Onde se Come em Ribeira Grande: O Guia Sem Turistas
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Onde se Come em Ribeira Grande: O Guia Sem Turistas

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Em Ribeira Grande come-se como há trinta anos: queijadas da Vila ao pequeno-almoço, alcatra e lapas ao almoço, chá da única plantação da Europa à tarde. Um roteiro sem menus turísticos, com o que pedir e o que ignorar.

Ribeira Grande não tem a azáfama de Ponta Delgada nem a pose cosmopolita da Horta. É a segunda maior cidade dos Açores e mesmo assim funciona à escala de uma vila: às oito da manhã, na zona velha junto à ponte de oito arcos, o cheiro a pão acabado de cozer chega antes de se ver qualquer padaria aberta. É exatamente por isto que se come bem aqui. Não há cartas em quatro línguas, não há menus turísticos com fotografias plastificadas. Há comida que as pessoas comem porque sempre comeram, e isso, na ilha de São Miguel, é meio caminho andado para uma refeição memorável.

Este guia não é uma lista de restaurantes com estrelas. É um roteiro de como comer como quem vive na cidade, das malassadas da manhã ao último copo de vinho de cheiro à noite. E sim, vou dizer-lhe o que pedir e o que ignorar.

Comece com açúcar: a manhã faz-se na pastelaria

O micaelense leva o pequeno-almoço a sério, e em Ribeira Grande isso significa massa frita. A queijada da Vila é a especialidade local: pequena, com gema e canela, completamente diferente das queijadas que encontra no continente. Não confunda com a Queijada da Graciosa nem com as do Morgado, são outra coisa. Peça duas, porque uma nunca chega, e acompanhe com um galão. Vai pagar cêntimos por isto comparado com qualquer pastelaria de Lisboa.

Se for fim de semana, procure as malassadas, sobretudo na época do Carnaval e do Espírito Santo, quando aparecem por toda a parte. São o equivalente açoriano ao sonho, fritas e polvilhadas com açúcar, e devem comer-se quentes, de pé, sem cerimónia.

Depois do açúcar, ande. A zona histórica pede-se a pé: o Jardim Municipal de Ribeira Grande, com os seus canteiros desenhados e a vista para a igreja, é o sítio certo para deixar o galão assentar antes de começar a pensar no almoço. Sente-se num banco, veja a cidade acordar, e resista à tentação de planear demasiado. As melhores refeições aqui não se planeiam.

O almoço a sério: onde a cidade come de garfo na mão

Aqui está a minha recomendação central, e não a faço de ânimo leve: A Merenda é onde deve almoçar. É comida açoriana honesta, daquela que não tenta impressionar ninguém e por isso impressiona toda a gente. Vá com fome, vá com tempo, e não conte calorias.

O que pedir? Se a alcatra estiver na ementa, peça-a. É o prato-rei da ilha Terceira mas espalhou-se por todo o arquipélago: carne de vaca cozida lentamente num assadeira de barro, com vinho, pimenta-da-jamaica e cebola, até desfazer-se. Em São Miguel encontra também o cozido das Furnas, cozinhado debaixo da terra pelo calor vulcânico, mas esse é um peregrinação à parte e não se faz à pressa num almoço de semana.

Para peixe, confie no que estiver fresco do dia. O chicharro frito, o bife de atum com molho de cebola, a lapas grelhadas com alho e manteiga, tudo isto é território seguro. As lapas, sobretudo, são a entrada que define os Açores: pequenos moluscos colhidos nas rochas, grelhados na própria concha, regados com limão. Peça uma dose para partilhar antes do prato principal.

Acompanhe com vinho de cheiro, o tinto rústico e ligeiramente avinagrado que os micaelenses fazem das uvas isabela e que dá choque a quem não está habituado. Não é um grande vinho no sentido técnico. É um vinho de mesa, de história, e bebe-se aqui porque é daqui. Se preferir algo mais convencional, peça um Terras de Lava ou um vinho dos Biscoitos da Terceira.

Quanto custa e quando ir

  • Um almoço completo com entrada, prato e vinho da casa raramente passa dos preços de uma tasca do continente. Confirme localmente, mas conte com uma refeição farta sem partir o porquinho.
  • Vá ao almoço, entre as 12h30 e as 14h, quando a cozinha está no auge e a sala cheia de gente da zona.
  • Ao domingo, muitas famílias saem a almoçar fora, por isso reserve ou chegue cedo.

