Santana a Pé: Arquitectura Que Conta Histórias
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Santana a Pé: Arquitectura Que Conta Histórias

· · Santana

Santana é muito mais do que casas de colmo para fotografar. Um percurso de quatro quilómetros pelo centro histórico revela muros de basalto, balcões de castanho torneado e vestígios de moinhos de água que contam a história de uma vila construída contra o vento.

Vamos ser honestos: a maioria das pessoas vai a Santana para tirar uma fotografia às casas de colmo e seguir viagem. Chegam de autocarro, fazem fila no parque temático, disparam o telemóvel e voltam para o Funchal antes do almoço. É uma pena, porque Santana tem um vocabulário arquitectónico que vai muito além da palha pintada, e a melhor forma de o ler é a pé, sem pressa, prestando atenção ao que está entre as casas e não apenas dentro delas.

Este roteiro leva-o por um percurso de cerca de quatro quilómetros pelo centro histórico e arredores imediatos. Não precisa de botas de montanha nem de mapa topográfico, basta calçado confortável e olhos abertos. Reserve três a quatro horas, incluindo paragens para café e para olhar para cima com atenção.

Onde Começar: O Largo do Município

O ponto de partida natural é o Largo do Município, no coração de Santana. A Câmara Municipal ocupa um edifício discreto mas digno, com aquela sobriedade administrativa que é marca das câmaras rurais madeirenses, sem grandes ornamentos, mas com uma solidez de basalto que lhe dá carácter. Vale a pena reparar na cantaria das janelas e nos degraus de entrada, trabalhados numa pedra escura que vem das pedreiras locais.

Daqui, olhe em redor. O largo é modesto, não espere uma praça monumental, mas é exactamente isso que o torna interessante. Santana nunca foi uma cidade de poder, foi uma vila de trabalho, e a escala dos seus edifícios reflecte isso. Os prédios à volta do largo raramente passam dos dois andares, com fachadas caiadas e varandas de ferro forjado que mostram a influência funchalense sem a pretensão.

A Igreja de Santana: O Centro Que Resiste

A poucos passos do largo está a Igreja Matriz de Santana, dedicada a Sant'Ana. O edifício actual data de reconstruções dos séculos XVII e XVIII, mas o local de culto é anterior. O que me interessa aqui não é tanto o interior, modesto, como convém a uma paróquia rural, mas a relação do edifício com a encosta. A igreja está implantada num terreno inclinado, e a forma como o adro se abre para o vale é uma lição de urbanismo vernacular: a praça da igreja funciona simultaneamente como miradouro.

Repare na torre sineira. Não é particularmente alta nem elaborada, mas a sua posição no terreno faz com que se veja de vários pontos da vila, e esse era exactamente o objectivo. Numa comunidade dispersa por encostas e veredas, o campanário era o GPS da época.

As Casas de Colmo: O Que Ninguém Vos Conta

Impossível falar de arquitectura em Santana sem falar das célebres casas de colmo, os A-frames triangulares cobertos de palha que são o postal da Madeira. Mas vou ser directo: as casas que se vêem no Parque Temático da Madeira são reconstruções, mantidas para turismo. Fotograficamente impecáveis, mas museológicas.

O que é genuinamente interessante é perceber o sistema construtivo. As casas de colmo são uma resposta engenhosa ao clima de altitude de Santana: o telhado de palha de trigo, que desce quase até ao chão, funciona como isolamento térmico contra a humidade e o frio que caracterizam esta zona norte da ilha. A estrutura triangular em madeira de til e vinhático resistia aos ventos que sobem do mar. A porta é sempre pequena, para conservar calor.

Fora do circuito turístico, ainda existem algumas casas de colmo habitadas ou em estado de conservação razoável espalhadas pela freguesia. Se caminhar pela Estrada Regional em direcção ao Faial, pode encontrar exemplos mais autênticos, sem as cores berrantes das versões restauradas. Pergunte aos locais; os mais velhos sabem indicar onde ainda restam exemplares originais.

O Percurso: Da Vila para as Quintas

Saindo do centro, o percurso mais gratificante segue para norte, em direcção ao mar. A estrada desce suavemente e o casario vai mudando de carácter: das fachadas caiadas e compactas da vila, passa-se para quintas dispersas com muros de basalto e portões de ferro. Estas quintas, muitas delas do século XIX e início do XX, contam a história económica de Santana: a produção de vime, a agricultura de subsistência, o vinho.

