Levadas em Agosto: 7 Caminhadas a Partir do Funchal
Enquanto o Funchal marca 26 graus na Avenida do Mar, no Parque das Queimadas estão 16 e a laurissilva pinga água fresca. Do Caldeirão Verde à Levada dos Tornos, sete caminhadas para agosto, com horários espertos, a taxa dos 3 euros e onde jantar depois.
Em agosto, o Funchal vive em dois climas ao mesmo tempo. Cá em baixo, na Avenida do Mar, o termómetro passa dos 26 graus, os navios de cruzeiro despejam gente para a Zona Velha e a única prioridade sensata parece ser uma poncha gelada. Mas a 900 metros de altitude, no Parque das Queimadas, a temperatura ronda os 16 graus, cheira a musgo molhado e o único ruído constante é o da água a correr num canal escavado há mais de um século. É esse contraste que faz de agosto um mês surpreendentemente bom para caminhar na Madeira: quando a costa aquece, a floresta laurissilva continua fresca, húmida e verde.
As levadas, para quem chega de novo, são canais de irrigação construídos para levar água das encostas do norte, onde chove, para os campos do sul, onde não chove. Ao lado de cada canal corre um caminho de manutenção, e é por esses caminhos que hoje se anda. O resultado é uma rede de trilhos quase planos que atravessam vales que de outra forma seriam inacessíveis. Escolhemos sete, todos exequíveis num dia a partir do Funchal, ordenados do mais exigente ao mais preguiçoso.
Antes de calçar as botas
Três coisas práticas que convém saber antes de arrancar. Primeira: vários percursos oficiais (os PR sinalizados, incluindo o Caldeirão Verde e as 25 Fontes) têm uma taxa de acesso de 3 euros para não residentes, paga online antes da caminhada. Confirme a lista atualizada e o portal de pagamento antes de ir, porque há fiscalização nos trilhos mais populares. Segunda: em agosto, quem chega ao início do trilho às 8h da manhã caminha quase sozinho; quem chega às 10h30 partilha o caminho com os autocarros de excursão. A matemática é simples. Terceira: alugar carro em agosto na Madeira exige reserva com semanas de antecedência. Se não conseguir, há alternativas decentes com transporte incluído, como a caminhada guiada ao Caldeirão Verde com partida do Funchal, ou programas que juntam levadas de manhã e piscinas naturais à tarde, que em agosto é, francamente, a combinação perfeita.
Leve sempre um casaco leve, mesmo com 27 graus no Funchal. E uma lanterna frontal: vários destes trilhos têm túneis, e a lanterna do telemóvel numa mão enquanto a outra segura o corrimão molhado é uma péssima ideia.
As sete caminhadas
1. Levada do Caldeirão Verde (PR9)
Se só fizer uma levada na vida, que seja esta. Parte do Parque das Queimadas, acima de Santana, junto às casas de colmo que parecem saídas de um postal, e segue 8,7 quilómetros em cada sentido pelo vale da Ribeira de São Jorge. Pelo caminho há quatro túneis (a tal lanterna), paredes de rocha a pingar água e, no fim, uma cascata que cai de mais de cem metros para uma lagoa verde onde a água está fria o suficiente para calar qualquer conversa. Conte com quatro a cinco horas ida e volta, ritmo calmo, e chão molhado mesmo em pleno agosto.
A jogada inteligente é fazer o trilho de manhã cedo e depois descer a Santana para almoçar e passear sem pressa. O nosso roteiro de 24 horas em Santana explica como transformar a caminhada num dia inteiro bem gasto no norte da ilha.
2. 25 Fontes e Risco (PR6 e PR6.1)
O percurso mais famoso da ilha, e com razão, mas também o mais concorrido. Parte do Rabaçal, no planalto do Paul da Serra, a cerca de uma hora de carro do Funchal. Da entrada, um shuttle pago encurta a estrada de acesso fechada ao trânsito; a pé são uns bons 2 quilómetros de descida (e de subida no regresso, que ninguém agradece às 15h). O prémio são as 25 Fontes propriamente ditas, um anfiteatro de rocha onde dezenas de fios de água caem para uma lagoa, e o desvio ao Risco, uma cascata alta e fina que vale os vinte minutos extra.
Em agosto, a regra é radical: ou chega ao Rabaçal às 8h, ou vá depois das 15h, quando as excursões já desceram. Ao meio-dia, a lagoa das 25 Fontes parece a fila de um festival. A água, essa, está sempre gelada; mergulhar é lendário e dura em média oito segundos.
3. Vereda dos Balcões (PR11)
A prova de que uma grande caminhada não precisa de ser longa. Do Ribeiro Frio, na estrada entre o Funchal e Santana, são apenas 1,5 quilómetros quase planos até ao miradouro dos Balcões, com vista sobre o vale da Ribeira da Metade e, em dias limpos, os picos mais altos da ilha, o Ruivo e o Areeiro. Pelo caminho, os tentilhões da Madeira pousam na mão de quem estende sementes, um truque que derrete qualquer criança e, sejamos honestos, qualquer adulto.
