Monte Palace Tropical Garden
Funchal
80.000 m² em encosta, mais de 2.500 espécies catalogadas e o miradouro mais bem desenhado sobre a baía do Funchal. Não é um jardim romântico, é um arquivo botânico vivo, e funciona melhor se for cedo e antes de uma levada.
O Jardim Botânico da Madeira, oficialmente Eng.º Rui Vieira, fica no Caminho do Meio, em Bom Sucesso, a cerca de três quilómetros do centro do Funchal. Não é um jardim para passear distraído com o telemóvel: são 80.000 metros quadrados em encosta, com mais de 2.500 espécies catalogadas e um miradouro sobre a baía que justifica, por si só, a subida. Quem espera um parque urbano à beira da Avenida do Mar vai ficar surpreendido. Isto é um jardim de trabalho, ligado ao IFCN (Instituto das Florestas e Conservação da Natureza), com função científica antes de turística.
O nome completo presta homenagem a Rui Vieira, o engenheiro agrónomo que dirigiu o jardim durante décadas e que, na prática, é responsável pela coleção tal como hoje a conhecemos. Abriu ao público em 1960, na antiga Quinta do Bom Sucesso, propriedade da família Reid (sim, os mesmos do hotel). Esse contexto importa: este não é um jardim desenhado para impressionar visitantes de passagem, é um arquivo vivo da flora macaronésica, com canteiros temáticos que vale a pena perceber antes de entrar.
O percurso clássico começa pela secção de plantas indígenas da Madeira, que é onde está o verdadeiro interesse botânico. Til, vinhático, barbusano, dragoeiro, todas as espécies que formam a laurissilva (Património Mundial da UNESCO) estão aqui catalogadas com placas. Se vai fazer alguma levada nos arredores do Funchal nos próximos dias, passe primeiro pelo jardim: vai reconhecer dez vezes mais coisas no trilho.
A segunda zona, o jardim dos cactos e suculentas, é a mais fotografada e a que enche o Instagram. É bonita, sobretudo ao fim da manhã com sol rasante, mas não se demore demasiado: o melhor do jardim está mais à frente, no parterre geométrico com sebes pintadas em mosaico, visível desde o miradouro principal. É a imagem postal do sítio. Vista de cima, parece um tapete de vidro colorido.
Conselho prático: chegue cedo, idealmente até às 10h. Os autocarros de cruzeiros começam a despejar gente por volta das 10h30 e a partir daí o miradouro principal fica intransitável para fotografias decentes. Em compensação, passada essa hora os caminhos secundários ficam vazios.
O Museu de História Natural e o Herbário, dentro do jardim, têm horários irregulares e há períodos em que estão fechados ao público. O parque de aves exóticas (Loiro Parque), tecnicamente anexo mas com bilhete separado, também tem altos e baixos de manutenção. Não conte com nenhum dos dois como o motivo principal da visita. Se estiverem abertos, é bónus.
Há três opções razoáveis, e a escolha depende do tempo que tem.
Subir a pé desde o centro é possível mas não é agradável: são cerca de 45 minutos quase sempre em rampa, pela estrada, sem passeio adequado em vários troços. Não recomendo.
A entrada é barata para o que oferece, na faixa do € (preço simbólico, com desconto para residentes e seniores). Confirme diretamente o horário no site do IFCN antes de ir, porque tem variado ao longo dos anos e o horário oficial nem sempre está atualizado nos guias. O telefone é +351 291 211 200 se quiser ligar para confirmar.
Leve calçado fechado com sola decente: o piso é de saibro, com escadas e desníveis constantes. Chapéu e água também não são opcionais, sobretudo entre maio e setembro, porque a meio do percurso há pouca sombra. Para visita confortável, conte com hora e meia a duas horas. Quem leva máquina e quer fotografar tudo precisa de mais.
Dentro do jardim há uma cafetaria simples, com snacks e bebidas. Está bem para um café e uma água, não muito mais. Para almoço a sério, desça ao Funchal. Para uma refeição de bom preço-qualidade em ambiente sem turismo de massas, o Casal da Penha é uma escolha sólida na cidade. Se a visita ao jardim for o pretexto para um dia mais especial, vale a pena reservar com antecedência uma mesa no Il Gallo d'Oro, o restaurante com duas estrelas Michelin do hotel The Cliff Bay. Não é barato e não é para todos os dias, mas é coerente com uma manhã passada a olhar para flora endémica.
O jardim é interessante todo o ano, mas há janelas óbvias. Em maio as floríferas tropicais estão no auge e o tempo ainda não apertou. Em junho o calor já se sente ao meio-dia, vale mais ir cedo. Em abril, se calhar com a Festa da Flor, faz pares perfeitos: a cidade encheu-se de tapetes florais, o jardim fecha o tema com a versão científica.
Vá se gosta minimamente de plantas, de história natural, ou de miradouros. Vá se está a planear caminhar em levadas e quer aprender a reconhecer o que vai ver. Vá com crianças que aceitem caminhar uma hora sem parques infantis a sério.
Pense duas vezes se procura um jardim romântico à inglesa ou um espaço para piquenique com manta no relvado: este é um jardim botânico de função técnica, com canteiros, etiquetas e mais escadas do que descanso. Para isso, o Monte Palace serve melhor.