Funchal em Junho: Festival do Atlântico e Jardins no Auge
Quatro sábados de fogo de artifício sobre a baía, jardins em segunda explosão, atum na época e levadas no seu melhor mês. Um guia opinativo para fazer Junho em Funchal sem cair nas armadilhas dos terraços de hotel a 90 euros.
Junho no Funchal não é o mês das multidões de Agosto nem a chuva incerta de Maio. É aquela janela curta em que a temperatura média anda nos 22 graus, a água do mar ronda os 21, e a cidade decidiu que vai gastar quatro sábados consecutivos a queimar fogo de artifício sobre a baía. O Festival do Atlântico, todos os sábados de Junho às 22h30, transforma a marginal numa arquibancada gratuita, e os hotéis com vista para o porto sobem os preços em conformidade. Vale a pena? Sim, mas há formas inteligentes de fazer isto e formas que envolvem ficar entalado entre cruzeiristas a comer gelado derretido na Avenida do Mar.
Este guia parte do princípio de que já leu o nosso guia geral sobre Funchal em Junho e quer agora ir mais fundo: os jardins no momento exacto em que as jacarandás cedem o palco às hortênsias, os melhores poleiros para o fogo de artifício sem pagar 180 euros por noite, e onde comer depois das 23h quando o resto da cidade fechou.
O Festival do Atlântico, explicado sem mitos
O Festival do Atlântico é tecnicamente duas coisas em sobreposição. Aos sábados à noite, há o concurso internacional de fogo de artifício pirotécnico, com equipas de países diferentes a competir em quatro sessões de cerca de 20 minutos. Em paralelo, durante todo o mês, há concertos gratuitos da Orquestra Clássica da Madeira e bandas regionais em palcos espalhados pelo centro, sobretudo na Praça do Município e na zona da Sé.
A coisa começa por volta das 22h30 e dura o suficiente para conseguir um café depois. O meu conselho, depois de ter visto isto de quatro ângulos diferentes em anos diferentes: esqueça a Avenida do Mar. Está demasiado perto, demasiado cheia, e o cheiro a frango do churrasco dos quiosques sobrepõe-se a tudo o resto. As melhores vistas são, por ordem:
- O miradouro do Pico dos Barcelos, a 355 metros de altitude. Chegue de táxi (uns 12 a 15 euros do centro) por volta das 21h30, leve uma garrafa de Verdelho, e prepare-se para partilhar o espaço com famílias madeirenses que sabem exactamente o que estão a fazer.
- O Forte de São Tiago, na zona velha. Mais perto da acção, mais íntimo, e tem o bónus de ficar a cinco minutos a pé dos restaurantes da Rua de Santa Maria para um jantar tardio.
- O teleférico do Monte parado no topo, se conseguir cronometrar a última descida (verifique horários no próprio dia, costumam estender em noites de festival). Vista panorâmica, sem multidão, e desce em direcção ao show no momento certo.
Evite, peremptoriamente, os terraços de hotel que cobram menu fixo de 90 euros por pessoa para "jantar com vista para o fogo". O fogo dura 20 minutos. O peixe estará frio.
Os jardins em Junho: timing é tudo
Aqui é onde a maioria dos visitantes erra. Vêm em Abril para a Festa da Flor, vêem o tapete floral na Avenida Arriaga, e assumem que os jardins estão no seu melhor. Estão enganados. Em Junho, com o ar mais seco e os dias mais longos, os jardins da ilha entram na sua segunda explosão: hortênsias em todos os tons de azul, agapantos a abrir, strelitzias permanentes, e as proteas do altiplano a chegar ao pico.
Monte Palace Tropical Garden
O Monte Palace Tropical Garden é o jardim que vende mais bilhetes e o que justifica o hype, com ressalvas. Os jardins orientais com lagos de carpas Koi e os azulejos portugueses do século XV são genuinamente impressionantes. O museu de arte africana no piso inferior é uma surpresa peculiar que ninguém menciona.