Vá de manhã: em agosto, o famoso capacete de nuvens costuma instalar-se nas encostas norte a partir do início da tarde e rouba a vista. No Ribeiro Frio há um viveiro de trutas e bares simples para um café antes ou depois. É a levada ideal para o dia de chegada, quando as pernas ainda estão a acertar o fuso horário.
4. Levada do Furado (PR10)
Para quem quer floresta a sério e menos gente. Parte do mesmo Ribeiro Frio, mas em vez de acabar em 40 minutos, segue cerca de 11 quilómetros até à Portela, por uma das levadas mais antigas geridas pelo Estado. O troço central é laurissilva cerrada, com passagens estreitas talhadas na rocha e cabos de apoio nos pontos mais expostos. Não é técnico, mas não é sítio para quem sofre de vertigens agudas. No fim, a descida para a Portela abre para a Penha d'Águia e o mar de Porto da Cruz, uma das melhores recompensas visuais da ilha.
É um trilho linear, portanto resolva o regresso antes de partir: táxi combinado na Portela ou um dos autocarros que servem a zona (confirme horários localmente, que em agosto mudam). Conte com quatro horas de caminhada efetiva.
5. Levada do Rei (PR18)
O plano B mais subvalorizado da Madeira. Quando o Caldeirão Verde está cheio, a Levada do Rei oferece uma experiência parecida, vale profundo, floresta densa, água sempre ao lado, com uma fração das pessoas. Começa junto à estação de tratamento de água de São Jorge e segue cerca de 5 quilómetros em cada sentido até ao Ribeiro Bonito, um fundo de vale onde a vegetação fecha por cima da cabeça e a luz chega verde ao chão.
Fica no concelho de São Jorge e Santana, portanto combina bem com a mesma lógica de dia no norte: trilho de manhã, almoço e calma à tarde. Em agosto é dos poucos percursos onde ainda se consegue caminhar meia hora sem cruzar ninguém.
6. Levada dos Cedros (PR14) e o Fanal
O Fanal é o cenário mais fotografado da Madeira: tis centenários de troncos retorcidos num planalto que, quando o nevoeiro sobe, parece saído de um conto dos irmãos Grimm. Em agosto o padrão é razoavelmente previsível: manhãs limpas, nevoeiro a entrar a meio da tarde. Decida o que quer, a vista ou o mistério, e escolha a hora em conformidade. Os fotógrafos vão pelo nevoeiro; têm razão.
A Levada dos Cedros parte do Fanal e desce por laurissilva primitiva em direção ao Curral Falso, no vale da Ribeira da Janela. É maioritariamente a descer, o que engana: alguém tem de vir buscar-vos abaixo, ou o regresso é uma subida honesta. A viagem desde o Funchal, pelo Paul da Serra, demora à volta de uma hora e um quarto e é, por si só, das mais bonitas da ilha.
7. Levada dos Tornos, do Monte ao Palheiro
A levada urbana, para o dia em que o corpo pede menos ambição. Suba ao Monte, de carro, autocarro ou teleférico, e comece pelo Monte Palace Tropical Garden, que às primeiras horas da manhã, antes dos grupos, é genuinamente sereno. Depois apanhe a Levada dos Tornos, que corre pela encosta acima do Funchal, e siga para nascente, entre quintas, mimosas e vislumbres da baía lá em baixo, até à zona do Palheiro. O fecho ideal é a visita aos Palheiro Gardens, na Quinta do Palheiro Ferreiro, camélias, relvados ingleses e vistas que explicam porque é que a aristocracia madeirense construiu aqui.
Sem túneis, sem taxas, ténis chegam. Nota de calendário: a 14 e 15 de agosto, o Monte celebra a festa de Nossa Senhora do Monte, a maior romaria da ilha. Ou abraça o caos festivo, ou escolhe outro dia para este passeio.
Depois do trilho: onde comer no Funchal
Uma levada bem feita justifica um jantar bem feito. Para a versão sem cerimónia, o Casal da Penha é o clássico funchalense que cumpre: peixe fresco, cozinha madeirense sem folclore desnecessário e uma esplanada que em agosto pede reserva ou paciência. Peça o peixe do dia e um vinho branco da ilha, e não complique.
Para o extremo oposto, o dia em que as pernas doem e a carteira aceita, o Il Gallo d'Oro tem duas estrelas Michelin e um menu de degustação que trata os produtos da ilha com uma seriedade que nenhuma marmita de trilho alguma vez conhecerá. Reserve com antecedência e deixe as botas no hotel.
Se os músculos pedirem pausa
Entre caminhadas, o Funchal resolve bem um dia de recuperação. O Jardim Botânico da Madeira é a aula de botânica que dá contexto a tudo o que viu na laurissilva, com a vantagem de ter bancos à sombra. E no final do mês, a cidade entra no ambiente da Festa do Vinho da Madeira, com animação no centro; confirme as datas do ano, mas se coincidir, é um bom fecho de viagem.
Agosto na Madeira tem má fama entre caminhantes por causa do calor, e é fama injusta. O calor fica na costa. Lá em cima, no caminho estreito ao lado da água, a temperatura é de junho no norte da Europa e a luz é melhor do que em qualquer outro mês. Madrugue, pague os 3 euros, leve a lanterna. O resto, a ilha resolve.