O Outro Lado de Machico: Para Lá da Praia de Areia Dourada
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O Outro Lado de Machico: Para Lá da Praia de Areia Dourada

· · Machico

A maioria vê Machico durante sete minutos, da autoestrada, a caminho do Funchal. Erro. A cidade onde a Madeira começou esconde murais, trilhos vertiginosos e o melhor peixe-espada do leste, tudo do outro lado da ribeira.

A maioria das pessoas vê Machico durante exatamente sete minutos. É o tempo que demora a passar pela Via Rápida vindo do aeroporto, a olhar de relance para a baía e a baía a olhar de volta, antes de carregar no acelerador rumo ao Funchal. É uma pena. Porque Machico, a segunda maior cidade da Madeira e o sítio onde a história da ilha literalmente começou em 1419, é tratada como uma rotunda com vista para o mar. Quem fica fica pela praia. E a praia, embora boa, é a parte menos interessante.

Vou ser direto: a Praia de Machico é uma praia de areia importada de Marrocos, despejada sobre os calhaus em 2008 para dar à cidade um postal mais simpático. Funciona. As águas são calmas, há duches, e ao fim da tarde de agosto está cheia de famílias madeirenses. Mas se atravessou a ilha inteira para isto, atravessou em vão. O que torna Machico interessante está do outro lado da ribeira, na Banda d'Além, e nos montes que sobem atrás da cidade. É lá que vamos.

Comece onde a Madeira começou

A história oficial diz que João Gonçalves Zarco e Tristão Vaz Teixeira aportaram aqui em 1419 e batizaram o lugar em honra de Robert Machim, um inglês que, conta a lenda, naufragou nesta baía a fugir com a sua amada Anne d'Arfet. É provavelmente meio mito, mas a Capela dos Milagres existe e merece a visita, sobretudo pela história das cheias: a capela original foi arrastada pelo mar numa enxurrada em 1803, com o crucifixo a ser recuperado em alto-mar por um barco americano. A 8 ou 9 de outubro, a Festa do Senhor dos Milagres enche a cidade e enche a ponte de gente em procissão.

A meio da manhã, antes do calor apertar, percorra a Igreja Matriz (Igreja de Nossa Senhora da Conceição), do século XV, com o seu portal manuelino e colunas de mármore que foram oferta de D. Manuel I. Depois desça até ao Forte de Nossa Senhora do Amparo, o fortim triangular cor de ocre junto à foz da ribeira, construído no século XVIII para defender a baía dos piratas. Hoje funciona como posto de turismo. É pequeno, vê-se em dez minutos, mas dá a escala certa: Machico foi importante muito antes de o Funchal ser Funchal.

A Banda d'Além e a arte que ninguém repara

Atravesse a ribeira para o lado nascente, a Banda d'Além, e a cidade muda de carácter. As ruas estreitam, a roupa seca nas varandas, e nas paredes começam a aparecer murais. Esta é a parte de Machico que os autocarros turísticos nunca veem, e francamente é a melhor. Recomendo fazer o roteiro autoguiado de arte urbana pela Cidade Velha, que liga os principais murais num passeio de pouco mais de uma hora. Faça-o de manhã cedo ou ao fim da tarde, quando a luz bate de lado e as cores ganham vida. Leve a câmara e calçado confortável: há ladeiras.

Entre os murais há cafés de bairro onde se toma uma bica por menos de um euro e onde ninguém fala inglês, e é exatamente esse o ponto. Sente-se, peça um bolo de mel ou uma broa, e observe. A Banda d'Além é onde Machico ainda é Machico, e não um cenário para quem está de passagem.

Onde comer (e o que pedir)

Aqui vai a regra de ouro: em Machico, coma peixe e marisco, não carne. A espetada em pau de loureiro é excelente em toda a ilha, mas esta é uma cidade de mar e a frescura nota-se. No Restaurante Lily peça lapas grelhadas com manteiga de alho e limão para começar, e depois peixe-espada preto, o tal peixe negro e feio das profundezas que a Madeira transformou numa instituição. Se vier com banana frita e maracujá, é a combinação clássica madeirense, doce e salgada ao mesmo tempo, que divide opiniões e ganha a maioria.