Conselho prático: suba de teleférico do Funchal (ida e volta ronda os 18 euros), mas desça a pé pelos Caminhos do Monte ou, se tiver coragem, no famoso carro de cestos. O carro de cestos custa 30 euros por dois passageiros, dura 10 minutos, e é exactamente o tipo de turismo absurdo que vale a pena fazer uma vez para contar. Aviso: não desce até ao centro, fica a meio caminho, e depois precisa de um táxi ou autocarro para terminar a descida.
Jardim Botânico
O Jardim Botânico da Madeira é o jardim para quem quer levar isto a sério. Mais de 2.500 espécies, organizadas por origem geográfica, com vista de cortar a respiração sobre o vale de João Gomes. O sector dos cactus e suculentas, com aquele padrão geométrico colorido visto de cima nas fotografias, está particularmente fotogénico em Junho com a luz mais inclinada da tarde.
Vá de manhã cedo, às 9h quando abre. Pague os 7,50 euros de entrada. Reserve duas horas. Não tente combinar com o Monte Palace no mesmo dia, é demasiado para uma manhã e fica tudo borrado na memória.
Palheiro Gardens
E depois há o que considero o melhor jardim de Funchal, embora seja o menos visitado dos três: os Palheiro Gardens, também conhecidos por Quinta do Palheiro Ferreiro. Fica a oito quilómetros do centro, a 500 metros de altitude, e foi desenhado pela família Blandy ao longo de mais de um século. É um jardim inglês com fundo madeirense, e é onde se vêem as proteas, as camélias tardias e os roseirais a sério.
Aberto de segunda a sexta-feira de manhã, fecha aos fins-de-semana. Ironicamente, é nestes dias úteis que fica vazio enquanto o Monte Palace recebe 2.000 cruzeiristas. Vá numa quarta-feira de manhã, pague a entrada, leve uma garrafa de água, e deambule. É o sítio onde percebe que a Madeira não é só vulcão e mar, também é uma micro-Inglaterra subtropical inventada por famílias mercantis no século XIX.
Onde comer, mês de Junho
Junho traz duas coisas à mesa madeirense: o atum (a época forte vai de Maio a Setembro) e os frutos vermelhos das encostas, com particular destaque para as cerejas do Jardim da Serra, que normalmente chegam aos mercados na primeira quinzena.
Almoço sério: Casal da Penha
Para um almoço que se prolonga, o Casal da Penha faz aquilo que os madeirenses chamam comida da terra com algum requinte, mas sem afectação. Peça o atum em bife alto, malpassado, com molho de vilão (alho, salsa, vinagre). Espetada em pau de loureiro só se vier acompanhada e estiver com fome séria, porque a porção é generosa. Conte com 25 a 35 euros por pessoa com vinho da casa.
Jantar de gala: Il Gallo d'Oro
Se quer fazer o jantar do ano e tem 250 euros por pessoa para gastar (sim, leu bem), reserve com três meses de antecedência uma mesa no Il Gallo d'Oro, do Hotel The Cliff Bay. Duas estrelas Michelin, chef Benoît Sinthon, cozinha mediterrânica com produtos locais. Não é para todas as noites. É para uma noite. Vá no menu de degustação, deixe a sommelier escolher os vinhos, e dispense o telefone durante três horas.
Tasca tardia
Depois do fogo de artifício, com a cidade ainda acordada, os sítios que ficam abertos passam-se na Rua de Santa Maria, na zona velha. As portas pintadas (o projecto Art of Open Doors) estão todas iluminadas, há música ao vivo em meio metro quadrado de calçada, e consegue um prato de lapas grelhadas com bolo do caco até à meia-noite. Não vou recomendar uma tasca específica porque mudam de mão, e o que era bom há dois anos pode ser turístico hoje. Confie no princípio: se tiver clientes a falar português entre si, está bem. Se tiver menu plastificado em seis línguas à porta, siga em frente.
