O Outro Lado de Ribeira Grande: Para Lá de Ponta Delgada
A segunda cidade de São Miguel tem o melhor barroco dos Açores e quase nenhuma fila. Da Ponte dos Oito Arcos às águas quentes da Caldeira Velha e à areia negra de Santa Bárbara, eis o lado de Ribeira Grande que os autocarros turísticos ignoram.
Quase ninguém para em Ribeira Grande. O autocarro do aeroporto despeja os visitantes em Ponta Delgada, eles fotografam as Portas da Cidade, fazem a peregrinação obrigatória às Sete Cidades e à Lagoa do Fogo, e voltam para o hotel. Ribeira Grande, a segunda maior cidade de São Miguel, fica a vinte minutos de carro pela costa norte e existe, na cabeça da maioria, apenas como um nome num cartaz de direções. Que erro.
Vou ser direto: Ribeira Grande tem o melhor conjunto de arquitetura barroca dos Açores e quase nenhuma fila. Enquanto meio mundo se acotovela nas escadarias de Ponta Delgada, aqui dá para ter uma igreja inteira só para si às dez da manhã de uma terça-feira. Esta cidade não foi feita para o turista de cruzeiro, e é precisamente por isso que vale a pena.
Comece pela água que parte a cidade ao meio
O nome não engana: há mesmo uma ribeira grande. A linha de água desce da serra e corta a vila em dois, atravessada pela Ponte dos Oito Arcos, uma ponte de pedra negra vulcânica do século XVIII que é o postal não oficial da cidade. Vá ao fim da tarde, quando a luz baixa bate na pedra escura e nas casas caiadas da margem. É de borla, é o melhor sítio para perceber a escala da terra, e raramente há mais do que uma ou duas pessoas a fazer o mesmo.
A poucos passos fica o Jardim Municipal de Ribeira Grande, um jardim oitocentista com um coreto, hortênsias em força no verão e árvores grandes que dão sombra a sério. Não é um jardim de revista, é um jardim de cidade, daqueles onde os reformados jogam às cartas e os miúdos correm atrás de pombos. Sente-se num banco, deixe passar meia hora. É de graça e ensina mais sobre a vida local do que qualquer atração paga.
O barroco que ninguém vem ver
Suba até à Igreja de Nossa Senhora da Estrela, no topo da escadaria. A fachada é exuberante, o interior tem talha dourada e azulejos, e o terraço à frente oferece uma vista limpa sobre os telhados vermelhos até ao Atlântico. Repare nos detalhes da pedra trabalhada: o basalto negro contrasta com o branco da cal num jogo que se repete por toda a cidade e que é a verdadeira assinatura arquitetónica daqui.
Desça depois pela Rua de São Vicente e pela zona da antiga câmara. O Theatro Ribeiragrandense, um pequeno teatro do início do século XX, vale o desvio só pela fachada. Esta é uma cidade para andar a pé sem mapa, virando esquinas ao acaso. Em meia tarde percorre o centro histórico todo, e garanto que não vai apanhar trânsito de tripés.
Onde comer sem armadilhas
Aqui é que muita gente falha. Em Ponta Delgada há restaurantes turísticos a mais; em Ribeira Grande come-se comida de casa. A minha recomendação é A Merenda, uma mesa honesta onde o peixe depende do que entrou de barco e a sopa muda conforme o dia. Não espere espuma de nada nem pratos a brincar aos michelin. Espere porções generosas, atendimento sem pressa e a sensação de estar a comer onde os locais comem ao almoço.
Se for fanático da gastronomia açoriana, vale a pena perceber o contexto maior da ilha. O cozido das Furnas, cozinhado no calor vulcânico do solo, é o prato-bandeira de São Miguel, e há toda uma cultura de comida de raiz vulcânica que se estende por toda a parte. Para um mergulho mais fundo nessa lógica, leia a nossa expedição gastronómica por Ponta Delgada antes de planear as refeições. Comer nos Açores é entender a geologia ao prato.
O chá mais antigo da Europa fica aqui ao lado
Eis um facto que faz tremer os ingleses: o único chá cultivado comercialmente na Europa cresce na costa norte de São Miguel, e a fábrica da Gorreana, perto de Ribeira Grande, trabalha sem interrupção desde 1883. As máquinas são vitorianas, a entrada é gratuita, e pode percorrer as plantações que descem em socalcos até ao mar. A vizinha Porto Formoso completa o quadro. É um daqueles sítios em que se prova chá verde e preto feito a cem metros de onde se está sentado.
