Funchal em Junho: Atum, Levadas e Noites de Festival
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Funchal em Junho: Atum, Levadas e Noites de Festival

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Junho é a janela civilizada para conhecer o Funchal: Festival do Atum em Câmara de Lobos, hortênsias a explodir nas levadas, e dois jantares na cidade que valem a viagem. Um roteiro com opinião, sem encenação para autocarros.

Junho no Funchal é aquele mês em que a ilha decide finalmente acordar para o verão sem o frenesim turístico de agosto. As manhãs ainda têm aquela neblina baixa que encosta às encostas a norte, mas pelo meio-dia já se anda em t-shirt no Lavradores, e à noite as esplanadas da Rua de Santa Maria enchem-se sem que ninguém precise de reservar com três semanas de antecedência. É a janela: clima estabilizado, levadas com hortênsias a explodir de cor, e o calendário gastronómico a abrir com o Festival do Atum em Câmara de Lobos, mesmo ali ao lado.

Se vai uma vez à Madeira em junho, faça-o com método. O que se segue é o que eu faria: onde comer, onde caminhar, o que ignorar, e porque é que o atum desta ilha não é o mesmo atum que come em Lisboa.

O Festival do Atum: porque é que importa

O Festival do Atum acontece todos os anos em Câmara de Lobos, geralmente nos últimos fins de semana de maio e primeiros de junho, o que significa que se chegar ao Funchal a 1 de junho ainda apanha quase de certeza a edição corrente (confirme localmente as datas exatas). Câmara de Lobos fica a oito minutos de carro do centro do Funchal, e durante o festival a marginal enche-se de tendas onde se serve atum em todas as configurações imagináveis: bifes grossos selados na chapa, escabeche frio, espetadas, e a clássica preparação madeirense, o atum de cebolada, com milho frito e batata-doce.

Ponto importante: o atum aqui é local. A frota de Câmara de Lobos pesca à linha, técnica artesanal que arrasta o peixe um a um. Isto não é detalhe de folheto turístico, é a razão pela qual o atum chega à mesa com textura firme e sangue limpo, em vez do peixe estilhaçado que aparece em redes industriais. Vai notar a diferença ao primeiro garfo.

Conselho prático: vá ao festival ao almoço de sábado, não ao jantar. Há menos confusão, o sol bate na água do porto, e os preços rondam os 10 a 15 euros por dose generosa nas tendas oficiais. Beba poncha regional (rum de cana, mel de abelha, limão) sem cerimónia, mas pare nos dois copos, ou o resto da tarde está estragado.

Onde comer no Funchal quando não está a comer atum em Câmara de Lobos

O Funchal tem uma cena gastronómica desproporcionada para o tamanho da cidade, em parte porque a ilha vive de turismo e em parte porque os chefs locais têm um nível invulgarmente alto. Duas paragens obrigatórias, a separar por orçamento e contexto:

Almoço sólido, sem cerimónia

O Casal da Penha é a casa onde se almoça sem encenação. Cozinha madeirense honesta, espadarte preto na chapa, lapas grelhadas com manteiga de alho, e bife em pedra que ainda chiba à mesa. É o tipo de sítio onde se vai à terça-feira ao meio-dia e meia, onde o empregado conhece os clientes habituais, e onde se sai a achar que se comeu bem por preço razoável. Não tem vista, não tem cenografia, tem comida. Que é, no fim, o que interessa.

Jantar para a noite especial

O Il Gallo d'Oro joga noutra liga: duas estrelas Michelin, menus de degustação longos, vinhos da Madeira a acompanhar pratos com produto local trabalhado em técnica francesa. É caro (conte com 180 a 250 euros por pessoa com pairing), mas é o tipo de jantar que se faz uma vez por viagem e se lembra dois anos depois. Reserve com antecedência, vá com tempo (são facilmente três horas à mesa), e peça o pairing de Madeira velho, é onde a casa brilha mais.

Se a ideia é dois jantares na cidade, faça um cada. Casal da Penha à chegada para entrar em modo ilha, Il Gallo d'Oro na última noite para fechar com pompa.

