Funchal em Julho: Levadas de Manhã, Mar à Tarde
Em julho, a Madeira pede um plano com duas metades: levadas frescas de manhã, mergulhos atlânticos à tarde. Do Caldeirão Verde às piscinas naturais, com paragem na espetada do Casal da Penha pelo meio.
Julho no Funchal é uma questão de horários. Quem chega a achar que vai passar o dia a torrar numa toalha percebe depressa que a Madeira não funciona assim. A ilha pede um plano com duas metades: as manhãs são para as levadas, quando o ar ainda está fresco e a montanha guarda os fios de água nas suas paredes; as tardes são para o mar, quando o sol já bate forte e a única decisão sensata é mergulhar. Faça o contrário e vai sofrer. Caminhar uma levada às três da tarde de julho, com o calor preso entre os eucaliptos, é castigo. De manhã, é das melhores coisas que esta ilha tem para oferecer.
Esta é a grande vantagem do Funchal no verão: a montanha e o mar estão a vinte minutos um do outro. Pode estar às oito da manhã num trilho a 1000 metros de altitude, com névoa a escorrer pelas árvores, e à uma da tarde estar a saltar para uma piscina natural de água atlântica. Poucos sítios da Europa lhe dão isto no mesmo dia.
As manhãs pertencem às levadas
As levadas são canais de água construídos ao longo de séculos para levar a chuva do norte húmido da ilha até às plantações do sul mais seco. Hoje são também a melhor rede de trilhos de Portugal. Em julho, o segredo é simples: comece cedo. Às sete e meia da manhã, antes dos autocarros despejarem grupos nos pontos de partida, os trilhos são seus e o termómetro está dez graus mais simpático.
Para uma primeira aproximação, vale a pena estudar os trilhos essenciais das levadas do Funchal antes de calçar as botas. A geografia da ilha não perdoa improvisos: há percursos de uma hora e há percursos que comem o dia inteiro, e em julho a diferença entre os dois é a diferença entre voltar bem disposto ou desidratado.
Se só fizer uma levada séria, faça a do Caldeirão Verde. É a mais cinematográfica da ilha, com túneis escavados na rocha (leve uma lanterna ou use o telemóvel) e uma cascata final que cai dentro de um anfiteatro verde de paredes verticais. A caminhada do Caldeirão Verde entre cascatas parte de Queimadas, em Santana, do outro lado da ilha, por isso conte com cerca de uma hora de viagem desde o Funchal. Vá num carro alugado ou numa excursão organizada; de transportes públicos é uma dor de cabeça. Leve água a mais, calçado com piso, e um casaco fino mesmo em julho, porque o norte da ilha tem o seu próprio clima e a névoa instala-se sem avisar.
Já que vai a Santana, não faça a asneira de ir e voltar a correr. Vale a pena espreitar um roteiro de 24 horas em Santana e ficar pela região, com as suas casas triangulares de colmo e um ritmo que não tem nada a ver com a azáfama da capital. O norte da Madeira em julho é mais verde, mais fresco e muito menos cheio do que a costa sul.
Levadas mais perto, para quem tem menos tempo
Nem toda a gente quer uma hora de carro antes de caminhar. Há levadas curtas a partir do próprio Funchal e arredores que se fazem numa manhã sem grande logística. São perfeitas para o primeiro ou último dia, quando ainda está a ganhar pernas ou já está a poupá-las. O importante é manter a regra de ouro de julho: estar no trilho antes das nove e estar de volta antes do calor apertar.
Os jardins, o meio-termo perfeito
Entre a levada da manhã e o mar da tarde há um intervalo que pede sombra, e o Funchal tem três jardins que justificam por si só uma viagem. São o antídoto perfeito para o calor de julho: altitude, árvores e água por todo o lado.
O mais teatral é o Monte Palace Tropical Garden, no alto do Monte. Suba de teleférico desde a zona velha do Funchal, que já é meia atração à conta das vistas sobre a baía, e passe a manhã entre lagos com carpas koi, azulejos portugueses e uma coleção de plantas que vem do mundo inteiro. É um daqueles sítios que parecem pensados para fugir do sol: por mais que aperte lá em baixo, ali em cima há sempre uma sombra fresca à sua espera.
Para quem é mais de botânica do que de cenografia, o Jardim Botânico da Madeira é a escolha certa. Os canteiros geométricos de cores garridas são a fotografia mais repetida da ilha, mas o que vale mesmo a pena é a coleção de plantas endémicas, espécies que só existem na Macaronésia. As vistas sobre o vale e o porto são generosas. Vá de manhã, antes das duas da tarde, quando o sol cai sem dó sobre as zonas mais expostas.
