Trilhos de Viseu: Dificuldade, Paisagem e Onde Comer Depois
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Trilhos de Viseu: Dificuldade, Paisagem e Onde Comer Depois

· · Viseu

Do plano da Ecopista do Dão ao topo ventoso da Serra do Caramulo, os trilhos à volta de Viseu são surpreendentemente bons e quase desertos. Ranqueámos os melhores por dificuldade e paisagem, e dizemos-lhe onde comer depois.

Viseu não é o primeiro nome que vem à cabeça quando se fala de trilhos em Portugal. Gerês, Arrábida, Serra da Estrela, esses são os habituais. Mas é precisamente por isso que vale a pena calçar as botas aqui: os caminhos à volta de Viseu são surpreendentemente bons, pouco frequentados, e terminam numa cidade onde se come como deve ser. Não há multidões, não há filas para tirar fotografias, e a relação entre esforço e recompensa é das melhores que conheço no centro do país.

Passei as últimas temporadas a percorrer os trilhos da região, e o que se segue é um ranking honesto, por dificuldade e por qualidade de paisagem. Porque nem toda a gente quer escalar pedras durante cinco horas, e nem todos os trilhos bonitos nas fotos são bonitos na realidade.

Trilhos Fáceis, Para Quem Quer Andar, Não Sofrer

Ecopista do Dão

Vamos começar pelo mais óbvio, porque é óbvio por boas razões. A Ecopista do Dão segue o traçado da antiga linha ferroviária entre Viseu e Santa Comba Dão, ao longo de cerca de 49 quilómetros. Não precisa de fazer tudo, os troços entre Viseu e Tondela, ou entre Tondela e Santa Comba, funcionam perfeitamente como passeios de meio dia.

O piso é plano e bem mantido, o que faz deste percurso a escolha certa para famílias, para quem está a recuperar de lesões, ou simplesmente para quem quer caminhar sem consultar mapas. A paisagem é de vinhas e pinheiros, com travessias sobre pontes de pedra que eram da linha do comboio. Não é dramática, mas é bonita de uma forma discreta e honesta. A melhor luz é ao fim da tarde, quando o sol rasante ilumina o vale do Dão de lado.

Dificuldade: 1/5. Terreno plano, sem surpresas.
Paisagem: 3/5. Agradável e variada, sem ser espetacular.
Dica: Pode alugar bicicletas em Viseu para fazer troços maiores. Confirme localmente os pontos de aluguer.

Percurso do Fontelo

Dentro da própria cidade, o Parque do Fontelo oferece um circuito curto mas surpreendentemente verde. São cerca de 3 quilómetros entre árvores centenárias, o que é perfeito para quem tem uma hora livre e quer esticar as pernas sem sair de Viseu. O parque era a antiga cerca do Paço Episcopal, e nota-se: há uma qualidade de silêncio ali dentro que não se espera a poucos minutos do centro.

Dificuldade: 1/5. Passeio urbano.
Paisagem: 2/5. Bonito, mas é um parque, não uma serra.

Trilhos Intermédios, O Ponto Doce

Trilho do Rio Paiva (troço de Castro Daire)

Não confundir com os Passadiços do Paiva em Arouca, este é o rio na sua versão mais a montante, menos turistificada e, arrisco dizer, mais bonita em certos troços. A zona de Castro Daire, a cerca de 40 minutos de Viseu, tem percursos ao longo do Paiva que combinam floresta densa, praias fluviais e passagens rochosas que exigem alguma atenção ao piso.

O trilho não é circular na maioria dos casos, o que significa que vai precisar de planeamento logístico ou de fazer o caminho de volta pelo mesmo sítio. Mas o esforço compensa: há troços onde o rio corre entre penedos de granito com uma transparência que faz lembrar água de nascente, porque é, efectivamente, água de nascente.

Dificuldade: 3/5. Algum desnível, piso irregular.
Paisagem: 4/5. Das melhores da região, sem discussão.
Dica: No verão, leve fato de banho. As praias fluviais justificam o desvio.

Trilho de São Macário

A Serra de São Macário fica a sudeste de Viseu, perto de São Pedro do Sul. O percurso até ao topo, onde está a capela de São Macário, tem um desnível moderado e oferece vistas panorâmicas sobre as serras circundantes que são, sem exagero, das melhores do centro de Portugal. Num dia claro, vê-se desde a Serra da Estrela até à Serra do Caramulo.

O trilho em si é bem sinalizado e tem cerca de 12 quilómetros na versão circular. A subida final é a parte mais exigente, mas nada que uma pessoa com condição física razoável não consiga. Se está a planear uma semana no coração do país, este trilho merece um dia inteiro.

Dificuldade: 3/5. Subida consistente mas nunca brutal.
Paisagem: 5/5. As vistas do topo são extraordinárias.

