Machico à Mesa: Onde os Locais Comem de Verdade
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Machico à Mesa: Onde os Locais Comem de Verdade

· · Machico

Em Machico, os locais comem de costas para o mar e de frente para o prato. Um guia honesto sobre lapas, espetada de pau de loureiro, peixe-espada com banana e a poncha que se bebe devagar.

Há um momento, por volta das 13h num dia de semana em Machico, em que percebes tudo o que precisas de saber sobre a comida desta vila. Os turistas estão na praia de areia amarela, importada de Marrocos, a fotografar o mar. Os locais estão sentados de costas para esse mesmo mar, numa esplanada qualquer, a partir uma lapa com um palito e a passar a poncha de mão em mão. A vista interessa-lhes pouco. O almoço, esse, é levado a sério.

Machico é a porta de entrada histórica da Madeira, o sítio onde Zarco e companhia desembarcaram em 1419, e tem uma relação com a comida que é mais honesta do que a do Funchal. Aqui não há a pressão de impressionar cruzeiristas em massa. Há peixe que chegou de manhã, há milho frito que estala como deve estalar, e há uma teimosia bonita em fazer as coisas como sempre se fizeram. Este é o guia para comer como quem cá vive, e não como quem está de passagem.

O que pedir antes de qualquer outra coisa

Comecemos pelo princípio, que em qualquer mesa madeirense é o bolo do caco. Esqueçam a ideia de que é um bolo: é pão, redondo e achatado, tradicionalmente cozido sobre uma pedra de basalto (o caco), servido a escaldar e barrado com manteiga de alho e salsa. Se vos trouxerem bolo do caco frio ou sem a manteiga a escorrer, estão no sítio errado. É o teste mais simples para saber se uma casa se importa.

Depois, as lapas. Grelhadas no forno com manteiga, alho e uma fatia de limão para espremer por cima, são o petisco que define o Atlântico. Custam entre 7 e 10 euros a dose na maioria das casas, e comem-se com os dedos, sem cerimónia. A seguir vem a decisão séria: peixe ou carne.

O peixe-espada preto e a banana

Se há prato que divide quem percebe de Madeira de quem não percebe, é o filete de espada com banana. À primeira parece um disparate (peixe das profundezas frito com banana frita por cima), mas funciona: o doce da banana corta a gordura do peixe, e um molho de maracujá por cima fecha o triângulo. O peixe-espada preto pesca-se ao largo, a centenas de metros de profundidade, e em Machico é fresco quase por definição. Conta com 12 a 16 euros por um prato como deve ser.

Quem chegar em Junho deve saber que é tempo de atum, e essa é uma história que conto com mais detalhe no guia sobre o Funchal em Junho, entre atum, levadas e festivais. Mas o atum não fica preso à capital: a bisca de atum, ou o atum de cebolada, aparece nas ementas de Machico quando a época está boa. Pergunta sempre se há atum fresco do dia.

A espetada como ritual

A espetada madeirense não é uma espetada qualquer. São cubos de carne de vaca temperados só com sal grosso e alho, espetados num pau de loureiro fresco (não num espeto de metal, isso é heresia), e grelhados sobre carvão ou lenha. O pau de loureiro perfuma a carne por dentro. Serve-se pendurada, a pingar, normalmente com milho frito e bolo do caco a acompanhar. É comida de festa, de arraial, de domingo em família. Um espeto generoso para duas pessoas anda pelos 25 a 35 euros, e vale cada cêntimo se a carne for boa.

Restaurante Lily: a aposta segura

Quando me perguntam por uma casa em Machico onde não falha, aponto para o Restaurante Lily. É o tipo de sítio onde se come bem sem teatro, com a cozinha tradicional madeirense feita com respeito pelos ingredientes. Vai a pensar em peixe fresco e nos clássicos da casa, deixa o telemóvel no bolso, e pede ao empregado o que entrou nesse dia. A melhor refeição em Machico costuma ser a que não está no menu impresso, mas sim a que o cozinheiro decidiu de manhã, quando viu o que o mar tinha dado.

Uma regra que sigo em qualquer casa de Machico: se a sala estiver cheia de gente a falar português com sotaque da ilha, senta-te. Se estiver cheia de menus traduzidos em cinco línguas e fotografias dos pratos, levanta-te e procura outra coisa.

