Viseu: o Rossio Ilude, o Manuelino Esconde-se na Rua Direita
No Rossio de Viseu não há uma única esfera armilar à vista, e é aí que a maioria dos turistas erra o caminho. O verdadeiro manuelino, cordas de pedra e tudo, espera dez minutos colina acima, embutido nas janelas de casas particulares da Rua Direita.
Uma praça que engana
Quem vai a Viseu à procura de pormenores manuelinos e começa a busca na Praça do Rossio vai perder a manhã. O Rossio é um jardim do século XIX, com coreto, sebes aparadas e reformados a discutir futebol nos bancos. Às dez da manhã de uma terça-feira há mais carrinhos de bebé do que turistas, e ninguém ali parece particularmente interessado em D. Manuel I. É a sala de estar de Viseu, não o seu museu, e é exatamente esse mal-entendido que faz tanta gente andar às voltas na praça à procura de esferas armilares que simplesmente não estão lá.
O que o Rossio dá, em troca, é orientação. Fica no fundo da colina que a cidade velha sobe, e a partir dali há uma direção certa a seguir: subir. Quem sobe por engano para os lados do comércio moderno fica em Viseu contemporânea, rotundas e prédios de apartamentos. Quem sobe pela Rua Direita, a antiga espinha comercial da cidade, com padieiras de granito e varandas de ferro, chega a um sítio bem mais antigo em dez minutos de caminhada sem pressa.
O verdadeiro esconderijo: a Rua Direita
É aqui, e não no Rossio, que está o pormenor manuelino que dá título a este texto. A Rua Direita guarda um conjunto de janelas manuelinas classificadas como monumento nacional, embutidas em fachadas de casas que continuam habitadas e comerciais, sem placa gigante a chamar a atenção. É preciso andar devagar e olhar para cima, porque estas janelas competem com toldos de lojas, fios elétricos e montras, e perdem a maior parte das vezes.
O que se vê, quando se para mesmo em frente, são as marcas de sempre do repertório manuelino: cordas esculpidas em pedra como se estivessem enroladas, esferas armilares, o vocabulário marítimo que os canteiros de D. Manuel I espalharam pelo país depois de as viagens à Índia começarem a pagar as contas do reino. Não é Belém, não é Tomar. É uma janela de casa particular, numa rua onde as pessoas fazem compras e sobem para o trabalho, o que torna o achado mais interessante, não menos.
O que procurar de facto
- Molduras de janela com cordas torcidas esculpidas em pedra, o motivo manuelino mais fácil de identificar à primeira vista.
- Esferas armilares, o símbolo dos Descobrimentos, escondidas entre a decoração das ombreiras.
- A escala doméstica: são janelas de casas de comércio e habitação do século XVI, não portais de igreja, o que muda completamente a experiência de as ver.
- Luz de manhã. A meio da tarde a rua fica na sombra do lado errado e os relevos desaparecem.
A Sé: o manuelino que ninguém vê primeiro
No topo da Rua Direita chega-se ao Adro da Sé, e é aqui que o manuelino de Viseu tem, na verdade, a sua obra maior, só que escondida dentro de portas fechadas em vez de à vista na fachada. A fachada da catedral é sobretudo trabalho posterior, pesado e barroquizante, como aconteceu com a maioria das sés portuguesas ao longo dos séculos. O interesse manuelino está lá dentro, nas abóbadas da nave, obra do arquiteto João de Castilho, o mesmo nome que assinou parte do Mosteiro dos Jerónimos, mandada executar pelo bispo D. Diogo Ortiz de Vilhegas numa campanha que durou cerca de uma década, já entrado o século XVI. As nervuras cruzam-se em relevos trabalhados que retomam a mesma linguagem de cordas e nós que se vê nas janelas da Rua Direita, só que em pedra à escala de um teto de igreja em vez de uma moldura de janela.
Há uma armadilha comum aqui, e vale a pena evitá-la: o claustro da Sé, que a maioria dos guias trata como manuelino por associação de datas, é na verdade obra renascentista, mandada construir mais tarde pelo bispo D. Miguel da Silva, mecenas do pintor Grão Vasco. Passar da nave manuelina para o claustro renascentista, na mesma visita, é a forma mais rápida de perceber a diferença entre os dois estilos sem abrir um livro de história da arte. Um fala a linguagem das caravelas, o outro já fala a linguagem clássica que vinha de Itália.