Trilhos Exigentes, Para Quem Gosta de Suar

Serra do Caramulo, Percurso da Pedra Cancelinha

A Serra do Caramulo é a grande protagonista dos trilhos sérios à volta de Viseu. O percurso até à Pedra Cancelinha, uma formação rochosa no ponto mais alto da serra, a cerca de 1075 metros, é exigente, com desníveis acentuados e terreno técnico em alguns troços. São cerca de 15 quilómetros na versão completa.

A recompensa é uma paisagem que muda radicalmente com a altitude: começa-se entre eucaliptos (sim, há eucaliptos, não vou fingir que não), passa-se por manchas de carvalho, e no topo o terreno é rochoso e varrido pelo vento, com vistas para o litoral num dia limpo. É o tipo de trilho que lembra que Portugal tem montanha a sério, mesmo longe do Gerês.

Dificuldade: 4/5. Desnível significativo, troços técnicos.
Paisagem: 4/5. Variada e impressionante no topo.
Dica: Leve camadas de roupa. A diferença de temperatura entre a base e o topo pode ser de 10 graus.

Trilho das Termas de São Pedro do Sul ao Banho

Este é mais curto mas mais íngreme do que parece. Liga as termas, as mais antigas de Portugal em funcionamento contínuo, ao rio Vouga por um percurso que desce e sobe com pouca contemplação. O interesse aqui não é tanto a extensão, mas a combinação de história (as termas têm vestígios romanos), geologia e a brutalidade honesta da subida de regresso.

Dificuldade: 4/5. Curto mas com desnível concentrado.
Paisagem: 3/5. Interessante, mais pela envolvente termal do que pela paisagem pura.

Depois do Trilho, Onde Comer em Viseu

Um trilho sem uma boa refeição no fim é apenas exercício. E Viseu, felizmente, é uma cidade que leva a comida a sério.

Para um almoço reconfortante depois de uma manhã na serra, o Armazém do Caffè é uma aposta sólida. O espaço é bonito, um antigo armazém reconvertido, e a cozinha trabalha bem os produtos da região. Se está com fome a sério depois de um trilho no Caramulo, não vá com ideias de saladas.

Para algo mais leve, ou para o lanche de meio da tarde que o trilho justifica, a Confeitaria Amaral é uma referência em Viseu. É o tipo de pastelaria que não precisa de se reinventar porque faz as coisas bem há décadas. Os pastéis de Vouzela, se os tiver, são obrigatórios.

E se o que precisa é de um café decente e de um sítio para se sentar sem pressas, o Café Hermínio tem essa qualidade rara de ser um café de bairro que funciona para toda a gente, dos velhotes que jogam cartas aos caminheiros com barro nas botas.

Conselhos Práticos

  • Melhor época: Primavera (Abril-Junho) e Outono (Setembro-Novembro). No verão faz calor a sério no interior, e os trilhos expostos tornam-se desagradáveis. No inverno, as serras podem ter nevoeiro cerrado e temperaturas negativas no topo.
  • Equipamento: Para a Ecopista e o Fontelo, ténis normais servem. Para tudo o resto, botas de caminhada com sola aderente. O granito molhado é traiçoeiro.
  • Água: Leve mais do que acha que precisa. Fontes no caminho existem mas não são garantidas em todos os percursos.
  • Mapas: A sinalização dos trilhos oficiais é geralmente boa, mas leve o percurso descarregado no telemóvel. O sinal de rede é inconsistente nas serras.
  • Como chegar: Viseu está a cerca de 1h30 do Porto e 3h de Lisboa pela A25/A1. Sem carro, chegar à cidade é fácil de autocarro (Rede Expressos), mas os trilhos fora da cidade exigem transporte próprio.

Para Além dos Trilhos

Se os trilhos lhe abriram o apetite pela região e quer complementar com experiências mais culturais, há opções que valem o desvio. O workshop de azulejo com o Mestre António Cruz é o tipo de experiência que funciona precisamente porque não é genérica, é um artesão real, num ateliê real, a ensinar uma técnica real. Bom para dias de chuva ou para equilibrar um roteiro demasiado focado no ar livre.

E se a Serra da Estrela ficou a acenar-lhe do topo de São Macário, considere o workshop de queijo da Serra na Casa da Ínsua. O queijo Serra da Estrela DOP é uma das grandes maravilhas gastronómicas portuguesas, e perceber como é feito, com cardo, leite cru de ovelha bordaleira, e uma paciência que a maioria de nós já não tem, dá-lhe outra dimensão quando o come à mesa.

Quem procura mais trilhos noutras zonas do país pode consultar o nosso guia de trilhos em Caldas da Rainha, outro destino subestimado para caminhadas.

Viseu não precisa de marketing. Precisa que alguém calce umas botas e vá ver o que tem à volta. O que tem, para ser directo, é muito bom. E depois come-se. É o centro de Portugal no seu melhor.

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