Levadas do Funchal: As Melhores Caminhadas de Verão
Guia

Levadas do Funchal: As Melhores Caminhadas de Verão

· · Funchal

O Verão é, ao contrário do que pensam as brochuras, a melhor altura para andar nas levadas do Funchal. Catorze horas de luz, ar fresco a 1.000 metros, e cascatas onde se pode mergulhar. Mas só se sair de casa antes das sete e meia.

Em Agosto, às sete da manhã, o parque de estacionamento das Queimadas já tem três carrinhas de aluguer e uma mala de senhora que ninguém deveria ter trazido para uma levada. Pelas dez, está cheio. Pelas onze, há gente a calçar sandálias de praia ao lado de um aviso que diz, em quatro línguas, que o trilho tem um túnel de 800 metros sem luz. Esta é a primeira lição do Verão nas levadas do Funchal: o calor não é o problema, é o horário das outras pessoas.

As levadas foram desenhadas no século XVI para levar água do norte chuvoso para o sul seco da ilha. Sete séculos depois, são a melhor desculpa para passar um dia inteiro a andar a 1.000 metros de altitude enquanto, lá em baixo, Funchal frita a 30 graus. O truque é saber quais andar, a que horas, e onde comer quando se desce com fome de quem mereceu o almoço.

Porquê o Verão é, na verdade, a melhor altura

Há uma ideia instalada de que as levadas se fazem na Primavera, quando tudo floresce. É verdade que Abril e Maio têm o seu encanto, e já escrevemos sobre isso no nosso guia dedicado aos trilhos essenciais de Abril na Madeira. Mas o Verão tem três vantagens que ninguém menciona: os dias têm catorze horas de luz, a água das cascatas continua fria mesmo quando o ar não está, e os dias secos no norte da ilha tornam viáveis trilhos que, em Janeiro, são puro escorrega.

O calor, esse, fica em Funchal. Subir aos 1.500 metros do Pico do Areeiro num dia de Agosto significa pôr uma camisola às seis da manhã. A 1.000 metros, em Rabaçal, o termómetro raramente passa dos 22 graus mesmo em pleno Verão. É o ar condicionado natural da ilha, e custa o preço do combustível e o esforço das pernas.

A regra das 7h30

Saia do Funchal entre as sete e as sete e meia da manhã. Não é exagero. Os parques de estacionamento dos trilhos populares (Caldeirão Verde, Rabaçal, 25 Fontes) enchem-se entre as nove e as dez, e quem chega depois das onze passa o resto do dia a ultrapassar grupos de catorze pessoas com bastões. A Madeira tem cinquenta mil camas turísticas. Em Agosto, metade quer andar numa levada. Faça as contas.

Caldeirão Verde: o clássico que ainda vale a pena

Sim, está nas brochuras todas. Sim, é caro de estacionar (a entrada do Parque das Queimadas custa cinco euros por pessoa em 2026, confirme localmente). E sim, ainda assim, é o trilho que se recomenda a quem só vai fazer um no Verão. A explicação está na água: doze quilómetros ida e volta, quase sem desnível, a acabar numa cascata de cem metros que cai dentro de uma caldeira circular onde se pode mergulhar (com cuidado, e em Agosto a água fica nos 14 graus).

O trilho passa por quatro túneis. Lanterna frontal, não a do telemóvel. O terceiro túnel tem 200 metros e curvas, escuridão completa. As pessoas que entram com o telemóvel acabam encostadas à parede a deixar passar quem se preparou.

Se está a planear este trilho como o ponto alto da viagem, vale a pena ler a nossa guia completa da Levada do Caldeirão Verde, com detalhes sobre transferes, equipamento e os pormenores que distinguem um dia bom de um dia molhado e mau.

Como chegar de Funchal

Carro de aluguer é a forma mais flexível: 45 minutos pela VR1 até Santana, mais 15 minutos pelo interior até às Queimadas. Estrada final é estreita e tem nevoeiro de manhã, conduza devagar. Sem carro, há transferes partilhados a partir de Funchal que custam entre 35 e 50 euros por pessoa com guia. Vale a pena se nunca andou numa levada com túneis, perde flexibilidade mas ganha em segurança.

Rabaçal e 25 Fontes: o trilho da água

Se o Caldeirão Verde é o trilho da escala, Rabaçal é o trilho da abundância. A floresta laurissilva (Património Mundial UNESCO desde 1999) é mais densa aqui, mais escura, mais húmida. O trilho clássico é o das 25 Fontes: oito quilómetros ida e volta, a acabar numa lagoa cercada por dezenas de jorros de água que saem da rocha. Não são 25, são mais. Ninguém contou recentemente.

O ponto crítico é o acesso. A estrada que desce dos 1.300 metros do Paul da Serra até ao Rabaçal está fechada a carros particulares desde 2019. Tem de se estacionar lá em cima e descer a pé (40 minutos de descida em alcatrão, brutal de regresso) ou apanhar a shuttle oficial que custa três euros por pessoa, ida e volta. A shuttle só funciona até às 17h, planeie de acordo.

O Paul da Serra, esse planalto a 1.400 metros, é a maior surpresa para quem só conhece a Madeira de postal. Parece a Escócia. Vacas soltas, urze, vento, e em Agosto pode estar a quinze graus quando em Funchal estão trinta. Leve um polar mesmo que ache que está louco. Não está.

