Levadas do Funchal em Setembro: o Mês Certo para Caminhar
Guia

Levadas do Funchal em Setembro: o Mês Certo para Caminhar

· · Funchal

Em setembro, o calor abranda e as multidões de agosto desaparecem, mas a água ainda corre com força nas levadas do Funchal. É o mês em que o Caldeirão Verde compensa o esforço sem filas no túnel.

Em agosto, as levadas do Funchal enchem-se de gente com chapéu de sol e sapatilhas erradas. Em setembro, o calor abranda, os autocarros de excursão já não fazem fila em Queimadas às nove da manhã e a água ainda corre com força suficiente para valer a pena o esforço. Se há um mês para calçar as botas e ir atrás das canaletas de irrigação que os madeirenses construíram há quinhentos anos, é este.

Setembro na Madeira ainda tem temperaturas de praia ao final da tarde, mas o interior da ilha já respira. As chuvas do fim do verão começam a encher as levadas que em julho e agosto andam mais magras, e a luz da tarde, mais baixa, ilumina as encostas de forma diferente da luz vertical de agosto. Para quem caminha, isso significa menos insolação, menos poeira no caminho e cascatas mais generosas.

Caldeirão Verde: a caminhada que todos recomendam, com razão

Há trilhos que ganham fama por serem fáceis de fotografar e outros que a merecem de facto. A Levada do Caldeirão Verde pertence ao segundo grupo. O caminho começa no Parque Florestal das Queimadas, atravessa vários túneis escavados na rocha (leve uma lanterna, os telemóveis não chegam) e termina numa cascata que cai sobre uma piscina natural fria o suficiente para cortar a respiração. Em setembro, depois de meses secos, a queda de água ainda impressiona sem o caudal violento do inverno, que por vezes fecha o acesso.

O trajeto de ida e volta ronda os 13 a 15 quilómetros, com pouco desnível mas várias horas de caminhada, por isso comece cedo. Leve água a mais do que acha necessário: não há onde comprar nada depois de Queimadas. Os mais preparados fazem-se acompanhar de um guia local, sobretudo por causa dos túneis sem iluminação e das secções estreitas sem proteção lateral, que existem e não são para menorizar.

Para quem quer água quente e água fria no mesmo dia

Setembro ainda permite o luxo de combinar caminhada de manhã com mergulho de tarde. A experiência Levadas e Piscinas Naturais na Madeira junta precisamente isso: trilhos ao longo de canais de água com paragens em poças naturais onde é possível arrefecer antes de continuar. É um roteiro mais informal do que o Caldeirão Verde, pensado para quem não quer o dia inteiro comprometido com uma única caminhada, mas quer sair de Funchal e voltar com terra debaixo das unhas.

A diferença entre caminhar em setembro e caminhar em pleno verão está sobretudo na temperatura da água. Em agosto, entrar numa piscina natural é um alívio imediato. Em setembro, a água ainda arrefeceu o suficiente do inverno anterior mas o ar já não escalda como em julho, o que torna o mergulho menos um choque e mais um prazer.

Como a estação muda o conselho

Vale a pena comparar com o que se recomenda noutras alturas do ano. O guia Levadas do Funchal: Trilhos Essenciais para Abril fala de trilhos ainda molhados da chuva de inverno, com vegetação exuberante mas caminhos por vezes escorregadios. Já o texto sobre Funchal em Junho descreve uma ilha a aquecer, com os primeiros grupos de turistas a chegar em força. Setembro fica algures no meio: sem a lama de abril, sem as multidões de junho e julho, e ainda sem o vento frio que começa a aparecer em outubro nas zonas mais altas, como o Pico do Areeiro ou os planaltos perto do Curral das Freiras.

Se o seu tempo em Funchal for curto, esta é também a vantagem prática de setembro: os operadores turísticos ainda funcionam a horário completo, mas já não é preciso reservar com semanas de antecedência como em agosto. Um telefonema no dia anterior costuma bastar para garantir lugar numa excursão de meio dia ou num transfer para Queimadas ou Rabaçal.

Um dia mais calmo: jardins em vez de túneis

Nem todos os dias têm de ser de caminhada extenuante, e setembro também é excelente para os intervalos. O Monte Palace Tropical Garden fica a poucos minutos do Terreiro da Luta, ponto de partida de vários trilhos que descem em direção ao Funchal, e funciona bem como recompensa depois de uma manhã mais exigente: lagos com carpas, azulejos portugueses antigos e vista sobre a baía sem que seja preciso subir mais um metro.

Quem prefere um ritmo ainda mais lento tem o Jardim Botânico da Madeira – Eng.º Rui Vieira, com os seus terraços em socalcos sobre a cidade, ou os Palheiro Gardens, na antiga Quinta do Palheiro Ferreiro, onde os jardins ingleses convivem com árvores centenárias trazidas de meio mundo pelos antigos proprietários. Nenhum destes lugares substitui uma levada, mas todos servem de contraponto necessário: um dia de jardim entre dois dias de trilho evita as pernas em protesto no terceiro dia.

Depois da caminhada, a mesa

Quem caminha oito ou dez quilómetros por levadas ganha o direito a comer bem à noite, e o Funchal não desilude. O Casal da Penha é a opção certa para quem quer comida madeirense sem cerimónia: espetada em pau de louro, milho frito, um vinho da região servido sem grandes discursos. É o tipo de refeição que faz sentido depois de um dia com as botas cheias de pó.

Para uma noite diferente, o Il Gallo d'Oro, com estrela Michelin, fica no outro extremo do espetro: cozinha de autor, serviço atento, uma conta que reflete a ambição do prato. Não é para todos os dias, mas depois de uma semana de caminhadas, uma mesa assim funciona quase como cerimónia de encerramento.

Se a viagem incluir uma saída até Câmara de Lobos, a poucos minutos de carro do Funchal, vale a pena seguir as recomendações do guia Câmara de Lobos: Onde Comer Sardinha Assada a Sério. Sardinha grelhada na brasa, à vista do mar, é o contraponto perfeito a uma manhã de caminhada em trilhos de água doce.

Como chegar e quanto custa

  • Transporte próprio: um carro alugado dá liberdade para chegar a Queimadas ou Rabaçal sem depender de horários, mas as estradas de montanha exigem atenção e algumas zonas de estacionamento enchem cedo.
  • Excursões organizadas: em setembro, com menos procura do que em agosto, é possível encontrar lugar em passeios de meio dia por valores que costumam rondar os 30 a 50 euros por pessoa, dependendo do trilho e se inclui transporte.
  • Táxi ou transfer privado: mais caro, mas prático para quem prefere não conduzir por estradas de curvas apertadas.
  • Equipamento: botas com boa aderência, lanterna frontal para os túneis, água suficiente (não há fontes ao longo da maioria dos trajetos) e um corta-vento, porque a temperatura muda depressa à sombra dos túneis e das florestas de laurissilva.

O essencial

Setembro não é o mês mais óbvio para visitar o Funchal, e talvez seja por isso que compensa. As levadas continuam lá o ano inteiro, claro, mas há uma diferença real entre caminhar por elas em pleno agosto, com o sol a pique e um grupo de vinte pessoas à sua frente no túnel, e caminhar em setembro, com o caminho quase para si e a certeza de que, no fim do dia, ainda há mesa disponível no restaurante certo.

natureza Funchal Madeira Caminhadas levadas