As levadas em junho: hortênsias, agapantos e tempo certo

Junho é o mês das levadas. A primavera tardia da Madeira faz com que as hortênsias ainda estejam em pleno, e os agapantos azuis começam a abrir nas bermas dos caminhos. Os trilhos secam dos restos de chuva de abril e maio, mas ainda não chegou o calor pesado de agosto que torna as caminhadas longas num exercício de sobrevivência.

Para quem nunca andou numa levada, vale a pena ler o nosso guia das levadas essenciais a partir do Funchal antes de escolher o trilho. Em junho, a maioria das recomendações de abril continuam válidas, com o bónus da floração no auge.

Caldeirão Verde: a caminhada que vale o dia inteiro

Se tem um único dia para uma caminhada séria, faça a Levada do Caldeirão Verde. São cerca de 13 km ida e volta, partindo de Queimadas (Santana, no norte da ilha), por um caminho que atravessa quatro túneis (lanterna obrigatória, telemóvel não chega) e termina numa lagoa circular ao fundo de um anfiteatro de basalto onde uma cascata cai cento e tal metros. É espetacular no sentido literal: provoca espetáculo. Reserve o dia inteiro, leve almoço, e considere a experiência guiada com transfer a partir do Funchal se não quer conduzir as estradas sinuosas do norte.

Sapatos com aderência são obrigatórios, não tente em ténis de cidade. O caminho é estreito em zonas com queda significativa, e em junho ainda há trechos húmidos.

Levadas mais curtas, perto da cidade

Quem não quer um dia inteiro de caminhada tem opções a 15-20 minutos do Funchal. A Levada dos Tornos, a partir do Monte, faz-se em duas a três horas, é quase plana, e atravessa zonas de jardins privados e socalcos de bananeira. A Levada do Norte, na zona da Boa Morte, dá vistas espetaculares para a costa sul. Não precisam de guia, basta cuidado e água.

O dia em que se foge da costa: subir a Santana

Junho é o mês ideal para fazer a travessia para o lado norte da ilha. A estrada VR1 corta a montanha em túneis e leva-o de Funchal a Santana em pouco mais de quarenta minutos. Pode parecer pouco, mas atravessa-se um país inteiro: a costa sul é cosmopolita, mediterrânica, virada ao turismo; a norte é Atlântica, agrícola, com aldeias de casas baixas e campos de vinha em socalcos verticais.

Santana é parada obrigatória, pelas casas tradicionais de telhado de colmo (sim, há clichê, mas as autênticas existem e merecem visita) e pela cozinha rural que ainda se faz por ali. Para um dia bem montado, leia o nosso roteiro de 24 horas em Santana, que inclui horários de almoço, miradouros e o que valer mesmo a pena ver versus o que é encenação para autocarros.

Se levar dinheiro para gastar em recordações, esqueça as lojas de souvenirs do centro do Funchal e gaste em Santana. O artesanato local de Santana, vime, lã, cestaria, é o que se devia trazer da Madeira em vez do íman frigorífico com o cliché habitual.

Mar em junho: temperatura, surf e mergulho

A água em junho ronda os 20 a 21 graus na costa sul, ainda fresca para nórdicos mas perfeitamente nadável para portugueses do continente. As praias do Funchal são, em rigor, calhau e betão (Praia Formosa, Doca do Cavacas), e a melhor experiência aquática da ilha não é deitar-se ao sol, é entrar dentro do mar.

Para quem nunca surfou, ou já surfou mas quer experimentar ondas atlânticas em águas mais quentes que as do Norte, recomendo uma aula de surf com o Surf Clube da Madeira. Junho ainda apanha um swell limpo, sem o caos de inverno, e os instrutores conhecem os spots iniciantes na zona do Porto da Cruz e da Ribeira Brava onde a entrada é segura.

Mergulho com snorkel também é opção: o Garajau, a leste do Funchal, é reserva natural marinha, e em junho a visibilidade ronda os 15-20 metros. Há barcos de aluguer e operadoras de mergulho com saídas matinais a partir da Doca do Cavacas.

