Aveiro Fora da Ria: O Lado Que Ninguém Visita
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Aveiro Fora da Ria: O Lado Que Ninguém Visita

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Toda a gente conhece os moliceiros e os ovos moles. Mas o Aveiro que vale a pena fica do outro lado do canal: o bairro da Beira Mar, as salinas activas, o mercado de peixe real e a reserva natural de São Jacinto. Dois dias mudam tudo.

Vamos ser honestos: a maioria das pessoas que visita Aveiro faz exactamente o mesmo roteiro. Moliceiro, ovos moles, uma selfie no Bairro da Costa Nova, almoço qualquer e de volta ao carro. Não é que esteja mal. Os moliceiros são bonitos, os ovos moles são bons, e a Costa Nova é genuinamente fotogénica. Mas se a sua visita a Aveiro se resume a isto, está a ver apenas o cartão-postal de uma cidade que tem muito mais para contar.

Eu passei a cometer o mesmo erro durante anos. Aveiro era uma paragem de duas horas a caminho do Porto ou de Coimbra. Até que um amigo aveirense me levou a sério pela cidade, começando pela zona que fica do outro lado do canal central. E percebi que o Aveiro que eu conhecia era, na verdade, um terço de Aveiro.

O Bairro da Beira Mar: onde a cidade respira

Toda a gente passa pelo Bairro da Beira Mar a caminho de algum lado. Poucos param. E é exactamente isso que o torna tão bom. Este antigo bairro de pescadores, espremido entre o Canal de São Roque e as salinas, tem uma atmosfera completamente diferente do centro turístico. As casas são mais baixas, mais coloridas, e muitas ainda têm redes de pesca a secar nos quintais.

É aqui que a Arte Nova de Aveiro se revela de forma mais inesperada. Não nos edifícios-museu do centro, mas nas fachadas residenciais, nos azulejos de casas que ainda são habitadas. Uma visita guiada a pé pela Arte Nova e pelo Beira Mar é, provavelmente, a melhor forma de descobrir estes detalhes, porque sozinho vai passar ao lado de metade deles. Os guias locais conhecem cada fachada, cada história, cada pormenor decorativo que passa despercebido ao visitante apressado.

Mas se preferir andar sozinho, vá de manhã cedo. Às 8h da manhã, a Rua João Mendonça tem meia dúzia de pessoas a tomar café ao balcão. O cheiro a pão quente mistura-se com o ar salgado que vem da ria. Nessa hora, o bairro é dos moradores.

As salinas: o espectáculo que ninguém vê

As salinas de Aveiro são um dos grandes absurdos do turismo português. Estão ali, no meio da cidade, e a maioria dos visitantes passa de moliceiro ao lado delas sem sequer perceber o que são. Entre Junho e Setembro, quando a produção de sal está activa, o cenário é extraordinário: montes brancos de flor de sal contra a água rosada dos tanques, com os salineiros a trabalhar de madrugada para evitar o calor.

O sal de Aveiro é sério. A flor de sal daqui compete com a de Guérande, em França, e custa uma fracção do preço. Compre directamente nos armazéns junto às salinas, não nas lojas de souvenirs do centro. A diferença de preço é significativa, e o produto é o mesmo.

Se tiver sorte, apanha um dos salineiros dispostos a explicar o processo. É trabalho duro, dependente do clima, e com margens cada vez mais apertadas. Estas salinas existem desde antes da nacionalidade portuguesa, e a sua sobrevivência não é garantida.

O Mercado do Peixe e o almoço que vale a viagem

O Mercado do Peixe de Aveiro não é um mercado turístico. Não tem food court, não tem cerveja artesanal, não tem decoração instagramável. Tem bancas de peixe fresco, vendedoras que gritam preços, e um chão permanentemente molhado. É um mercado de verdade. Vá de manhã, antes das 11h, quando o peixe do dia está a chegar.

A zona à volta do mercado é onde os aveirenses almoçam. Esqueça os restaurantes junto ao canal central, onde os menus em três línguas são o primeiro sinal de alerta. Aqui, os menus do dia custam menos, as doses são maiores, e o peixe é mais fresco. Procure caldeirada ou enguias fritas. As enguias da ria de Aveiro são um produto singular: mais gordas, mais saborosas que as de qualquer outro lado. Se o restaurante tem enguias no menu, é quase sempre boa ideia pedir.

A Praia da Barra: mais do que o farol

Toda a gente conhece o Farol da Barra, o mais alto de Portugal continental. Menos gente sabe que a Praia da Barra é um dos melhores spots de surf entre Lisboa e o Porto. A consistência das ondas é notável, e a praia é larga o suficiente para nunca se sentir sobrelotada, mesmo em Agosto.

Se nunca fez surf, Aveiro é um sítio excelente para começar. As aulas de surf na Praia da Barra têm condições ideais para iniciantes: ondas regulares mas não intimidantes, água que no Verão é suportável (estamos em Portugal, convém ser realista), e instrutores habituados a ensinar do zero.

O autocarro de Aveiro até à Barra demora cerca de 30 minutos e é barato. No Verão, a frequência aumenta. De carro, são 10 minutos. Não há desculpa para não ir.

O outro lado: São Jacinto e a reserva natural

E depois há São Jacinto. Para chegar lá, apanha-se um ferry na Forte da Barra, uma travessia curta que muda tudo. São Jacinto é uma península entre a ria e o oceano, com uma reserva natural que é um dos segredos mais bem guardados da região Centro.

A Reserva Natural das Dunas de São Jacinto é um passeio de duas a três horas por passadiços de madeira entre dunas, pinheiros e uma biodiversidade surpreendente. É o oposto total do centro de Aveiro: silêncio, natureza, e a sensação de estar num lugar que o turismo de massas ainda não descobriu. Leve água, protector solar, e binóculos se gostar de observar aves.

O ferry tem horários limitados, confirme localmente antes de ir. E não há restaurantes de referência em São Jacinto, por isso almoce em Aveiro antes ou depois.

Onde ficar para ver este Aveiro

A localização faz toda a diferença. Se ficar no centro turístico, vai gravitar naturalmente para as mesmas ruas e os mesmos restaurantes. A minha sugestão é ficar perto do Canal de São Roque ou do Bairro da Beira Mar.

O Cais do Pescador é exactamente isso: alojamento junto ao antigo cais, com a ria à porta. É o tipo de sítio onde acorda com o som da água e sai directamente para o bairro, sem ter de atravessar a zona turística. Para quem prefere algo mais central mas com personalidade, o Aveiro Rossio Bed & Breakfast fica junto à Praça do Rossio, que é o verdadeiro coração da cidade, não o canal dos moliceiros.

O contexto regional

Aveiro faz muito mais sentido quando integrada numa viagem pela região Centro. Se está a planear uma semana no coração do país, Aveiro merece dois dias, não duas horas. Combine com Coimbra, onde a arte urbana está a transformar a Alta, e tem um roteiro pela região Centro que vai muito além dos lugares comuns.

A verdade é que Aveiro sofre do mesmo problema de muitas cidades portuguesas de média dimensão: é reduzida a um ou dois clichés, visitada superficialmente, e descartada. Os moliceiros e os ovos moles são o cartão de visita, mas o que está por trás vale muito mais. As salinas, o bairro dos pescadores, o mercado, a reserva de São Jacinto, o surf na Barra. Aveiro é uma cidade de água, e a água tem muitos lados.

Vá com tempo. Fique pelo menos uma noite. E se possível, esqueça o moliceiro. Ou pelo menos, deixe-o para o fim.

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