Vá de manhã, leve sapatos confortáveis para os carreiros entre as fileiras de Camellia sinensis, e reserve tempo para se perder nos socalcos. Organizámos tudo o que precisa de saber nesta imersão nas plantações da Gorreana e Porto Formoso, com o detalhe que falta nos folhetos. É a paragem que justifica, por si só, vir até este lado da ilha.
A piscina termal que os pacotes turísticos não conseguem encher
Toda a gente conhece as Furnas. Quase ninguém conhece a Caldeira Velha, e essa é exatamente a vantagem. O Centro de Interpretação Ambiental da Caldeira Velha fica na encosta do Pico da Barrosa, no caminho para a Lagoa do Fogo, e protege um conjunto de poças de água quente geotérmica e uma cascata no meio de fetos gigantes que parecem saídos do Jurássico. A entrada é controlada por horários e capacidade, precisamente para não ser a sopa humana das Furnas. Confirme horários e bilhetes localmente antes de subir, porque há limite de pessoas.
Leve toalha, chinelos e roupa de banho velha, porque a água tem ferro e mancha. Vá logo à abertura ou ao fim do dia para fugir aos autocarros. A combinação de água a fumegar, vegetação densa e o silêncio só quebrado pela cascata é a melhor coisa que se faz em São Miguel sem ter de conduzir uma hora.
Na própria cidade, há ainda as Termas das Caldeiras da Ribeira Grande, um pequeno complexo termal histórico alimentado por nascentes quentes, no sopé da serra. É de outra escala, mais íntimo e menos espetacular do que a Caldeira Velha, mas é precisamente aí que está a graça. Para quem quer perceber a ligação dos açorianos à água quente, este é o sítio onde essa relação acontece à porta de casa, sem encenação.
Areia preta e ondas: a outra praia
A poucos minutos do centro está a praia de Santa Bárbara, uma extensão de areia negra vulcânica que é o melhor spot de surf da ilha. Não é a praia de toalha e guarda-sol; o Atlântico aqui não brinca, há correntes, e a maioria dos visitantes nem sabe que existe. Mas para quem leva uma prancha, ou quer uma aula, é o sítio. A magia está em apanhar a primeira sessão antes do nascer do sol, com a areia escura ainda fria e o mar só para os locais.
Se nunca surfou, não há melhor introdução do que esta sessão ao nascer do sol no areal negro de Santa Bárbara, com instrutores que conhecem cada banco de areia. Mesmo que não entre na água, vá ver o mar partir contra a areia preta de manhã cedo. É de borla e é inesquecível.
Como chegar e quando ir
De Ponta Delgada, são cerca de vinte minutos de carro pela via rápida ou pela estrada da costa, que é mais bonita e demora o dobro, e vale a pena. Há autocarros públicos que ligam as duas cidades, mas em São Miguel a liberdade é o carro alugado: as plantações de chá, a Caldeira Velha e Santa Bárbara estão todas a curta distância e não dá para encadeá-las de transportes públicos sem perder o dia.
Quanto à época: maio, junho e setembro são o ponto ideal. As hortênsias estão em flor, o mar ainda dá para o surf, e não há a multidão de agosto. O tempo nos Açores muda de hora a hora, por isso leve sempre um corta-vento, mesmo que de manhã esteja sol. Não é cliché, é meteorologia atlântica.
Um conselho final: não tente fazer Ribeira Grande como paragem de uma hora a caminho de outra coisa. Dê-lhe uma manhã inteira, com almoço incluído, e termine na água quente da Caldeira Velha ou nas ondas de Santa Bárbara. E se ainda lhe sobrar fôlego para conhecer outra ilha do arquipélago, a vizinha Faial oferece um contraste fascinante: leia o nosso guia de 24 horas em Horta e o roteiro dos melhores rooftops e panorâmicas da Horta para perceber o quão diferentes podem ser duas ilhas a poucos quilómetros de distância. Ribeira Grande é o lado de São Miguel que pede calma. Dê-lhe essa calma e ela retribui.