Levadas em Junho: a janela ideal
Se há mês perfeito para fazer levadas, é Junho. Os trilhos secaram do Inverno, a vegetação está exuberante mas não asfixiante, e a temperatura nos níveis mais altos é confortável (15 a 18 graus em zonas de 1.000 metros). Antes de ir, leia o nosso guia detalhado das levadas essenciais à volta do Funchal, que se mantém válido em Junho com a diferença de que vai querer começar mais cedo (às 8h da manhã) para evitar o calor a partir das 13h.
A levada-rainha continua a ser a do Caldeirão Verde, em Santana, com aquele final em anfiteatro com cascata a precipitar-se 100 metros. É uma caminhada de cerca de 13 quilómetros, ida e volta, com quatro túneis sem iluminação onde a lanterna frontal não é opcional. Se quiser fazer isto bem feito, com guia e transporte, veja a experiência guiada da Levada do Caldeirão Verde que organizamos a partir do Funchal.
Para quem quer combinar Caldeirão Verde com uma estadia mais lenta, aproveite para passar a noite em Santana. O nosso roteiro de 24 horas em Santana explica como gerir o tempo entre as casas típicas, o miradouro do Pico Ruivo (mais perto do que parece a partir daqui) e os restaurantes locais.
O mar, agora que está quente
Em Junho, o mar atinge temperatura aceitável para banhos sem aquele choque atlântico que faz desistir os menos resistentes. A Praia Formosa, a oeste do Funchal, é a praia urbana mais acessível, mas é de calhau. Para areia a sério, é preciso ir até à Praia do Porto Santo (uma noite de ferry ou 15 minutos de avião) ou aceitar que na Madeira o mar entra-se por piscinas naturais, complexos balneares (o Lido, o Barreirinhas) ou pelo Doca do Cavacas.
Os surfistas têm em Junho um swell mais inconsistente do que no Inverno, mas a água está mais quente e há ondas regulares na zona oeste da ilha. Para quem nunca apanhou uma prancha mas sempre quis tentar, uma aula de surf com o Surf Clube da Madeira é uma forma honesta de descobrir se isto é para si, com instrutores que falam português e inglês e material incluído.
Logística básica que ninguém lhe disse
- Voos: o aeroporto Cristiano Ronaldo é notório pelos ventos cruzados na pista. Voos cancelados ou desviados para Porto Santo acontecem. Não marque conexões apertadas no regresso.
- Aluguer de carro: indispensável se quer sair do Funchal. Conte com 25 a 40 euros por dia em Junho. Aprenda a conduzir em estradas com curvas apertadas e ladeiras de 20%.
- Onde ficar: o triângulo entre Lido, Sé e Zona Velha cobre 90% das necessidades. Junho é época média, espere pagar 80 a 150 euros por noite em hotel decente. Os apartamentos no centro velho são geralmente boa relação preço-qualidade.
- Dinheiro: praticamente tudo aceita cartão, excepto algumas tasquinhas e os táxis fora de horas. Tenha 50 euros em dinheiro como reserva.
- Roupa: o erro clássico do visitante é vir só com roupa de Verão. Lá em cima, no Pico do Areeiro a 1.818 metros, faz 10 graus de manhã mesmo em Junho. Camisola e corta-vento são obrigatórios para qualquer caminhada acima dos 1.000 metros.
Quatro sábados, quatro programas
Se está em Funchal por uma semana e quer apanhar dois sábados de festival, organize-se assim: chegue na quinta, faça jardins na sexta, fogo de artifício no primeiro sábado, levada no domingo, descanso e cidade na segunda, dia de carro pela costa norte na terça, e parta na quarta. Se ficar para o segundo sábado, repita o fogo de outro ângulo (são equipas diferentes em cada sessão, vale a pena comparar).
Junho não é o mês mais barato nem o mais quente em Funchal, mas é o mês mais bem orquestrado. As flores estão prontas, o atum está na época, o fogo de artifício acontece quatro sábados consecutivos, e ainda não chegou a Agosto com os cruzeiristas a duplicarem a população urbana. Se tem de escolher um mês para uma primeira vez na Madeira, é este.