Aveiro Além do Canal: As Fachadas de Azulejo Esquecidas
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Aveiro Além do Canal: As Fachadas de Azulejo Esquecidas

· · Aveiro

A estação de Aveiro está coberta de painéis de azulejo da Fábrica da Fonte Nova e quase toda a gente passa por eles sem olhar. Entre a Misericórdia forrada de azul e as ruas de padrão do Beira Mar, o melhor da cidade não está virado para o canal: está pregado às paredes.

Às dez da manhã, o cais junto à Praça do Peixe enche-se de telemóveis apontados aos moliceiros. É justo: os barcos são bonitos, os painéis pintados na proa vão do folclórico ao atrevido, e o passeio de canal custa qualquer coisa entre 10 e 15 euros, confirme no cais porque os preços variam com a época. Mas Aveiro tem um espetáculo maior, gratuito e permanente, e a maioria dos visitantes passa-lhe ao lado a caminho da bilheteira. Está pregado às paredes. Esta é a cidade que viveu da cerâmica industrial no século XIX e início do XX, e que se forrou a si própria de azulejo. As melhores fachadas não estão viradas para o canal central. Estão nas ruas de trás, na estação, no bairro dos pescadores. Este guia é para quem está disposto a andar de queixo levantado.

Comece na estação, como toda a gente devia

A ironia é esta: o primeiro grande momento de azulejo de Aveiro é a própria porta de entrada, e quase toda a gente sai do comboio e segue direita ao centro sem olhar para trás. O edifício antigo da estação, preservado ao lado do moderno, está coberto de painéis de azulejo do início do século XX, saídos da Fábrica da Fonte Nova, a fábrica aveirense que marcou a cerâmica da cidade. Os painéis são um catálogo da região tal como ela se via a si própria há cem anos: moliceiros na ria, salineiros nas marinhas, trajes e cenas de trabalho. É um museu ao ar livre sem bilhete nem fila. Reserve dez minutos à chegada ou à partida, de preferência de manhã, quando a luz bate de frente e o azul ganha profundidade. Se vier do Porto, o comboio urbano desde Campanhã demora cerca de uma hora e custa poucos euros; de Lisboa, o Intercidades faz a viagem em pouco mais de duas horas. Confirme horários na CP, mas a lição é simples: Aveiro dispensa carro.

Praça da República: azulejo ao alto

Da estação ao centro histórico são uns quinze minutos a pé, quase sempre em terreno plano, o que faz de Aveiro uma das cidades mais fáceis de percorrer em Portugal. Na Praça da República, ao lado dos Paços do Concelho, está a Igreja da Misericórdia, e é aqui que percebe que em Aveiro o azulejo não é decoração de interior: é pele de edifício. A fachada está forrada de azulejo do chão ao topo, emoldurando o portal de pedra. A maior parte das pessoas fotografa a praça e segue caminho. Fique mais um pouco. Atravesse para o lado oposto da praça e olhe a fachada como um todo, depois aproxime-se e veja o padrão ao pormenor. É o mesmo exercício que vai repetir o dia inteiro: longe para o efeito, perto para o desenho.

Beira Mar: o bairro que é um mostruário involuntário

O verdadeiro tesouro está do outro lado do canal central, no Beira Mar, o antigo bairro dos pescadores e salineiros. Entre a Praça do Peixe e o Canal de São Roque, as ruas estreitas estão cheias de casas baixas forradas de azulejo de padrão do século XIX e início do XX: verdes, azuis, amarelos, geometrias que se repetem de porta em porta mas nunca da mesma maneira. Estas fachadas não foram feitas para turistas. O azulejo era prático: protegia da humidade da ria e da maresia, e era mais barato de manter do que reboco pintado. O resultado, um século depois, é um bairro inteiro que funciona como mostruário de cerâmica portuguesa sem uma única placa explicativa.

Percorra as ruas sem mapa e sem pressa. Vai dar com a Capela de São Gonçalinho, o coração do bairro. Se estiver em Aveiro no início de janeiro, apanha a festa do santo, em que se atiram cavacas do telhado da capela para a multidão que as tenta apanhar com redes, chapéus de chuva invertidos e o que houver à mão. É uma das festas mais genuinamente estranhas e queridas do país. No resto do ano, a capela e o largo valem a visita pela escala: tudo pequeno, tudo à medida de quem ali vivia.

Se preferir contexto em vez de deambulação, o walking tour pela Arte Nova e pelo Beira Mar cobre exatamente este território com alguém que sabe distinguir um azulejo de fábrica local de uma reprodução recente, e isso muda a forma como se olha para o resto da cidade.

