Hotel Império do Rei
Castelo Branco
Capital de distrito que muitos atravessam sem parar, Castelo Branco guarda o mais dramático jardim barroco do interior português e uma tradição de bordado em seda reconhecida pela UNESCO. Dois dias chegam para explorar a cidade, o queijo DOP, o cabrito assado e as Portas de Ródão.
O mar continua nos 23 graus, as praias esvaziam e os preços descem até 40%. E, para quem vem de carro, uma paragem em Castelo Branco, entre bordados de seda e uma boa noite de sono, torna a viagem até ao Algarve mais interessante do que o destino sozinho.
Em julho, Castelo Branco vira um forno e toda a gente sonha com água a correr e sombra a sério. As levadas da Madeira cumprem, mas só para quem madruga, sobe alto e foge do sul torrado. Um guia honesto, com a lanterna que vai precisar e os trilhos que valem mesmo a pena.
Nas ombreiras das portas da Rua Nova, sulcos retangulares denunciam mezuzás arrancadas há cinco séculos. O roteiro judaico de Castelo Branco não tem museus espetaculares, mas tem algo melhor: uma cidade que se lê de forma completamente diferente quando se conhece o código sefardita.
O Queijo de Castelo Branco DOP, curado com cardo selvagem durante pelo menos 45 dias, e a tigelada cozida em caçoilos de barro são duas das melhores razões para comer na Beira Baixa. Numa cidade sem hype gastronómico, a honestidade é o tempero principal.
Castelo Branco é daquelas capitais de distrito que os portugueses atravessam a caminho de Espanha sem parar. Um erro. A cidade não precisa de multidões para justificar uma visita, precisa é de visitantes com tempo para andar devagar pela Rua de Santiago, subir ao miradouro junto às ruínas do castelo dos Templários e deixar-se perder nos jardins mais teatrais do interior de Portugal.
O Jardim do Paço Episcopal, construído no início do século XVIII por ordem do bispo João de Mendonça, é o motivo pelo qual vale a pena desviar da autoestrada. Escadarias barrocas ladeadas por estátuas dos reis de Portugal, com os monarcas do domínio espanhol propositadamente esculpidos em tamanho menor, numa provocação em pedra que diz mais sobre o orgulho beirão do que qualquer livro de história. Fontes, tanques e buxo aparado compõem um cenário que não tem paralelo nesta parte do país.
Se há uma coisa que define Castelo Branco para lá da paisagem, é o bordado. Fios de seda natural sobre linho, trabalhados com cerca de 50 pontos diferentes, em motivos que vão da árvore da vida a romãs e cravos. Em 2023, a cidade entrou na Rede de Cidades Criativas da UNESCO precisamente por esta tradição. O Centro Interpretativo do Bordado, junto ao centro histórico, mostra colchas dos séculos XVII e XVIII que levaram meses, por vezes anos, a bordar. Não é decoração: é obsessão transformada em arte têxtil.
A mesa albicastrense não se faz de modas. O cabrito assado é o prato de referência, servido com batatas e acompanhado do queijo de Castelo Branco, um queijo curado de ovelha, intenso e ligeiramente amanteigado, com Denominação de Origem Protegida. Para sobremesa, a tigelada é obrigatória: um leite-creme denso, assado em tigelas de barro, com a superfície tostada a lembrar crème brûlée sem cerimónias. As papas de carolo, feitas com farinha de milho, leite e canela, são a outra opção, mais rústica, mais honesta.
Dois dias chegam para a cidade. Os verões são quentes e secos, acima dos 35°C com facilidade, por isso a primavera e o outono são as melhores alturas. Quem tiver mais tempo, as Portas de Ródão ficam a meia hora: dois penhascos que estreitam o Tejo num cenário que justifica o desvio.