A tarde sabe a chá: a única plantação da Europa fica aqui ao lado

Depois do almoço, faça o que faz qualquer micaelense que se preze: deixe a comida assentar a caminho do chá. A poucos quilómetros de Ribeira Grande, na costa norte, estão as plantações que produzem o único chá cultivado comercialmente na Europa. Vale a visita às plantações da Gorreana e de Porto Formoso, não só pela paisagem de socalcos verdes que desce até ao mar, mas porque a entrada na Gorreana é gratuita e pode provar o chá preto e verde acabado de produzir, ainda quente, sem pagar um cêntimo.

Um chá preto orange pekoe com uma fatia de bolo é o intervalo perfeito antes da segunda parte do dia. É também a deixa para perceber uma coisa sobre a comida açoriana: muito do que se come aqui vem da terra ou do mar a poucos quilómetros, e essa proximidade é o segredo todo. Não há pose de quilómetro zero, simplesmente é assim que sempre foi.

Calor vulcânico e fome aberta

Se quer trabalhar o apetite para o jantar, suba à serra. O Centro de Interpretação Ambiental da Caldeira Velha guarda uma das melhores piscinas termais naturais da ilha: uma cascata de água quente que cai numa lagoa fumegante no meio da floresta de fetos. Leve fato de banho, chegue cedo para evitar as multidões dos autocarros, e prepare-se para sair com fome de lobo. A água ronda os trinta e tal graus e o vapor sobe por entre a vegetação como se a montanha estivesse a respirar.

Mais perto do centro, as Termas das Caldeiras da Ribeira Grande oferecem outra versão do mesmo prazer geotérmico, com nascentes de água ferruginosa mesmo às portas da cidade. É a prova de que em São Miguel o vulcão não está só na paisagem: está na comida cozida no chão, na água que aquece o corpo, e até no sabor mineral de algumas águas que se bebem por aqui.

Para os madrugadores: surf e pequeno-almoço com sal

Há uma escola de comer que começa antes de o resto da cidade acordar. Santa Bárbara, a poucos minutos de carro, tem a melhor praia de surf da costa norte, de areia preta vulcânica. Uma sessão de surf ao nascer do sol no areal negro abre o apetite como nenhuma outra coisa, e ao sair da água, com sal na pele, qualquer queijada da Vila sabe ao dobro. Mesmo que não saiba surfar, vá ver o nascer do sol bater nas ondas: é gratuito e não há melhor aperitivo.

O jantar e o resto do arquipélago

Ao jantar, Ribeira Grande acalma. A cidade não é Ponta Delgada e não finge ser. Para uma refeição mais elaborada, muitos micaelenses descem até à capital, a vinte minutos de carro, onde a oferta é maior. Se está a montar um roteiro gastronómico de ilha, vale a pena ler sobre a expedição gastronómica por Ponta Delgada para perceber onde a cozinha açoriana se torna mais ambiciosa, do cozido das Furnas aos restaurantes de marisco junto à marina.

Mas o meu conselho é ficar. Jante simples: um caldo de couves, um bife à regional com ovo a cavalo e batata frita, uma sobremesa de ananás dos Açores, fruta estufada numa única ilha do mundo a cultivá-la desta maneira. Acabe com uma aguardente ou um copo de licor de maracujá, e dê o dia por bem comido.

Se a viagem o levar a outras ilhas, a lógica muda mas a filosofia mantém-se. Na ilha do Faial, a cidade da Horta tem uma vida cosmopolita feita de veleiros e velejadores do mundo inteiro: vale a pena saber como aproveitar Horta em 24 horas e onde encontrar os melhores rooftops e panorâmicas da cidade, incluindo o lendário Peter Café Sport, paragem obrigatória de quem cruza o Atlântico a vela. Mas isso é outra viagem. Para já, fique em Ribeira Grande, peça mais uma dose de lapas, e deixe a cidade ensinar-lhe o ritmo certo.

O essencial em três linhas

  • Manhã: queijada da Vila e galão numa pastelaria da zona velha, passeio pelo jardim municipal.
  • Almoço: A Merenda, peça alcatra ou peixe do dia, lapas para partilhar, vinho de cheiro para a coragem.
  • Tarde e noite: chá na Gorreana, banho quente na Caldeira Velha, jantar simples na cidade.

Ribeira Grande não vai aparecer em listas de cidades gastronómicas a visitar antes de morrer. Ainda bem. É precisamente por isso que ainda se come aqui aquilo que se comia há trinta anos, ao mesmo preço justo, na mesma sala onde a cozinheira sabe o seu nome ao segundo dia. Venha com fome e sem pressa. A ilha trata do resto.

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