em três paragens onde provavelmente vai querer ficar mais tempo do que planeou.

Onde começar (e porque não é na Sé)

A maior parte dos visitantes começa na Sé Catedral, olha para o claustro renascentista, fotografa a fachada e desce. É um erro tático. A Sé está sempre lá, e está melhor às cinco da tarde, quando o sol bate de lado nas torres e o adro fica praticamente vazio. De manhã, a luz é dura e os autocarros de excursão chegam às dez.

Comece antes. Por volta das oito, oito e meia. Suba até à Praça D. Duarte pelo lado contrário, pela Rua Augusto Hilário, e deixe-se ir ao acaso. Vai dar à Casa do Adro, um edifício de granito escuro com janelas manuelinas que dá nome à zona inteira. Os locais chamam-lhe simplesmente "a casa antiga". Não tem horário de visitas, é privada, mas o exterior basta: pare no adro, encoste-se à parede e ouça. A cidade ainda está a acordar. Uma porta abre num primeiro andar, alguém estende uma toalha, um cão ladra em surdina. Isto não dura muito. Aproveite.

O pequeno-almoço que não pode falhar

A regra para Viseu é simples: nunca tome o pequeno-almoço no hotel. A cidade tem três casas centenárias num raio de quinhentos metros, e ignorá-las por causa de um buffet com ovos mexidos mornos é quase ofensivo.

A primeira paragem séria é a Confeitaria Amaral. Funciona desde os anos vinte, tem balcão de mármore, vitrines de vidro curvado e um cheiro a manteiga quente que se sente antes de virar a esquina. Peça uma castanha de ovos e um galão. As castanhas são doces tradicionais da casa, à base de gema e açúcar, e custam pouco mais de um euro cada. Não peça "o melhor doce", peça aquele. Os pasteleiros lá dentro vão decidir que sabe o que está a fazer, e a partir daí o atendimento muda de tom.

Se prefere uma coisa mais sentada, com tempo para abrir o jornal e olhar pela janela, atravesse à Café Hermínio. É o café dos viseenses de gravata e dos reformados de boina, ao mesmo tempo. Mesas pequenas, espelhos antigos, garrafeira com vermutes que ninguém pede há trinta anos. Aqui a bica vem com um copo de água que ninguém lhe pergunta se quer, e o pão com manteiga é o melhor argumento que conheço a favor de chegar cedo.

Subir a Rua Direita devagar

A Rua Direita é o eixo da cidade velha. É estreita, calcetada com pedra irregular (cuidado com saltos altos, falo a sério), e sobe num declive que parece pouco até experimentar com sacos de compras. Os edifícios são de três, quatro andares no máximo, e quase todos têm rés-do-chão comercial.

O conselho prático: faça-a de baixo para cima de manhã, e de cima para baixo ao fim da tarde. De manhã apanha as lojas a abrir, os toldos a serem estendidos, os comerciantes a varrer a porta. Ao fim da tarde apanha a luz dourada nas pedras e os bares a tirar as primeiras mesas para fora.

Pelo caminho, repare em três coisas que ninguém aponta nos guias:

  • As soleiras de granito gastas em curva pelo uso de séculos. Há portas onde a depressão central tem dois ou três centímetros de profundidade. É um detalhe pequeno, mas é literalmente o desgaste dos viseenses, geração a geração.
  • Os painéis de azulejo do início do século XX em fachadas residenciais. Não estão protegidos, vão-se perdendo, e ninguém faz inventário. Veja-os enquanto pode.
  • Os números de polícia em ferro fundido. Muitos são originais, e a tipografia muda de rua para rua, o que sugere oficinas locais diferentes a fornecer a câmara em épocas distintas.

Sou suspeito, mas há ali uma forma de olhar que vale mais do que entrar na Sé.

Almoço sem inventar

Quando o estômago começar a reclamar, e em Viseu reclama por volta da uma, atravesse para o Armazém do Caffè. Fica num antigo armazém recuperado, com tetos altos e mesas de madeira. Não é uma tasca de avental, é mais uma casa contemporânea com cozinha regional. A vantagem: serve almoços decentes a preços razoáveis num centro histórico onde é fácil cair em armadilhas para turistas.

Recomendação direta: peça o prato do dia ao balcão antes de se sentar. Em Viseu o prato do dia ainda é o termómetro real de uma casa. Se for vitela à lavrador, posta à mirandesa ou um arroz de pato bem feito, fique. Se for uma coisa estranha com molho de natas, levante-se. A cozinha do centro de Portugal não precisa de molho de natas.

Para beber, ignore as cartas de vinhos imensas e peça um tinto do Dão da casa. O Dão é a denominação local, a sério, e há produtores pequenos cujo vinho a copo ronda os três euros. Beba isso, não a sangria.