E se tiver tempo para um terceiro, os Palheiro Gardens, a Quinta do Palheiro Ferreiro, são os mais ingleses dos três, herança das famílias britânicas que fizeram fortuna no vinho Madeira. Roseiras, camélias e um arvoredo enorme que dá sombra a sério. É mais calmo, menos turístico, e o ar fresco da altitude faz dele um refúgio nas horas mais quentes do dia.
As tardes são do Atlântico
Aqui está a verdade desconfortável que ninguém diz aos turistas: a Madeira não é uma ilha de praias de areia. É uma ilha vulcânica, de costa íngreme e calhau. Quem vem à procura de quilómetros de areia branca vai sair desiludido. Mas quem aceita a ilha como ela é descobre uma coisa melhor: as piscinas naturais e os complexos balneares sobre as rochas, onde se nada em água do mar transparente com a montanha às costas.
Em julho a água anda na casa dos 22 graos, fresca o suficiente para refrescar depois da caminhada e quente o suficiente para ficar lá dentro. A zona do Lido, a oeste do centro do Funchal, é a mais prática: complexos balneares com plataformas, escadas para o mar e acesso fácil. Não é exótico, mas resolve a tarde sem complicações. Para algo mais bravo, vale a viagem até às piscinas naturais de Porto Moniz, no extremo noroeste, onde a lava solidificada formou piscinas que o mar enche e renova. Fica longe, mas é das imagens mais marcantes da ilha.
E há quem queira mais do que boiar. O mar do Funchal tem ondas suficientes para aprender a surfar, e em julho as condições para principiantes são amáveis. Uma aula de surf com o Surf Clube da Madeira é a forma certa de o fazer: instrutores locais, equipamento incluído e o conhecimento de quem sabe onde a ondulação é segura. Não espere o surf da Ericeira, mas para começar é perfeito, e fazê-lo numa baía com a cidade encostada à montanha tem o seu encanto.
À mesa, depois do mar
Caminhar de manhã e nadar de tarde abre um apetite a sério. Felizmente, o Funchal come bem. Para um almoço ou jantar honesto, de cozinha madeirense feita como deve ser, o Casal da Penha é uma aposta segura. Peça a espetada em pau de loureiro, a carne enfiada num ramo de louro verde que perfuma o assado, acompanhada do bolo do caco com manteiga de alho. É o prato que define a ilha. Se for dia de peixe, o atum fresco grelhado ou a espada preta com banana frita, aquela combinação estranha que só faz sentido depois de a provar.
Para uma noite a sério, daquelas de marcar a viagem, o Il Gallo d'Oro joga noutra liga. É a mesa de alta cozinha do Funchal, com estrelas Michelin e uma carta que cruza técnica refinada com produto madeirense. Não é para todas as noites nem para todas as carteiras, mas se quer uma celebração, é aqui. Reserve com antecedência, sobretudo em julho.
Quando ir e o que esperar
Julho na Madeira é alta estação, mas a ilha aguenta bem a multidão porque se distribui: enquanto a costa sul fervilha, o norte e as serras ficam praticamente vazios. O clima é o argumento de venda da ilha. Enquanto o continente cozinha aos 38 graus, o Funchal raramente passa dos 26. As manhãs são frescas, as tardes amenas, as noites pedem um casaco fino se subir ao Monte.
- Comece sempre cedo. Em julho, qualquer levada feita depois das dez da manhã é meia levada, com o dobro do calor e o triplo da gente.
- Alugue carro. Os melhores trilhos e as piscinas mais bonitas ficam fora do Funchal e os transportes públicos não acompanham um plano de montanha de manhã e mar de tarde.
- Leve camadas. O microclima do norte e da altitude pode mudar tudo em minutos. Um casaco corta-vento fino vale ouro mesmo em pleno verão.
- Calçado a sério. As levadas têm túneis escuros, piso molhado e quedas a pique sem proteção em alguns troços. Não é sítio para sapatilhas de cidade.
Se quer perceber como é o Funchal nas semanas antes, com os festivais e o atum fresco no seu auge, o guia do Funchal em junho dá-lhe o contexto. Julho herda o melhor desse mês, a estabilidade do tempo e a abundância do mar, mas com dias ainda mais longos. Faça as contas: levada ao nascer do sol, jardim ao meio-dia, mar à tarde, espetada ao jantar. É um dia perfeito numa ilha que, quando se respeitam os seus horários, dificilmente desilude.