De Castelo Branco às Levadas da Madeira em Julho
Em julho, Castelo Branco vira um forno e toda a gente sonha com água a correr e sombra a sério. As levadas da Madeira cumprem, mas só para quem madruga, sobe alto e foge do sul torrado. Um guia honesto, com a lanterna que vai precisar e os trilhos que valem mesmo a pena.
Há um momento, algalgures a meio de julho, em que Castelo Branco deixa de ser uma cidade e passa a ser um forno. O termómetro do carro marca 39 graus às quatro da tarde, o asfalto da Avenida Nuno Álvares treme, e até as cigarras parecem estar a queixar-se. É nesse momento exato que toda a gente na Beira Baixa tem o mesmo pensamento: tem de haver um sítio com água a correr e sombra a sério. Há. Fica a 1.000 quilómetros, no meio do Atlântico, e chama-se Madeira.
Este não é um guia romântico das levadas. É um guia honesto sobre fazer aquilo que toda a gente diz que se deve fazer (caminhar pelas levadas no verão) sem cair nas armadilhas óbvias: o calor onde menos se espera, o estacionamento que não existe, e os trilhos que ficam tão cheios que parecem a fila do talho ao sábado de manhã. Julho na Madeira é alto verão, e isso muda tudo.
Porque é que julho é, ao mesmo tempo, o melhor e o pior mês
O melhor: a probabilidade de chuva é baixa, os túneis das levadas não estão alagados, e as levadas de altitude, que no inverno ficam fechadas por nevoeiro e queda de pedras, estão geralmente abertas. O pior: é o pico da época, os parques de estacionamento dos trilhos famosos enchem antes das nove da manhã, e a parte sul da ilha pode estar tão quente como Castelo Branco. A diferença é que na Madeira sobe-se 800 metros de altitude em vinte minutos de carro e, de repente, está-se a 18 graus com nevoeiro a pingar das urzes.
A regra de ouro de julho cabe numa frase: comece cedo, suba alto, e fuja do litoral seco. Quem fizer isto vai ter uma das melhores caminhadas da sua vida. Quem chegar ao Rabaçal ao meio-dia de chinelo vai voltar arrependido.
Como sair de Castelo Branco (a parte chata mas necessária)
Castelo Branco não tem aeroporto, e não vale a pena fingir o contrário. A logística real é esta: apanha-se a Linha da Beira Baixa até Lisboa, ou faz-se a A23 e a A1 de carro até ao aeroporto Humberto Delgado, e dali voa-se para o Funchal. O voo demora cerca de hora e meia. Em julho, que é época alta, os preços dos voos disparam se deixar para a última hora, por isso reserve com semanas de antecedência e, se possível, voe a meio da semana.
Na Madeira, alugue carro. Não há discussão. Os transportes públicos chegam a Funchal e às vilas principais, mas as cabeceiras dos trilhos ficam em estradas de montanha que mais nenhum autocarro percorre com a frequência necessária. Um carro pequeno chega perfeitamente, mas escolha um com motor que aguente as subidas, porque as estradas da Madeira não conhecem o conceito de "plano".
Antes de partir, vale a pena passar a última noite em Castelo Branco perto da estação, para apanhar o comboio matinal sem stress. O Meliá Castelo Branco é a escolha óbvia para quem quer previsibilidade e um pequeno-almoço a horas, enquanto o Hotel Rainha D. Amélia, Arts & Leisure fica encostado ao centro histórico, o que é prático se quiser jantar fora a pé. E se a viagem for ao contrário, regresso da Madeira a meio da noite, beba a última cerveja gelada na esplanada do Repvblica antes de a cidade voltar a ferver no dia seguinte.
As levadas que valem mesmo a pena em julho
Há centenas de quilómetros de levadas na ilha. Não as faça todas. Faça estas três, bem feitas, e escolha uma quarta como prémio se as pernas aguentarem.
Levada das 25 Fontes e Levada do Risco (Rabaçal): a estrela, com asterisco
Esta é a caminhada que aparece em todos os postais: a queda de água das 25 Fontes a despejar-se sobre uma lagoa verde, no meio da floresta Laurissilva. É lindíssima. É também a mais movimentada da ilha. O percurso completo, a partir do parque do Rabaçal, anda à volta dos 11 quilómetros ida e volta, com um desnível inicial que se sente no regresso, sempre a subir.
O detalhe prático que mais gente ignora: a estrada de descida ao Rabaçal está fechada ao trânsito particular em época alta, e faz-se a descida num minibus de transporte que parte do parque lá em cima. Não é caro, mas confirme localmente o horário e o preço, porque mudam. A alternativa é descer a pé pela estrada, o que acrescenta uma boa hora em cada sentido debaixo de sol. Para julho, chegue ao parque antes das oito e meia. A sério. À uma da tarde já não há onde estacionar e o trilho parece uma autoestrada de gente.
Combine as 25 Fontes com a curta Levada do Risco, que arranca do mesmo ponto e leva a outra cascata em menos de meia hora. É a melhor relação esforço-recompensa da ilha inteira.