Os muros merecem atenção especial. O basalto escuro da Madeira, aparelhado a seco ou com argamassa de cal, é uma constante em toda a ilha, mas em Santana os muros têm uma particularidade: são frequentemente mais altos do que noutras zonas, protegendo os terrenos agrícolas dos ventos do norte. Não é decoração, é engenharia de sobrevivência.

O Detalhe dos Balcões

Se há um elemento que define a arquitectura doméstica santanense, para além do colmo, é o balcão. Quase todas as casas tradicionais têm varandas de madeira, muitas vezes pintadas de cores vivas, que serviam como espaço de trabalho, secagem de alimentos e convívio. Os mais antigos são em castanho regional, com balaustradas torneadas à mão. Hoje muitos foram substituídos por alumínio, uma perda, mas compreensível quando se conhece o preço da manutenção da madeira neste clima.

A Rota dos Moinhos e Eiras

Poucos visitantes sabem, mas Santana teve uma rede de moinhos de água que aproveitava as ribeiras e levadas para moer cereais. Não resta muito, a maioria foi abandonada no pós-guerra, mas quem caminha com atenção ainda encontra vestígios: uma parede de pedra junto a uma ribeira, um canal seco, um mecanismo enferrujado. A Junta de Freguesia tem feito algum trabalho de sinalização, mas estamos longe de um circuito organizado.

As eiras, terreiros de pedra onde se secavam cereais, são outro elemento que se vai perdendo. Algumas foram integradas em quintais privados, outras transformadas em estacionamentos. Quando encontrar uma, repare na qualidade do lajeado: pedras planas encaixadas com precisão, polidas por gerações de uso.

Pausa: Onde Comer e Descansar

A meio do percurso, o mais sensato é parar numa das tascas ou restaurantes do centro. Santana não tem a oferta gastronómica do Funchal, mas tem honestidade. Procure espetada em pau de louro, o prato mais característico da Madeira, e bolo do caco com manteiga de alho. A poncha também é obrigatória, mas com moderação se vai continuar a andar.

Para café, há algumas pastelarias no centro que servem bolo de mel e queijadas, nada sofisticado, tudo genuíno. Os preços são significativamente mais baixos do que no Funchal: conte com 8 a 15 euros para um almoço completo com bebida.

Se planeia fazer de Santana base para explorar esta zona da ilha, o Aldeamento Turístico Casas de Campo do Pomar é uma opção que combina a experiência de dormir em casas tradicionais com conforto contemporâneo, e fica a uma distância a pé do centro.

O Miradouro do Rocha do Navio

A última etapa do percurso arquitectónico leva-o ao teleférico da Rocha do Navio, no limite norte do concelho. O teleférico em si, construído para servir os agricultores que cultivam os fajãs costeiras, é uma peça notável de engenharia funcional. Não foi feito para turistas, foi feito para descer batatas e subir peixe. Hoje leva os dois, mas a estrutura mantém aquela honestidade utilitária que é o melhor da arquitectura madeirense.

Do miradouro junto à estação superior, a vista sobre a fajã e o mar é extraordinária. É também o ponto onde melhor se compreende a relação de Santana com a costa: a vila vive de costas para o mar, protegida pela serra, mas sempre dependente dele.

Combinar com Outros Percursos

Se a arquitectura lhe aguçou o apetite por mais Santana, o roteiro de 24 horas em Santana complementa este percurso com sugestões para o resto do dia. Para quem quer estender a exploração à natureza, as levadas do Funchal são o passo seguinte, e várias passam por zonas com aquedutos e pontes de pedra que prolongam a lição de arquitectura.

E se este passeio lhe despertou o olhar para o trabalho manual, vale a pena explorar o artesanato de Santana, o vime e os bordados são extensões directas da mesma cultura que construiu estas casas.

Informações Práticas

  • Duração: 3 a 4 horas, incluindo paragens
  • Distância: Cerca de 4 km (percurso circular possível)
  • Dificuldade: Fácil, mas há algum desnível, Santana está em encosta
  • Como chegar: Autocarros da Horários do Funchal (linha 132) ligam o Funchal a Santana em cerca de 1h30. De carro, são 40 minutos pela Via Rápida e ER101
  • Melhor altura: Manhãs de dias úteis, quando a vila está no seu ritmo normal sem multidões
  • O que levar: Casaco impermeável (Santana é a zona mais chuvosa da Madeira), calçado com sola aderente
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