Acompanhe com bolo do caco, o pão redondo cozido em pedra e barrado com manteiga de alho que chega a todas as mesas antes de o pedir. E para beber, uma poncha. A verdadeira leva aguardente de cana, mel de abelha e sumo de limão, mexida com o pau próprio, o caralhinho. É traiçoeira: sabe a sumo, bate como um murro. Uma ao almoço chega.

Conte com cerca de 15 a 25 euros por pessoa numa refeição de peixe com entrada e bebida, dependendo do que pedir. Os preços do peixe são muitas vezes ao quilo, por isso confirme localmente antes de escolher.

Subir ao Pico do Facho e desaparecer no Larano

A vista que vale a viagem não está na praia: está em cima. O Pico do Facho ergue-se a cerca de 320 metros sobre a baía e dá-lhe Machico inteira aos pés, a foz da ribeira, o forte, a praia de areia importada e, do outro lado, a Ponta de São Lourenço a esticar-se castanha e nua para o mar. Dá para subir de carro até quase ao topo, mas se tiver pernas, faça a pé. O nome vem das fogueiras (fachos) que ali se acendiam para avisar a população da chegada de piratas.

Para quem quer mais do que um miradouro, o trilho é a verdadeira recompensa de Machico. A Vereda do Larano, o antigo trilho dos pescadores, parte de Machico e segue colada à falésia até ao Porto da Cruz, com o Atlântico a bater lá em baixo durante quase todo o percurso. É um caminho de meia encosta, em parte talhado na rocha, com troços vertiginosos protegidos por cabo de aço. Não é para quem tem vertigens, mas é dos trilhos costeiros mais bonitos da ilha e, ao contrário das levadas do centro, raramente está cheio. Leve água, chapéu e calçado com aderência. A caminhada faz-se em cerca de duas a três horas só de ida, por isso planeie o transporte de regresso, ou táxi ou autocarro a partir do Porto da Cruz.

Se preferir as clássicas levadas, vale a pena guardar um dia para os trilhos essenciais das levadas perto do Funchal, que são outra coisa, mais verdes, mais húmidas, mais túneis e laurissilva. Mas para quem está sediado em Machico, o Larano é o que tem à porta.

Onde dormir

Machico é uma base inteligente e subvalorizada para explorar o leste da ilha: está a dez minutos do aeroporto, a vinte e cinco do Funchal, e a um pulo da Ponta de São Lourenço e do Caniçal. Para quem quer ficar mesmo em frente ao mar, o Hotel White Waters fica junto à baía e é prático para quem chega tarde de avião. Para algo com mais carácter e jardim, o Hotel Vila Bela é uma escolha sólida e tranquila. Ambos colocam a praia, os restaurantes e o início dos trilhos a distância de caminhada.

Como chegar e mexer-se

De carro, são cerca de cinco a dez minutos do Aeroporto da Madeira e vinte e cinco a trinta do Funchal pela Via Rápida (VR1). De autocarro, a empresa SAM liga o Funchal a Machico várias vezes ao dia; confirme horários localmente, que mudam consoante a época. Dentro da cidade anda-se tudo a pé: do forte à praia, da praia à Banda d'Além, é tudo plano e perto, exceto quando decidir subir ao Pico do Facho.

Faça de Machico uma base, não uma paragem

O erro clássico é tratar Machico como aquilo que se vê da autoestrada. Use-a antes como ponto de partida. A partir daqui chega-se facilmente ao Caniçal e ao Museu da Baleia, à península árida da Ponta de São Lourenço para o pôr do sol, e até ao norte verde da ilha. Se quiser combinar com o melhor do Funchal numa altura especial, o guia de Funchal em junho, com atum, levadas e noites de festival, mostra o que a capital tem de bom, e pode fazer-se num bate-volta de meia hora. Para um dia mais lento, ao ritmo da ilha, vale a pena conhecer o roteiro de 24 horas em Santana, com as suas casas triangulares de colmo, a pouco mais de quarenta minutos pela costa norte.

Mas reserve a primeira manhã para a própria Machico. Levante-se cedo, atravesse a ribeira, suba pelas ruas da Banda d'Além antes de o sol bater forte, e perceba que a cidade onde a Madeira começou não é uma rotunda com praia. É um lugar com história, com peixe, com trilhos de tirar a respiração, e com a vantagem rara de ainda não ter sido descoberto por toda a gente. Aproveite enquanto dura.

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