Funchal em Setembro: Mar Ainda Quente, Multidões Já Não
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Funchal em Setembro: Mar Ainda Quente, Multidões Já Não

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Em setembro o mar do Funchal está no seu melhor, os autocarros de excursão desaparecem dos miradouros e as levadas voltam a caber num só caminhante de cada vez. É a janela que quem conhece bem a ilha guarda só para si.

Agosto sai do Funchal como turista que perdeu o avião: devagar, a reclamar, deixando as mesas boas por ocupar. Setembro chega e muda tudo sem se notar de imediato. O mar continua a 23, 24 graus, porque a Madeira aquece a água devagar e a arrefece ainda mais devagar. As esplanadas da Zona Velha deixam de ter fila às 20h. E os guias de caminhada, que em julho e agosto levam grupos de doze pessoas a pisarem-se nas levadas, voltam a ter espaço para explicar as coisas com calma. Se há um mês para perceber porque é que tanta gente fica obcecada por esta ilha, é este.

Porque setembro é o mês certo, não agosto

A lógica é simples: o Atlântico Norte demora a reagir ao verão. Em junho a água ainda está fria a sério, o que já expliquei quando escrevi sobre o Funchal em junho, cheio de atum e de festivais mas com um mar que ainda pede coragem. Em setembro é o oposto: a temperatura do mar está no pico, o calor do ar já não é aquele murro de 32 graus com humidade que trava qualquer plano de caminhada a meio da tarde, e os preços de alojamento começam a descer porque o grosso das famílias europeias já voltou às aulas. Não é segredo de ninguém que trabalha em turismo na ilha, mas continua a ser um segredo para quem marca férias sem perguntar a ninguém.

O que muda na prática

  • Reservas de restaurante deixam de ser um exercício de ansiedade com uma semana de antecedência
  • Os miradouros ficam livres de autocarros de excursão às 9h da manhã, que é quando a luz é melhor de qualquer forma
  • As levadas de maior fluxo turístico voltam a parecer trilhos, não passeios de shopping ao ar livre

Onde comer sem estar a jogar cotovelos

Setembro é o mês em que finalmente se consegue entrar no Casal da Penha sem ter reservado há duas semanas. É cozinha madeirense sem se disfarçar de outra coisa: espetada, peixe fresco, aquele à-vontade de restaurante que serve locais tanto quanto turistas, o que costuma ser o melhor sinal possível. Não é o sítio para uma refeição rápida entre visitas; é o sítio para sentar, pedir vinho da região e não ter pressa nenhuma, coisa que só se consegue mesmo fora do pico de agosto.

Para uma noite diferente, o Il Gallo d'Oro continua a ser a referência de alta cozinha do Funchal, com estrela Michelin e uma vista sobre o Atlântico que justifica sozinha vestir-se um pouco melhor. Não é barato e não pretende ser: é o tipo de jantar que se planeia, não que acontece por acaso. Reserve com antecedência mesmo fora de época, porque a mesa junto à janela não espera por ninguém.

Se quiser sair do centro por uma tarde, vale a pena descer até Câmara de Lobos, a vila piscatória onde Churchill se sentava a pintar barcos. Já escrevi sobre isto em detalhe: onde comer sardinha assada a sério em Câmara de Lobos. Em setembro a vila ainda tem o ritmo de verão, mas sem as filas de turistas de cruzeiro que a invadem em julho. Peça sardinha, pão caseiro e um copo de vinho tinto seco. Nada mais é preciso.

Jardins que finalmente respiram

O Funchal tem uma obsessão saudável por jardins, e setembro é quando se percebe porquê: sem autocarros de turismo empilhados à entrada, dá para andar devagar. O Monte Palace Tropical Garden é o mais cenográfico dos três, com os painéis de azulejo escondidos entre a vegetação e vistas sobre a baía que parecem tratadas em pós-produção mas não são. Sobe-se de teleférico desde a Zona Velha, o que já é experiência por si só, e vale reservar a manhã inteira porque o jardim é maior do que parece nas fotos.