Festas de São Pedro e São João: a outra agenda de junho

Junho na Madeira não vive só de atum. A 23 e 24 são as Fogueiras de São João, com arraiais espalhados pela ilha (Câmara de Lobos, Funchal velho, e em particular as freguesias rurais a oeste). A 28 e 29, São Pedro, com destaque para Câmara de Lobos novamente, padroeiro dos pescadores, com missa, procissão marítima e arraial à beira-mar.

Estes não são festivais para turistas, são festas locais. Vá com humildade, peça uma poncha à banca, dance se souber, observe se não souber, e coma uma espetada de carne em pau de loureiro com bolo do caco e manteiga de alho. É o jantar mais madeirense possível, custa cinco euros, e fica de pé até à uma da manhã.

Logística: chegar, mover-se, dormir

O aeroporto do Funchal (Cristiano Ronaldo, código FNC) recebe voos diretos de várias cidades europeias e da maioria das capitais regionais portuguesas. Em junho, voos de Lisboa rondam os 100 a 180 euros ida e volta se reservar com algumas semanas de antecedência. O TAP e a easyJet operam regularmente.

Alugar carro é praticamente obrigatório se quer fazer levadas e a costa norte. Conte com 30 a 50 euros por dia em junho. Para ficar só pelo Funchal, os autocarros Horários do Funchal cobrem bem a cidade, e há Bolt e táxis em quantidade.

Para dormir, o centro histórico (Zona Velha, Sé, Avenida Arriaga) é onde tem mais carácter, mas há que escolher rua: a Rua de Santa Maria é viva à noite, charmosa de dia, mas pode ser ruidosa para quem dorme cedo. O bairro do Lido é mais hoteleiro e calmo, perto das piscinas naturais artificiais. Para algo diferente, considere uma quinta nas alturas (Monte, São Roque): mais fresco, vistas, e a vinte minutos de carro do centro.

O que comer e beber sem se enganar

  • Espetada em pau de loureiro: carne de vaca em espeto de madeira, com sal grosso, servida pendurada. Pedir em qualquer tasca decente.
  • Bolo do caco: pão achatado de batata-doce, sempre com manteiga de alho. Acompanhamento universal.
  • Lapas grelhadas: lapas (moluscos) abertas na chapa com alho, manteiga e limão. Trincar enquanto fumega.
  • Atum de cebolada: bife de atum com cebola estufada e milho frito. Comida de domingo na Madeira.
  • Bolo de mel: denso, escuro, perfumado a especiarias. Sobremesa, não pequeno-almoço.
  • Poncha: aguardente de cana, mel de abelha, limão. Não confundir com a versão para turistas com sumo de laranja.
  • Vinho Madeira: peça pelo menos um Sercial seco como aperitivo e um Malvasia doce como digestivo. Faz toda a diferença.

Três coisas para evitar

Primeira: o teleférico do Monte ao Funchal pode ser bonito, mas em junho enche-se de cruzeiros e a fila pode passar uma hora. Suba de carro ou autocarro 21 ou 22, visite o jardim tropical e o miradouro, e desça depois sem fila.

Segunda: os restaurantes da marginal central, na zona da Avenida do Mar, com fotografias laminadas dos pratos no menu. São armadilhas para turistas. Suba dois quarteirões para a Rua de Santa Maria ou afaste-se até à zona de São Pedro.

Terceira: tentar fazer tudo. A Madeira é uma ilha pequena mas vertical: 50 km de carro podem demorar 90 minutos. Escolha um lado por dia, levada ou costa, festival ou jantar. Quem tenta empilhar acaba a comer mal e a dormir nos miradouros.

O resumo de quem já cá esteve

Junho no Funchal é o mês civilizado: clima bom, multidões ainda manejáveis, calendário gastronómico a abrir, levadas no auge da floração. Faça três coisas e fica bem servido: um almoço no Festival do Atum em Câmara de Lobos, uma caminhada séria a uma levada do norte, e um jantar bem feito numa das duas casas do Funchal que valem a pena. O resto, deixe à improvisação. A ilha trata do guião.

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