Meliá Castelo Branco
Castelo Branco
Três estrelas honestas na Rua dos Prazeres, a quinze minutos a pé da estação e a dez do Jardim do Paço. O Império do Rei não tem piscina nem concierge, tem cama feita, estacionamento próprio e uma conta que não faz mossa.
O Hotel Império do Rei não tenta ser o que não é. Fica na Rua dos Prazeres, 20, numa zona residencial tranquila a poucos minutos a pé do centro histórico de Castelo Branco, e essa é metade do seu argumento. A outra metade é o preço: na faixa €€, num mercado onde os hotéis novos da cidade já flertam com tarifas de Lisboa, este três estrelas continua a ser o sítio onde se dorme bem sem ter de justificar o gasto ao final do mês.
Entrei à espera de pouco e saí com a sensação de que esta é a categoria de alojamento que falta em metade do país: simples, funcional, limpo, com pessoal que cumprimenta pelo nome ao segundo dia. Não há concierge, não há piscina infinita, não há cocktail de boas-vindas. Há um quarto bem feito, uma cama que dorme, uma casa de banho que funciona, e uma localização que dispensa carro depois do check-in.
A Rua dos Prazeres está a sul da Avenida Nuno Álvares, a artéria principal de Castelo Branco. Quem chega de comboio à estação da CP faz o percurso a pé em cerca de quinze minutos, sempre em plano. De carro, vindo do IP2 ou da A23, segue-se para o centro e o hotel tem estacionamento próprio, o que numa cidade onde a sinalética é vingativa para forasteiros, vale ouro. O Jardim do Paço Episcopal, o ex-líbris da cidade, fica a dez minutos a pé. A Sé e a zona dos cafés do largo central, a oito.
O bairro em si não é pitoresco. É Castelo Branco verdadeira: prédios dos anos setenta, padarias de bairro, pastelarias com bolinhos de canela à montra e uma ou outra mercearia que ainda fia. Para mim, isso é uma vantagem. Quem fica aqui acorda na cidade onde as pessoas vivem, e não no cenário higienizado de um centro turístico.
Os quartos são modestos no melhor sentido da palavra. Mobília sem pretensões, colchões que cumprem, roupa de cama branca trocada com regularidade. As janelas isolam razoavelmente o ruído da rua, mas se for sensível ao som, peça quarto interior na reserva. O pequeno-almoço, servido em buffet no piso de baixo, é o típico hotel português de cidade: pão fresco, queijo da Beira, fiambre, fruta da época, ovos mexidos quando há quem peça. Não é um banquete, é gasolina para o dia. Para um pequeno-almoço com mais ambição, atravesse para o centro e procure uma pastelaria de rua.
O Wi-Fi funciona, a televisão tem canais a mais, o ar condicionado faz o que tem a fazer no Verão de Castelo Branco, que não brinca em serviço, com tardes acima dos 38 graus em Julho e Agosto. No Inverno o aquecimento liga cedo e bem.
Este é o hotel certo para quem vem trabalhar à cidade, para quem está de passagem na A23 entre Lisboa e a Guarda, para quem faz uma escapadinha de fim de semana com orçamento curto e quer gastar o dinheiro à mesa, e para famílias que precisam de simplicidade. É também a base ideal para quem usa Castelo Branco como ponto de partida para o resto da Beira Baixa: Monsanto, Idanha-a-Velha, a Serra da Gardunha, o Geopark Naturtejo.
Não é o sítio para uma lua de mel, nem para um aniversário em que se quer impressionar alguém. Para isso, prefira o Meliá Castelo Branco, mais novo e com piscina, ou o Hotel Rainha D. Amélia, Arts & Leisure, com vista privilegiada sobre o jardim. O Império do Rei joga noutra liga, e joga-a bem.
Saia do hotel à esquerda, cruze a Avenida e em dez minutos está nos degraus do Jardim do Paço Episcopal e do centro histórico de Castelo Branco, com os seus reis de pedra esculpidos nas escadarias barrocas. Para perceber a cozinha local, sobretudo as tigeladas e o queijo DOP da Beira Baixa, leia o nosso guia da gastronomia conventual da região antes de escolher onde jantar. À noite, o sítio com mais vida na cidade é o Repvblica, uma esplanada do Largo da Sé que junta jovens, cervejas frescas e tábuas até tarde.
Se vem em Maio ou Junho, vale a pena calhar com o Festival Sabores de Perdição 2026, dedicado à doçaria e produtos regionais, ou com o Festival Raiz d'Aldeia 2026 em Castelo Novo, a meia hora de carro. Ambos justificam por si só uma noite extra no Império do Rei.
Não saio daqui a falar de uma experiência transformadora, e ainda bem. Saio com a conta paga sem dor, o carro arrumado em segurança, dois cafés a abrir e uma boa noite de sono atrás. Em 2026, com tudo a subir e os hotéis a tentarem ser experiências, encontrar um sítio que se contenta em ser um bom hotel é quase um acto subversivo. Reserve sem expectativas e saia satisfeito. É essa a graça.