Levadas do Funchal: Trilhos Essenciais para Abril na Madeira
As levadas da Madeira são mais de 2.500 km de canais de irrigação centenários transformados em trilhos pedestres, e Abril é o mês perfeito para os percorrer. Do Caldeirão Verde às 25 Fontes, este guia traça o roteiro essencial a partir do Funchal, com dicas práticas para quem quer fugir às multidões e caminhar com a ilha toda em verde.
Há uma razão pela qual os madeirenses olham para quem vem de fora com um misto de orgulho e paciência quando o assunto são as levadas. É que toda a gente chega ao Funchal convencida de que vai "passear nas levadas" como quem vai dar uma volta no parque, e depois depara-se com nevoeiro cerrado a 1200 metros, degraus escavados em basalto escorregadio e túneis onde se caminha de lanterna na mão. Abril, no entanto, é provavelmente o melhor mês para fazer estas caminhadas. A chuva pesada do inverno já passou, o calor do verão ainda não chegou, e a ilha está em plena explosão verde, a laurissilva parece ter sido repintada de fresco durante a noite.
O que são as levadas, afinal
Para quem nunca pisou a Madeira: as levadas são canais de irrigação construídos a partir do século XV para transportar água do norte húmido da ilha para o sul mais seco, onde se cultivava cana-de-açúcar. São mais de 2.500 quilómetros de canais, muitos deles com veredas de manutenção que se tornaram trilhos pedestres. A genialidade da coisa é que os canais seguem as curvas de nível da montanha, o que significa que se caminha quase sempre em plano, a inclinação é mínima, apenas o suficiente para a água correr. Isto torna as levadas acessíveis a praticamente toda a gente, desde que se tenha calçado decente e algum respeito pela montanha.
Levada do Caldeirão Verde: A obrigatória
Se só pudesse fazer um trilho na Madeira, seria este. Ponto. A caminhada começa no parque florestal das Queimadas, no concelho de Santana, a cerca de uma hora de carro do Funchal. São aproximadamente 6,5 km num sentido (13 km ida e volta), e a recompensa é uma cascata de quase 100 metros que cai para uma lagoa verde-esmeralda rodeada de paredes verticais de rocha. Em Abril, a cascata está carregada de água, o inverno alimentou-a bem.
O trilho passa por quatro túneis (levem lanterna, a sério, não a do telemóvel) e atravessa a floresta laurissilva, classificada como Património Mundial pela UNESCO. É daquelas experiências em que o silêncio da floresta é interrompido apenas pelo som da água a correr na levada ao vosso lado e, ocasionalmente, pelo grito de um bis-bis, o tentilhão endémico da Madeira, que parece não ter medo nenhum de humanos.
Dica prática: comecem cedo, às 8h se possível. Os autocarros de excursão começam a despejar gente por volta das 10h e o trilho, que é estreito em muitos pontos, transforma-se numa fila indiana desconfortável. Levem água, snacks e uma camada extra de roupa, nos túneis e zonas de sombra a temperatura pode cair bastante.
Para quem quer mais: o Caldeirão do Inferno
A partir do Caldeirão Verde, há uma extensão de mais 2,8 km até ao Caldeirão do Inferno, uma segunda cascata menos visitada. O trilho é mais exigente, passagens estreitas, mais túneis, e troços onde se caminha mesmo à beira do precipício. Se tiveram coragem para chegar aqui, a solidão e a paisagem compensam. Mas não é para quem tem vertigens.
Levada das 25 Fontes e Levada do Risco: Duas pelo preço de uma
Este é o outro trilho icónico da Madeira, e com razão. O ponto de partida é o Rabaçal, na zona do Paul da Serra, o planalto central da ilha. Em Abril, é possível que encontrem nevoeiro no planalto, mas quando descem para a levada, normalmente clarea.
A Levada das 25 Fontes tem cerca de 4,6 km (só ida) e termina numa lagoa alimentada por múltiplas cascatas que brotam da parede rochosa coberta de musgo. É cinematográfico, sem exagero. O trilho cruza-se com a Levada do Risco, que vale um desvio de 15 minutos, uma cascata vertical de cerca de 100 metros, menos dramática que o Caldeirão Verde mas igualmente bonita no seu enquadramento.
O acesso ao Rabaçal é feito por uma estrada que desce do planalto. Nos meses de maior procura, o trânsito particular é proibido e há um sistema de transfers em minibus. Em Abril, dependendo do ano, pode ainda ser possível descer de carro próprio, mas confirmem localmente antes de ir. O estacionamento lá em baixo é limitado.
Vereda dos Balcões: Para quem quer vistas sem esforço
Nem toda a gente quer caminhar 13 km. E não tem de o fazer. A Vereda dos Balcões, perto do Ribeiro Frio, é um passeio curto de 1,5 km (ida e volta) que termina num miradouro espetacular sobre o vale da Ribeira da Metade e os picos centrais da ilha. Em dias limpos, e Abril oferece muitos, vê-se o Pico do Arieiro e o Pico Ruivo ao mesmo tempo.
O trilho é pavimentado e acessível a toda a gente, incluindo crianças. No Ribeiro Frio, há uma truta de viveiro que vale a pena provar num dos restaurantes locais, a truta grelhada com limão é a aposta certa. O Ribeiro Frio é também o ponto de partida para a Levada do Furado, um trilho mais longo (11 km) que vai até Portela, caso queiram uma caminhada de dia inteiro.