Arte Nova: quando o azulejo quis ser moderno

Aveiro tem outra camada de cerâmica, esta com pedigree de museu: a Arte Nova. No início do século XX, a burguesia local, enriquecida e viajada, encomendou casas com fachadas curvilíneas, ferro forjado e azulejo desenhado de propósito, com motivos florais e animais em vez dos padrões repetitivos das casas de pescadores. O exemplar mais famoso é a Casa Major Pessoa, na Rua Dr. Barbosa de Magalhães, hoje Museu Arte Nova, com casa de chá no piso térreo. Mas o interessante é que a Arte Nova aveirense não está fechada num museu: está espalhada por fachadas em redor do Rossio e do canal, muitas delas ainda habitação ou comércio normal. A regra prática: sempre que vir ferro forjado a fazer curvas, levante os olhos, porque o azulejo especial costuma estar no friso superior, onde ninguém olha.

Onde dormir para fazer tudo a pé

A escolha do alojamento em Aveiro é sobretudo uma escolha de geografia, e a boa notícia é que as distâncias são curtas. A Welcome In Aveiro é a opção sólida para quem quer base central sem complicações. Quem preferir acordar ao lado do canal e do jardim do Rossio, com a Arte Nova à porta, tem o Aveiro Rossio Bed & Breakfast, que põe as fachadas mais fotogénicas da cidade a dois minutos a pé. E para quem leu a secção anterior e percebeu que o Beira Mar é o prato principal, o Cais do Pescador coloca-o dentro do próprio bairro, o que significa ter as ruas de azulejo só para si às oito da manhã, antes de os grupos chegarem. E é exatamente a essa hora que elas devem ser vistas.

Comer entre fachadas

Não se sai de Aveiro sem ovos moles, e não vale a pena fingir o contrário. São o primeiro doce português com Indicação Geográfica Protegida: gema e açúcar dentro de hóstia em forma de conchas, búzios e peixes, uma referência direta à ria. A Confeitaria Peixinho, fundada em 1856 na Rua de Coimbra, é a casa histórica e continua a ser a resposta certa à pergunta. Compre poucos e coma-os no dia, porque frescos são outra coisa. A alternativa de rua é a tripa, um crepe grosso dobrado e recheado ali mesmo, que se come quente a caminhar; a versão com ovos moles é a que faz sentido em Aveiro. À noite, a zona da Praça do Peixe transforma-se no centro social do bairro, com esplanadas e bares nos edifícios azulejados. Vá pelo menos uma vez, nem que seja para ver as fachadas iluminadas.

Quando os azulejos acabarem: sal, faróis e ondas

A caminho da saída da ria, ao longo do Canal das Pirâmides, passa pelas marinhas de sal, incluindo a Marinha da Troncalhada, uma salina tradicional transformada em ecomuseu que se vê bem do passeio; para visitas guiadas, confirme localmente. Depois, apanhe o autocarro para a Barra, onde está o farol mais alto de Portugal, e onde o Atlântico faz esquecer a mansidão da ria. Se a viagem tiver mais um dia, as aulas de surf na Praia da Barra são a forma mais honesta de conhecer aquela costa, com ondas de escola e areal largo. E logo a seguir fica a Costa Nova, com os palheiros às riscas que são, no fundo, a resposta de madeira à mesma lógica do azulejo: pintar a casa para a defender do mar e, já agora, para a distinguir da do vizinho.

Notas práticas para não estragar o dia

  • Chegue de comboio e comece pelos painéis da estação antiga, antes de pousar as malas.
  • Manhã cedo é a melhor hora no Beira Mar: luz boa, ruas vazias, azulejo sem gente à frente.
  • A cidade é plana e pequena; tudo o que está neste guia se faz a pé, exceto a Barra e a Costa Nova, servidas por autocarro.
  • O passeio de moliceiro vale a pena uma vez, mas faça-o depois de conhecer as fachadas: vai perceber as referências pintadas nos barcos.
  • Início de janeiro traz a festa de São Gonçalinho; verão traz multidões ao canal, mas o Beira Mar de manhã continua sossegado.
  • Preços de passeios e visitas mudam com a época: confirme localmente antes de planear ao minuto.

Aveiro é vendida como a Veneza portuguesa, um rótulo preguiçoso que reduz a cidade a três canais e uma fila para o barco. A comparação certa é outra: Aveiro é uma cidade que trabalhou a cerâmica até ela lhe cobrir as paredes, e que deixou essa herança à vista de quem quiser levantar a cabeça. O canal é o postal. As fachadas são a cidade.

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