Levada do Caldeirão Verde (PR9): traga lanterna, a sério
Se só fizer uma levada "a sério", faça esta. Parte da Casa de Abrigo das Queimadas, em Santana, no norte da ilha, e segue por uma cornija esculpida na rocha através da floresta primária. São cerca de 13 quilómetros ida e volta, quase sem subidas, o que engana: a distância acumula-se e há vários túneis escavados na montanha, alguns com dezenas de metros, completamente às escuras e com pingueira constante.
Sem lanterna frontal, não passa. O telemóvel não chega, porque vai precisar das duas mãos para se equilibrar no estreito junto à parede. Leve calçado que possa molhar e um corta-vento, porque os túneis são frios mesmo em julho. No final, a recompensa é uma cascata de quase 100 metros a cair dentro de um anfiteatro de pedra verde. O norte da Madeira é mais húmido e fresco que o sul, por isso esta é precisamente a levada que se quer num dia de calor.
Levada do Rei (PR18): a alternativa para quem foge das multidões
Quando as 25 Fontes estiverem impossíveis, esta é a fuga inteligente. Parte da estação de tratamento de água de São Jorge e mergulha numa das zonas mais densas e bem preservadas de Laurissilva da ilha. São cerca de 10 quilómetros ida e volta, com um único túnel curto perto do fim e, no remate, a nascente do Ribeiro Bonito. É das levadas mais sombrias e frescas, e em julho costuma ter uma fração das pessoas que tem o Rabaçal. Se valoriza silêncio e o canto dos tentilhões mais do que a fotografia perfeita para as redes, é aqui que deve estar.
O que evitar em julho: Ponta de São Lourenço
Um aviso honesto. A Ponta de São Lourenço, a ponta leste da ilha, é espetacular, com falésias vermelhas e ocre a cair para o mar. Mas não é uma levada e não tem uma única árvore. É exposição total ao sol e ao vento. Fazê-la ao meio-dia de julho é receita para insolação. Se a quiser mesmo fazer, faça ao nascer do sol ou ao fim da tarde, com dois litros de água e protetor. Caso contrário, deixe-a para a primavera.
Regras honestas para sobreviver (e gostar) das levadas em julho
- Comece de madrugada. Não é exagero. Entre o calor e o estacionamento, a primeira hora do dia decide a qualidade de toda a caminhada.
- Água a mais, não a menos. No mínimo um litro e meio por pessoa, mesmo nas levadas frescas. A umidade da floresta engana e desidrata-se na mesma.
- Calçado fechado com boa sola. O piso das levadas é estreito, irregular e muitas vezes molhado. Chinelos são um convite ao acidente.
- Lanterna frontal para qualquer levada com túneis. Caldeirão Verde, Caldeirão do Inferno, Furado: nenhuma se faz com o telemóvel.
- Roupa às camadas. Pode sair do hotel com 25 graus e estar com 14 e nevoeiro à entrada do trilho. Um corta-vento fino salva o dia.
- Respeite o vazio do lado de fora. Muitas levadas têm o canal de um lado e uma queda a pique do outro, às vezes sem corrimão. Não é sítio para distrações.
Onde ficar na ilha, sem complicar
Para fazer as levadas do norte (Caldeirão Verde, Levada do Rei), faz sentido dormir uma ou duas noites em Santana ou São Vicente, em vez de atravessar a ilha de madrugada todos os dias. Para o Rabaçal e o sudoeste, Funchal ou a Calheta servem bem. Não fixe alojamento sem confirmar a distância real às cabeceiras dos trilhos, porque na Madeira 30 quilómetros podem ser uma hora de curvas.
E se o calor ganhar? Plano B no interior
Sejamos realistas: nem toda a gente vai conseguir a logística de voos e carro alugado em pleno julho. Se a Madeira ficar para outra altura, a Beira Baixa e o Centro têm trilhos com água que aguentam o verão, desde que se ande de manhã cedo. Já escrevemos sobre isto noutro contexto: o nosso guia honesto dos trilhos em Caldas da Rainha aplica a mesma filosofia de "comece cedo, leve água, ignore o hype".
E se o que procura é fugir do sol sem sair da cidade, Castelo Branco tem um trunfo que poucos turistas conhecem: o bordado. Uma manhã fechada num atelier com seda e linho é uma forma surpreendentemente boa de passar as horas de calor, e a história por trás dos símbolos vale a pena. A nossa experiência sobre o simbolismo do amor e da natureza no bordado de Castelo Branco mostra que nem todo o verão se faz ao ar livre, e que às vezes a melhor decisão é deixar o sol a queimar lá fora enquanto se aprende algo que dura.
O veredicto
As levadas da Madeira em julho cumprem a promessa, mas só para quem joga pelas regras da época: madrugar, subir, e procurar o norte húmido em vez do sul torrado. Faça as 25 Fontes para o postal, o Caldeirão Verde para a aventura, e a Levada do Rei para o silêncio. Leve lanterna, leve água, e leve a humildade de aceitar que o trilho fácil de outubro é outro trilho em julho. Depois, quando voltar a Castelo Branco e o termómetro voltar a marcar 39, vai perceber porque é que valeu cada quilómetro de comboio, cada voo e cada curva.