A logística: como organizar os dias a partir do Funchal
A maioria dos trilheiros usa o Funchal como base, e faz sentido. A cidade tem a maior concentração de alojamento e restauração da ilha, e todos os trilhos ficam a menos de uma hora e meia de carro. O que recomendo: aluguem carro. Os autocarros públicos da Horários do Funchal cobrem parte da ilha, mas os horários são limitados e muitos pontos de partida dos trilhos não são servidos. Um carro pequeno custa a partir de 25-30€/dia em Abril, fora de época alta, os preços são razoáveis.
Para uma semana no Funchal em Abril, eu distribuiria assim:
- Dia 1: Chegada, Funchal, ambientem-se, percam-se pelas ruas do centro, jantem bem.
- Dia 2: Caldeirão Verde (saiam cedo do Funchal). Almoço em Santana na volta.
- Dia 3: Dia de descanso no Funchal. Mercado dos Lavradores de manhã, tarde livre. Se quiserem algo diferente, experimentem uma aula de surf com o Surf Clube da Madeira, sim, há surf na Madeira, e surpreendentemente bom.
- Dia 4: Levada das 25 Fontes + Risco. Desvio pelo Paul da Serra no regresso para ver o pôr do sol no planalto.
- Dia 5: Câmara de Lobos, o porto de pesca que seduziu Churchill, e o Cabo Girão, a falésia mais alta da Europa com passadiço de vidro. Almoço de peixe em Câmara de Lobos.
- Dia 6: Costa norte, Vereda dos Balcões de manhã, e depois continuem até São Vicente, entre o basalto e o loureiro. A costa norte é a Madeira menos polida, mais crua, e vale a pena.
- Dia 7: Último dia no Funchal. Compras, poncha, despedida.
Abril e a Festa da Flor: o timing perfeito
Uma das grandes vantagens de visitar a Madeira em Abril é coincidir com a Festa da Flor, que normalmente acontece entre o final de Abril e o início de Maio. O Funchal enche-se de tapetes florais, o cortejo do domingo é genuinamente impressionante (não é daqueles eventos turistificados até à exaustão), e os jardins da cidade, Jardim Botânico, Jardim Monte Palace, estão no seu pico de floração. Se a vossa viagem coincidir, não percam. É das festas mais bonitas de Portugal, e digo isto sem exagero.
Mas mesmo fora da Festa da Flor, Abril na Madeira é generoso. As temperaturas no Funchal rondam os 17-21°C durante o dia, a água do mar está nos 18-19°C (fria mas suportável), e os trilhos nas levadas estão verdes e cheios de flores silvestres, orquídeas, agapantos, hortênsias ainda em botão.
O que calçar e o que levar
Isto parece óbvio mas vou dizer na mesma: botas de trilho com sola aderente. Não sapatilhas de corrida, não ténis de cidade. Os caminhos das levadas são muitas vezes de terra batida com raízes expostas e pedra húmida. Já vi gente de chinelos na Levada das 25 Fontes e é uma questão de tempo até alguém se magoar a sério.
Para além do calçado: mochila pequena, 1,5L de água por pessoa, snacks energéticos, uma camada impermeável (mesmo que o dia comece solarengo, a meteorologia na montanha muda em minutos), lanterna de cabeça para os túneis, e protetor solar. A altitude engana, a 1000 metros, em Abril, o sol queima.
Depois do trilho: comer no Funchal
Depois de um dia na montanha, o corpo pede comida a sério. No Funchal, a oferta é vasta mas há armadilhas turísticas, evitem a maior parte dos restaurantes na Rua de Santa Maria (a rua das portas pintadas), onde os preços são inflacionados e a qualidade oscila. Se procuram algo com mais alma e menos cenário, o Casal da Penha é uma aposta sólida, cozinha madeirense com produto local bem tratado.
Do que devem provar na Madeira: espetada em pau de louro (carne de vaca grelhada em espeto de loureiro, o sabor que o pau dá à carne é único), bolo do caco com manteiga de alho, lapas grelhadas (se gostam de marisco), e o inevitável bolo de mel, que, apesar do nome, não leva mel mas sim melaço de cana-de-açúcar. Para beber, poncha, a versão clássica é aguardente de cana, mel de abelha e sumo de limão, mas há variantes com maracujá e laranja que são igualmente boas.
O norte da ilha: não fiquem só no Funchal
Um erro comum é ficar colado ao Funchal e à costa sul. A costa norte da Madeira é outra ilha, mais selvagem, mais verde, com menos turismo e uma personalidade completamente diferente. São Vicente, em particular, merece pelo menos meio dia. As grutas vulcânicas, a vila compacta junto ao mar, e a estrada que liga São Vicente ao Porto Moniz é uma das mais bonitas da Europa. Para quem se interessa por arquitetura e cultura contemporânea, vale a pena ler o nosso guia sobre o novo brutalismo e a arte contemporânea em São Vicente.
Muitas das melhores levadas, incluindo a Levada do Rei, na zona de São Jorge, estão precisamente nesta costa norte. E o melhor: estão muito menos concorridas do que as do Rabaçal ou Queimadas.
Uma última nota: respeitem o trilho
As levadas são um sistema de engenharia com séculos de história que continua a funcionar, a água que corre naqueles canais alimenta terrenos agrícolas e abastece populações. Não atirem lixo, não arranquem plantas, não saiam do trilho para "aquela foto". A Madeira é um ecossistema frágil com espécies endémicas que não existem em mais lado nenhum do mundo. A floresta laurissilva que atravessam no Caldeirão Verde é o maior fragmento sobrevivente de um tipo de floresta que cobria o sul da Europa há milhões de anos. Tratem-na com o respeito que merece.
E comecem cedo. Sempre cedo. A montanha de manhã é outra coisa, luz dourada a filtrar-se pelas copas dos til, o ar fresco a cheirar a terra húmida, e o trilho só para vocês. É assim que se caminha na Madeira.