O museu ao lado
Mesmo ao lado da catedral, no antigo paço episcopal do mesmo Adro da Sé, está o Museu Grão Vasco, e seria erro sair da Sé direto para o café sem lá entrar. É aqui que vive a outra história do século XVI em Viseu: as pinturas de Vasco Fernandes, o mestre local a quem toda a gente na cidade chama apenas Grão Vasco, e a escola de pintura de Viseu que ele liderou. O seu São Pedro, pintado precisamente para esta catedral, é um dos quadros mais surpreendentes do Renascimento português fora de Lisboa, e é surpreendente sobretudo por ninguém esperar encontrá-lo numa cidade média do interior. Meia hora chega, mas o edifício, com o seu próprio pátio de granito, já vale a entrada.
Onde reabastecer
Depois do claustro e do museu, o corpo pede café, e Viseu não complica isso. Perto do Rossio, o Café Hermínio é o balcão à moda antiga onde a bica sai rápida, barata e bem tirada, sem teatro de leite de aveia, só uma bica e talvez uma torrada se houver fome. É sítio de beber em pé nas horas de ponta, e isso faz parte do charme.
Para algo mais doce, a Confeitaria Amaral é a pastelaria que os viseenses realmente usam, não uma armadilha montada para grupos de autocarro. Peça o que tiver saído do forno na última hora, pergunte ao balcão se houver dúvida, e não pense demasiado nisso.
Se a visita à Sé se estender até à hora de almoço, o Armazém do Caffè é opção sólida e sem pretensões, perto o suficiente da cidade velha para não obrigar a descer de novo até ao Rossio e voltar a subir. É o tipo de casa que faz bem as coisas simples, o que depois de uma manhã inteira a olhar para pedra esculpida é exatamente o que apetece.
Aprender o ofício em vez de só olhar para ele
Se as cordas esculpidas e as esferas armilares deixarem vontade de perceber como é que aquilo se fazia, em vez de apenas fotografar, Viseu dá uma porta de entrada. A Arte do Azulejo em Viseu, um workshop de pintura com o Mestre António Cruz, coloca um pincel e um azulejo em branco à frente de quem visita, em vez de uma vitrine de museu. O azulejo chegou depois da pedraria manuelina, mas os dois ofícios partilham o mesmo instinto: cobrir uma superfície de padrão até ela dizer alguma coisa sobre quem pagou e porquê. Fazer mal um único painel dá um respeito novo por quem fez centenas bem feitos.
A tradição de ofício da região não é só visual. A uma hora de Viseu, na Casa da Ínsua, em Penalva do Castelo, A Arte do Queijo Serra da Estrela, um workshop gastronómico na Casa da Ínsua, ensina outro tipo de mestria local, o processo lento, de mãos na coalhada, por trás do queijo que acaba embrulhado em papel vegetal em metade dos balcões desta parte do país, incluindo, muito provavelmente, algum frigorífico de mercearia perto da Confeitaria Amaral. É um ritmo de aprendizagem diferente de olhar para um teto de igreja, e boa forma de passar uma tarde para quem fica na região mais do que um dia.
Chegar lá e organizar a visita
Viseu não tem estação de comboios com serviço regular de passageiros, o que a mantém um pouco fora do corredor ferroviário Porto-Lisboa e, sejamos justos, um pouco menos cheia do que seria de outro modo. A maioria chega de carro pela A25 ou pelo IP3, ou de camioneta a partir do Porto, Coimbra ou Lisboa, todas ligações razoavelmente diretas. Dentro da cidade, o centro histórico faz-se todo a pé. Do Rossio à Sé são dez minutos a subir, sem carro nenhum necessário e, honestamente, sem carro nenhum desejável, porque o estacionamento perto do Adro da Sé é escasso e as ruas estreitas o suficiente para tornar conduzir ali mais stressante do que útil.
A entrada na Sé costuma incluir um bilhete simbólico que dá acesso também ao tesouro, e o Museu Grão Vasco cobra entrada à parte, embora tenha manhãs de domingo com entrada gratuita, vale confirmar localmente antes de ir. Reserve uma manhã para a Sé e o museu juntos, e deixe o almoço e o café acontecerem onde os pés decidirem, o que nesta parte da cidade raramente é erro.
Vá numa manhã de semana, se puder. Viseu recebe um fluxo modesto mas real de turismo de autocarro ao fim de semana, e a Rua Direita, estreita como é, sente-se completamente diferente com seis pessoas a passar do que com sessenta. O Rossio, por seu lado, funciona a qualquer hora, porque o Rossio nunca tentou ser monumento nenhum. É só onde a cidade se senta a tomar café antes de ir olhar para si própria.