Mais perto do centro, o Jardim Botânico da Madeira – Eng.º Rui Vieira é menos instagramável e mais didático: cactos, plantas endémicas da Macaronésia, um jardim de aves ao lado. É onde levar quem quer perceber a botânica da ilha, não só fotografá-la. Entrada barata, estacionamento limitado, por isso vá de teleférico ou de táxi se puder.

Para quem quer o oposto do tropical, os Palheiro Gardens, na Quinta do Palheiro Ferreiro, são um jardim inglês do século XIX plantado numa ilha subtropical, o que por si só já é uma contradição divertida. Hortênsias, camélias, uma capela pequena e um silêncio que não se encontra no centro do Funchal. É o passeio para uma manhã de setembro sem pressa nenhuma, de preferência com café a seguir num dos miradouros por perto.

As levadas voltam a ser trilhos, não autoestradas

Se há uma razão prática para trocar agosto por setembro, é esta: as levadas. Em agosto, os trilhos mais conhecidos parecem hora de ponta em Lisboa, com filas de caminhantes a photograph the same waterfall. Em setembro o calor já não bate tão forte ao meio-dia e o fluxo de gente cai a pique depois da primeira semana do mês.

A caminhada da Levada do Caldeirão Verde entre cascatas é a prova disso: túneis escuros, vegetação laurissilva que faz sombra o caminho todo, e uma cascata final que em setembro ainda se aprecia sem estar a partilhar a plataforma de observação com trinta pessoas. Leve lanterna para os túneis e um casaco fino, porque a laurissilva tem microclima próprio.

Para quem prefere combinar caminhada com banho, a experiência de levadas e piscinas naturais na Madeira a partir do Funchal ainda funciona muito bem em setembro, porque a água das piscinas naturais aquece ao longo do verão e chega a este mês no seu melhor. É também a última boa janela do ano antes de as noites arrefecerem a sério.

E se quiser planear com mais rigor, o guia sobre os trilhos essenciais de levadas do Funchal, escrito a pensar em abril, continua válido quase todo o ano: a maior parte das indicações de dificuldade e acesso não muda com a estação, só a luz e a quantidade de gente no caminho.

Regras básicas para setembro

  • Comece cedo, entre as 8h e as 9h, porque o sol ainda pode apertar depois do meio-dia
  • Leve sempre uma camada extra, mesmo com calor no Funchal, porque a altitude e a laurissilva mudam a temperatura depressa
  • Sapatos com boa aderência, não sandálias: as levadas têm troços molhados o ano inteiro

Chegar, ficar e quanto gastar

O aeroporto Cristiano Ronaldo Madeira fica a cerca de vinte minutos do centro do Funchal, com ligações diretas desde Lisboa, Porto e várias cidades europeias. Em setembro os voos ainda têm preços de verão nas primeiras semanas, mas descem visivelmente a partir de meados do mês, o que é mais um argumento para esperar até lá.

Alojamento no centro do Funchal, numa unidade de três estrelas, ronda os 80 a 120 euros por noite em setembro, bem abaixo dos preços de agosto. Um jantar completo com vinho no Casal da Penha fica normalmente entre 25 e 35 euros por pessoa; uma experiência no Il Gallo d'Oro é outra categoria de preço, pense em três dígitos por pessoa, e vale reservar com semanas de antecedência mesmo fora de época alta.

Não é preciso alugar carro para as caminhadas mais conhecidas, porque há transfers organizados para a maioria das levadas a partir do Funchal, mas para os jardins e para Câmara de Lobos um carro alugado por dois ou três dias compensa, sobretudo se planeia visitar mais do que um sítio por dia. Setembro é isso: o mês em que a Madeira deixa de estar cheia de gente a correr de um lado para o outro e volta a ser, por umas semanas, apenas a Madeira.

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