A poncha, e como não fazer figura de turista

Nenhuma refeição em Machico se completa sem poncha. A receita tradicional é simples e brutal: aguardente de cana, mel de abelha (ou açúcar), e sumo de limão, mexidos com um pau de madeira chamado caralhinho. Há a variante de maracujá, mais doce e perigosamente bebível. A poncha de pescador, mais forte, era o que os homens bebiam antes de sair para o mar, e ainda hoje há quem a leve a sério a esse ponto.

O erro do turista é pedir uma e ficar por aí, ou beber demasiado depressa. A poncha bebe-se devagar, em boa companhia, e respeita-se. Um copo anda por 2 a 3,50 euros. Dois copos e uma tarde inteira desaparece sem darmos por isso. Avisado estás.

Onde e quando comer (a logística sem dramas)

O coração de Machico para comer é a zona em volta da baía e da praia, e as ruas estreitas da Cidade Velha. Ao almoço, entre as 12h30 e as 14h, é quando os locais aparecem e quando o peixe está mais fresco. Ao jantar, a vila acalma cedo: às 22h muita coisa já fechou, sobretudo fora da época alta. Não é uma vila de vida noturna, é uma vila de mesas de almoço demoradas.

  • Pequeno-almoço: um café e um pastel numa pastelaria de bairro, longe da frente de mar. A bica custa menos de 1 euro e sabe melhor onde os turistas não chegam.
  • Almoço: a refeição principal. É aqui que se gasta o orçamento e o tempo.
  • Lanche: bolo de mel madeirense ou uma fatia de queijo da ilha, se encontrares.
  • Jantar: cedo e tranquilo. Reserva ao fim de semana na época alta.

Para um almoço completo com entrada, prato principal de peixe ou espetada, uma bebida e café, conta com 18 a 28 euros por pessoa numa casa honesta. É mais barato do que o Funchal e quase sempre mais autêntico.

Abrir o apetite antes da mesa

A melhor maneira de chegar à mesa de Machico com fome a sério é caminhar para lá dela. A caminhada no Larano, o trilho dos pescadores, é uma das mais bonitas da costa leste, com o mar sempre à vista e o cheiro a salitre a colar-se à roupa. Voltas com as pernas a queimar e com aquela fome limpa que só uma manhã ao ar livre dá. É a antecâmara perfeita para uma espetada.

Se preferires algo mais calmo, o roteiro autoguiado de arte urbana pela Cidade Velha leva-te pelas ruelas onde, entre um mural e outro, vais tropeçar em tasquinhas que não aparecem em nenhum guia internacional. São essas, muitas vezes, as melhores. E para quem quer fazer da Madeira inteira um percurso de mesas, vale a pena espreitar como funciona o ritmo da ilha no roteiro de 24 horas em Santana e os trilhos descritos no guia das levadas essenciais do Funchal, porque na Madeira come-se sempre melhor depois de andar.

Onde ficar para comer com calma

Para fazer de Machico base e não apenas paragem, há duas opções que recomendo conforme o feitio. O Hotel White Waters, junto à baía, é prático para quem quer sair à noite, comer numa esplanada e voltar a pé sem complicações. O Hotel Vila Bela é a escolha para quem prefere tranquilidade e quer acordar sem pressa antes de mais um almoço sério. Em qualquer um deles, o conselho é o mesmo: não jantes no hotel todas as noites. A comida que interessa está lá fora, nas mesas pequenas.

As regras de ouro de quem cá come

  • Almoça a sério, janta leve. O ritmo da vila é esse, e o peixe está melhor ao meio-dia.
  • Pede sempre o peixe do dia antes do que está escrito no menu.
  • Bolo do caco frio é sinal de aviso. Manteiga a escorrer é sinal de bom presságio.
  • A poncha bebe-se devagar. Sempre.
  • Se a casa só tem clientes a falar inglês e fotos nos menus, há melhor cem metros adiante.
  • Não tenhas medo das lapas nem dos dedos sujos. É assim que se come.

Machico não te vai deslumbrar com restaurantes de chef nem com cartas de vinhos intermináveis. O que te dá é mais raro: uma mesa onde a comida ainda é uma conversa entre o mar, a terra e quem cozinha. Senta-te de costas para a vista, como os locais, e percebe porquê.

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