A tarde: oficinas, queijo, azulejo

Viseu tem duas experiências organizadas que vale a pena reservar com antecedência, e que mudam completamente o tom do dia. A primeira é o workshop de pintura de azulejo com o mestre António Cruz. Faz-se em ateliê na zona antiga, dura uma manhã ou tarde, e sai de lá com a sua peça pintada à mão. Não é um souvenir industrial, é um objeto que vai existir só na sua casa. Para quem está duas noites em Viseu, vale o investimento.

A segunda, se tiver carro ou estiver disposto a gastar uma manhã inteira fora da cidade, é o workshop de queijo Serra da Estrela na Casa da Ínsua, em Penalva do Castelo, a meia hora a leste. Aprende-se como o cardo silvestre coalha o leite (sim, é planta, não é coalho animal), prova-se queijo em três estágios de cura, e percebe-se porque é que o melhor Serra é caríssimo. Saí de lá a olhar com desconfiança para tudo o que se vende como "queijo da Serra" no supermercado.

Fim de tarde no adro

Por volta das cinco, volte para a zona da Casa do Adro. A luz vira-se. O granito que de manhã era cinzento fica cor de pão tostado. Os turistas da Sé já desceram para os autocarros, os locais ainda não saíram do trabalho, e há uma janela de uns quarenta minutos em que a cidade é só sua e de meia dúzia de pombos.

Sente-se nuns degraus, beba água, descanse os pés. Não tente fotografar isto, é uma daquelas luzes que não passa para o telemóvel. Olhe.

Se tiver fome ligeira ao fim da tarde, volte à Confeitaria Amaral antes de fechar e leve uma viseense, um doce conventual local feito com gema e amêndoa. Em casa, com um café, é melhor do que a maior parte das sobremesas de restaurante.

Onde dormir, brevemente

Não vou recomendar hotéis específicos porque não é esse o objetivo deste guia. Mas dou duas regras práticas: durma dentro do centro histórico, num raio de cinco minutos a pé da Praça D. Duarte, e não pague mais de cento e vinte euros por noite em quarto duplo a não ser em fim de semana de feira (a Feira de São Mateus, em agosto e setembro, dispara os preços). Há boas pensões de família em edifícios antigos restaurados, e há um par de hotéis de gama média no centro. Procure janelas para a rua, mesmo que ouça os carros, porque a alternativa é dar para um pátio interior sem luz.

Quando ir

Viseu é uma cidade do interior centro, com clima continental. Inverno frio, verão quente. As minhas duas janelas favoritas:

  • Final de maio a meados de junho. Dias longos, temperaturas amenas, esplanadas a funcionar, sem o calor de julho.
  • Final de setembro e outubro. Vindima recente no Dão, restaurantes a estrear pratos de outono, luz baixa que faz milagres ao granito.

Evite agosto se puder. A cidade enche-se com a Feira de São Mateus, que é uma feira popular gigantesca com tasquinhas e concertos. Diverte muita gente, e tem o seu lugar, mas não é uma boa altura para descobrir o centro histórico em sossego.

Como chegar

Viseu não tem comboio, o que parece um insulto à cidade mas tem explicação histórica (e politica) longa. As opções práticas são:

  • Carro próprio. Autoestrada A25 desde Aveiro ou A24 desde Vila Real. Há estacionamento pago na zona do Rossio, dez minutos a pé do centro histórico.
  • Autocarro Rede Expressos. Há ligações diárias de Lisboa (cerca de três horas e meia) e Porto (cerca de duas horas). É a forma mais simples para quem vem sem carro.

Para se mexer na cidade velha, esqueça táxi e transporte público. É tudo a pé, e nem é grande. Calce sapatos decentes, com sola que agarre na pedra molhada se chover.

Outras leituras antes de viajar

Se este guia for a sua primeira aproximação ao centro de Portugal, vale a pena perceber como funciona o resto da região e como abordamos guias por cá. O guia honesto da Queima das Fitas de Coimbra dá-lhe contexto sobre a tradição académica que ainda pesa no centro do país. Se está a pensar combinar Viseu com outras paragens, o guia da peregrinação a Fátima a 13 de maio é útil para quem viaja em maio e quer perceber porque é que algumas estradas ficam impossíveis. E para uma comparação de ritmo, leia o nosso guia dos trilhos de abril em Caldas da Rainha: é o oposto de Viseu, costa atlântica, ar salgado, outro Portugal.

Resumindo, sem listas

Viseu não é uma cidade de fotografia. É uma cidade de caminhar. Tudo o que ela tem para dar acontece entre a primeira bica às oito da manhã na Confeitaria Amaral e a última taça de Dão tinto às onze da noite no Armazém do Caffè. No meio, há ruas, granito, oficinas, padarias e um adro onde a luz muda a cada hora.

Não tente ver tudo. Veja menos, devagar, duas vezes. É assim que se entende uma cidade do interior português. E é assim que Viseu, finalmente, começa a falar.

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