24 Horas em Santana: Roteiro ao Ritmo da Ilha
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24 Horas em Santana: Roteiro ao Ritmo da Ilha

· · Santana

Santana não se faz num relance pela janela do autocarro. Entre a levada do Caldeirão Verde, as casas de colmo autênticas e um jantar de espetada em pau de louro, 24 horas nesta vila da costa norte da Madeira mudam a forma como se olha para a ilha.

Santana não é o tipo de sítio que se visita com pressa. Se a sua ideia de conhecer esta vila é saltar da carrinha de turismo, tirar uma foto às casas de colmo e voltar para o Funchal a tempo do jantar no hotel, faça favor, mas vai perder o essencial. Santana pede-se com calma, de preferência com botas de caminhada e sem horários apertados.

7h30, Acordar entre árvores de fruta

Comece por dormir no sítio certo. O Aldeamento Turístico Casas de Campo do Pomar resolve a questão do alojamento com uma honestidade rara: casas de madeira inseridas num pomar, sem a pretensão dos hotéis de design, mas com o conforto suficiente para acordar descansado. A manhã em Santana tem uma luz particular, a humidade da noite evapora com o primeiro sol e, se estiver numa das casas mais altas, vê o mar ao longe entre as copas das árvores. Tome o pequeno-almoço com calma. Vai precisar da energia.

9h00, As casas de colmo (sim, vale a pena)

Eu sei o que está a pensar: as casas de colmo são uma atração turística fabricada. E em parte tem razão, as casas no centro de Santana junto ao Parque Temático são mantidas como peças de museu, pintadas de fresco todos os anos para as fotografias. Mas isso não anula o facto de que estas construções existiram de verdade, que pessoas viveram nelas até às décadas de 60 e 70, e que a técnica de construção com colmo de trigo é genuinamente fascinante.

O truque é não ficar só nas casas junto à câmara municipal. Caminhe pelas ruas laterais, ainda existem algumas casas de colmo autênticas em propriedades privadas, menos coloridas e mais reais. Meia hora chega para ver tudo sem sentir que está num parque temático.

10h00, Queimadas e a Levada do Caldeirão Verde

Aqui está o ponto forte do dia. A partir de Santana, o acesso ao Parque Florestal das Queimadas é direto, são cerca de 15 minutos de carro por uma estrada estreita mas bem mantida. O parque em si já vale a visita: um jardim de hortênsias e árvores centenárias com um abrigo florestal que parece saído de um conto dos irmãos Grimm.

Mas o objetivo real é a Levada do Caldeirão Verde. São cerca de 6,5 km só de ida (13 km ida e volta), com um desnível moderado, túneis escavados na rocha, leve lanterna, e aquele tipo de paisagem que faz a Madeira justificar todos os superlativos. A levada segue o curso da água por floresta laurissilva, com quedas de água que aparecem onde menos se espera. O Caldeirão Verde propriamente dito é uma lagoa alimentada por uma cascata de mais de 100 metros, encaixada numa cratera de rocha coberta de musgo.

Conte com 4 a 5 horas para a caminhada completa. Leve água, comida, e roupa impermeável, mesmo que o dia comece com sol, o microclima aqui muda sem aviso. Se está na Madeira em abril, vale a pena explorar também os trilhos de levadas na zona do Funchal para comparar paisagens. Mas o Caldeirão Verde é, para mim, o mais espetacular da ilha.

Se 13 km lhe parecem demais, há a opção mais curta até ao Caldeirão do Inferno, ou pode simplesmente caminhar os primeiros 3 km da levada e voltar, já compensa.

15h00, Almoço tardio com o que a terra dá

Vai chegar da caminhada com fome a sério. Santana não tem restaurantes de autor nem menus degustação, e ainda bem. O que tem são tascas e restaurantes familiares onde se come espetada em pau de louro, bolo do caco com manteiga de alho, e sopa de agrião que sabe exatamente como deve saber.

Procure um dos restaurantes na estrada principal ou peça recomendações no alojamento, os locais sabem sempre onde se come melhor nessa semana. A espetada madeirense é obrigatória: carne de vaca marinada em alho e louro, espetada em pau de loureiro e grelhada sobre brasas. Acompanhe com milho frito e uma poncha de maracujá. Não peça a poncha de limão turística, o maracujá é melhor, ponto final.

Um almoço completo com bebida fica tipicamente entre 12€ e 18€ por pessoa. Confirme localmente os horários, porque alguns restaurantes fecham entre o almoço e o jantar.

17h00, O miradouro que ninguém menciona

Depois de comer, resista à tentação de voltar para o alojamento. Em vez disso, conduza até ao Miradouro da Rocha do Navio, na Fajã da Rocha do Navio. Existe um teleférico, um dos poucos da Madeira, que desce até à fajã, uma plataforma costeira formada por derrocadas, onde ainda se pratica agricultura. A descida dura poucos minutos e o contraste entre o verde da encosta e o azul do Atlântico é daqueles momentos que ficam. Confirme localmente se o teleférico está em funcionamento e os horários, que variam por estação.

Se o teleférico não estiver a funcionar, o miradouro em si já oferece uma vista que vale a paragem. Há bancos, há silêncio, e ao final da tarde a luz faz coisas notáveis com as falésias.

19h00, Jantar e a arte de não fazer nada

Santana não tem vida noturna. Ponto. E isso é precisamente o que a torna interessante para quem já está farto do Funchal. O jantar pode ser no mesmo restaurante do almoço ou numa alternativa, a oferta é limitada mas consistente. Peça peixe se houver: atum, espada preta com banana (a combinação madeirense por excelência), ou lapas grelhadas se as tiverem.

Depois do jantar, o programa é voltar ao Casas de Campo do Pomar, abrir uma garrafa de vinho Madeira, um Verdelho meio seco é a minha escolha, e sentar-se a ouvir os grilos. Não é pouco.

O que mais explorar a partir de Santana

Se tiver mais dias na Madeira, Santana funciona como base para explorar a costa norte sem a confusão do sul. São Vicente fica a menos de 30 minutos e tem vindo a reinventar-se, a cena de arte contemporânea e design que está a crescer ali merece atenção. Para sul, Câmara de Lobos e a sua história com Churchill é um desvio que funciona bem num dia de regresso ao Funchal.

A estrada entre Santana e Porto Moniz pela costa norte é, arrisco dizer, uma das melhores drives da Europa. Curva a curva, túnel a túnel, com o oceano sempre presente e cascatas que caem diretamente na estrada quando chove. Não é rápida, são quase duas horas para 60 km, mas rapidez não é o objetivo.

Informações práticas

Santana fica a cerca de 40 minutos do Funchal de carro. O transporte público existe (linhas da Horários do Funchal), mas os horários são limitados e tornam difícil aproveitar o dia como descrito aqui. Alugar carro é praticamente obrigatório na Madeira, conte com 25€ a 40€ por dia, dependendo da época.

Para a levada do Caldeirão Verde, leve calçado de caminhada com sola aderente, lanterna (os túneis são longos e sem iluminação), água e comida. O trilho está sinalizado mas não é asfaltado, há troços estreitos com queda lateral. Não é perigoso com atenção, mas não é um passeio de chinelos.

A melhor época para visitar Santana é entre abril e outubro, quando o clima é mais estável. Mas "estável" na Madeira é relativo, esteja preparado para chuva em qualquer altura do ano, especialmente nas zonas de levada em altitude.

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