Levada dos Balcões: para quando tem três horas

Nem todos os dias se podem dedicar oito horas a uma caminhada. A Levada dos Balcões, no Ribeiro Frio, é o oposto do Caldeirão Verde: três quilómetros ida e volta, quase plano, dois túneis curtos, e um miradouro final sobre o vale do Faial com vista para o Pico Ruivo e o Pico do Areeiro. Faz-se em hora e meia sem pressa.

O segredo é parar na Casa do Ribeiro Frio para um café antes ou depois. Há trutas locais à venda para quem quer aproveitar o caminho até ali (a Madeira cria trutas em viveiros desde os anos 50). Não é o melhor trilho da ilha, mas é o melhor trilho da ilha para quem tem o avião às 18h.

O lado paralelo: jardins que valem o esforço

Há dias em que as pernas dizem que não. Há outros em que a chuva no norte estraga o plano. Para esses, Funchal tem três jardins que rivalizam com qualquer trilho em densidade botânica, e em alguns aspectos ganham, porque alguém os desenhou.

O Monte Palace Tropical Garden é o mais cinematográfico dos três. Sete hectares de jardim oriental, lagos com carpas koi, e uma colecção de azulejos portugueses dos séculos XV a XX exposta em painéis pelo jardim. Sobe-se de teleférico desde o Funchal (16 euros ida e volta, ou faça apenas a subida e desça nos famosos carros de cesto, mais 35 euros por dois passageiros, vale a pena uma vez na vida).

O Jardim Botânico da Madeira, do outro lado do vale, é mais sério, mais didáctico, mais botânico no sentido literal. Oito euros de entrada, espécies de todos os continentes, e um miradouro sobre a baía do Funchal que justifica a visita só por ele. Vá ao fim da tarde, com a luz oblíqua.

E depois há os Palheiro Gardens, a 500 metros de altitude, na propriedade da família Blandy. É o jardim mais britânico de Portugal, no melhor sentido: design paisagístico do século XIX, camélias raras (vá em Janeiro se quiser vê-las, mas em Verão as roseiras estão no auge), e um silêncio que custa quinze euros à entrada.

Onde comer quando se desce com fome

Há uma escola que diz que depois de uma levada se come sopa de trigo num restaurante de estrada. Há outra que diz que se desce a banhar, se descansa duas horas, e se janta a sério. Ambas têm razão.

Para a primeira escola, qualquer casa de Santana ou Camacha serve. Espetada em pau de loureiro, milho frito, bolo do caco com manteiga de alho. Quinze euros e está feito.

Para a segunda, o Casal da Penha é a resposta certa numa noite normal. Cozinha madeirense séria sem virar caricatura, atum em todas as formas possíveis em Junho (o melhor mês para atum, como detalhámos no nosso guia sobre Funchal em Junho), e uma esplanada que apanha o ar do Atlântico mesmo nas noites mais quentes.

Para a noite em que se quer perceber porque é que a Madeira tem duas estrelas Michelin numa ilha de 250.000 habitantes, é o Il Gallo d'Oro, no Cliff Bay. Não é barato (menu de degustação a partir dos 180 euros), mas o chef Benoît Sinthon trabalha com produtores madeirenses como ninguém. Reserve com duas semanas de antecedência em Agosto.

O equipamento que importa (e o que não importa)

O que importa: ténis de trilho com sola aderente (as levadas têm zonas de pedra molhada onde escorrega), uma mochila pequena com dois litros de água, lanterna frontal a sério (não a do telemóvel, repita-se), corta-vento mesmo em Agosto, e um snack salgado para a meio do trilho. Bananas da Madeira compradas no mercado dos Lavradores na véspera fazem-no parecer um local.

O que não importa: bastões de caminhada nos trilhos planos (Caldeirão Verde, Balcões, 25 Fontes não os justificam), GPS dedicado (o sinal de telemóvel é razoável), e calças impermeáveis em Agosto (vai suar mais do que se molhar).

Os túneis e as alturas

Duas conversas honestas. Primeira: os túneis são longos, escuros, e às vezes baixos. Quem tem claustrofobia séria deve evitar o Caldeirão Verde. A Levada dos Balcões tem túneis curtos, com luz visível na outra ponta. Comece por aí se tem dúvidas.

Segunda: muitas levadas têm corrimão de um lado e uma queda de 300 metros do outro. A maioria das pessoas atravessa sem pensar nisso. Quem tem vertigens deve perguntar antes de escolher o trilho. O staff da maioria dos hotéis sabe responder, e há agora aplicações com fotografias dos pontos críticos.

Se ainda tem um dia

Depois das levadas, do jantar, e do dia de descanso na praia da Calheta (sim, há praia de areia amarela na Madeira, importada da Mauritânia em 2004), há quem queira mais. Para esses, sugerimos duas direcções.

Primeira: uma manhã no Atlântico. O sul da ilha tem ondas suaves o suficiente para quem nunca surfou tentar, e a nossa guia sobre uma aula de surf no Funchal explica como fazer isso sem se humilhar mais do que o estritamente necessário.

Segunda: um dia em Santana, a 50 minutos a norte. As casinhas de colmo são turismo, mas o resto do município é onde a Madeira rural ainda existe. O nosso roteiro de 24 horas em Santana mostra-lhe como fazer isso sem entrar em nenhuma loja de íman.

Madeira não é uma ilha para se fazer. É uma ilha para se andar, devagar, pelas levadas, com paragens para mergulhar em cascatas que estão lá há quinhentos anos à espera. O Verão é, ao contrário do que pensa o calendário das brochuras, a melhor altura para o fazer. Saia cedo, calce bem, e deixe os bastões em casa.

Funchal Madeira Caminhadas levadas verão