Machico Para Lá do Aeroporto: A Cidade que Ninguém Vê
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Machico Para Lá do Aeroporto: A Cidade que Ninguém Vê

· · Machico

Toda a gente passa por Machico a caminho do Funchal e ninguém para. Erro: aqui há a única praia de areia dourada da ilha, o trilho do Larano e a melhor poncha de limão do leste. Eis porque devia abrandar.

O sítio onde toda a gente passa e ninguém fica

Machico tem um problema de relações públicas, e o problema chama-se aeroporto. A pista da Madeira fica a dez minutos dali, e é por isso que a esmagadora maioria das pessoas que aterram na ilha vê Machico exatamente uma vez: pela janela do carro de aluguer, a caminho do Funchal, a uma velocidade que não deixa ler nenhuma placa. A cidade é tratada como uma rotunda. É um erro.

Aqui foi onde a história da Madeira começou, literalmente. Em 1419, João Gonçalves Zarco e Tristão Vaz Teixeira desembarcaram nesta baía e foi a partir daqui que a colonização da ilha arrancou. Tristão Vaz Teixeira ficou com a capitania de Machico, o que durante décadas fez desta a rival do Funchal. Hoje Machico perdeu essa guerra de prestígio sem grande pena, e é precisamente por isso que vale a visita: é uma cidade madeirense de verdade, com gente que trabalha no mar e na terra, e não um cenário polido para fotografias.

Vim aqui à espera de uma escala obrigatória e fiquei três dias. Eis o que aprendi.

A praia de areia que veio de Marrocos

Comecemos pelo elefante na sala: a Praia de Machico tem areia dourada, e na Madeira isso é um escândalo geológico. A ilha é de basalto, de calhau preto e rolado, e as praias naturais são pedregosas e desconfortáveis para quem tem pés de cidade. A areia de Machico foi importada do Sara Ocidental nos anos 2000, despejada numa baía abrigada por dois molhes. O resultado é a única praia de areia dourada de fácil acesso da ilha, e os locais sabem disso: ao fim de semana de verão está cheia de famílias de Santa Cruz e do Caniçal, não de turistas.

O truque é ir cedo. Às oito da manhã a baía está calma, a água ronda os dezanove ou vinte graus no verão, e tem-se a praia quase só para si antes de a vida balnear acordar. Não espere um Caribe: é uma praia urbana, com o ruído da cidade ao lado. Mas é genuína, e a vista para as encostas verdes que fecham o vale é coisa que nenhuma praia algarvia oferece.

A cidade velha e a arte nas paredes

O centro histórico de Machico é pequeno e percorre-se a pé numa manhã sem pressas. A Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, do século XV, tem um portal manuelino de mármore branco que dizem ter sido oferta do rei D. Manuel I. Do outro lado do rio fica a Capela dos Milagres, ligada à lenda dos amantes ingleses Robert Machim e Anna d'Arfet, que segundo a tradição deram nome à cidade. A capela já foi arrastada por uma cheia e reconstruída; o crucifixo que sobreviveu às águas é venerado todos os anos a 8 e 9 de outubro, na festa mais importante da cidade.

Mas a melhor surpresa de Machico não está nos monumentos, está nas paredes. Nos últimos anos a cidade encheu-se de murais de arte urbana, espalhados pelas ruas estreitas da parte velha, e a melhor forma de os encontrar é simplesmente perder-se. Se quiser fazer a coisa com método, siga este roteiro autoguiado pela arte urbana da cidade velha, que liga os principais murais num percurso que se faz numa hora larga e que dá uma desculpa perfeita para entrar nas ruelas onde os carros de aluguer nunca chegam.

Domine também a vista do Forte de São João Baptista, ou Forte do Amparo, a pequena fortaleza amarela do século XVIII que guarda a foz do rio. É minúsculo e não se demora mais de dez minutos lá dentro, mas o terraço dá-lhe o melhor enquadramento da baía para uma fotografia.

Onde dormir: fique, não passe

O grande erro de quem visita a Madeira é concentrar tudo no Funchal e fazer de Machico uma paragem de almoço. Se quiser sentir o ritmo do leste da ilha, durma cá pelo menos uma noite.

Mesmo em frente à praia fica o Hotel White Waters, a opção mais cómoda para quem quer acordar com a baía à porta e descer à areia de pijama. Para uma estadia com mais carácter e jardim, o Hotel Vila Bela é a escolha de quem prefere recuar um pouco do burburinho da marginal sem perder a proximidade ao centro. Qualquer um deles fica a uma curta distância a pé dos restaurantes da baixa, o que significa que pode jantar e voltar sem precisar do carro.

Uma vantagem prática nada romântica mas muito real: dormir em Machico na primeira ou na última noite poupa-lhe a travessia até ao Funchal logo a seguir a aterrar ou antes de levantar voo. O aeroporto fica a dez minutos. É das poucas vezes em que estar perto da pista é uma bênção.

À mesa: peixe, lapas e bom senso

Machico come bem porque come peixe que chega ao porto ali ao lado. A regra é simples: peça o que veio do mar nesse dia e desconfie de cartas com cinquenta pratos.

O meu ponto de referência é o Restaurante Lily, o tipo de casa de família onde se vai pelo peixe grelhado e pelo espetada em pau de loureiro, e não pela decoração. Peça lapas grelhadas com alho e limão para começar, um bom peixe do dia a seguir, e acompanhe com milho frito, o acompanhamento madeirense por excelência, muito melhor do que a batata frita que insistem em servir aos turistas. Para beber, uma poncha de limão feita na hora, batida com aguardente de cana, mel e sumo de limão. Uma chega; duas e a tarde desaparece.

Se procura o atum, e na Madeira o atum é levado a sério, vai encontrá-lo melhor servido em Caniçal, a aldeia piscatória mesmo ao lado, onde a tradição da pesca do atum ainda manda. O atum de cebolada, frito e coberto de cebola estufada, é o prato que define a cozinha do leste da ilha. Esta obsessão pelo atum não é exclusiva de cá: no Funchal, em pleno verão, ele é uma estrela das festas, como conto neste guia sobre Funchal em junho, entre atum, levadas e noites de festival.

O melhor de Machico está a subir

A baía é bonita, mas a verdadeira recompensa de Machico está nas encostas. A cidade fica encaixada num vale fundo, e mal se sai da marginal os trilhos começam a subir.

O passeio que não pode falhar é a Vereda do Larano, o velho caminho dos pescadores que liga Machico ao Porto da Cruz por uma cornija recortada na falésia, sempre com o mar lá em baixo. É um trilho de meia dificuldade, com troços estreitos e quedas a pique, por isso não é para quem sofre de vertigens, mas a paisagem não tem rival no leste da ilha. A melhor altura é a primavera, quando as encostas estão verdes e o calor ainda não aperta, e descrevo o percurso em detalhe neste relato da caminhada no Larano, o trilho dos pescadores em abril. Leve água, calçado a sério e protetor solar; não há cafés pelo caminho.

A pouca distância de carro fica também a Ponta de São Lourenço, a península árida e dourada que fecha o extremo leste da Madeira, uma paisagem que parece de outro planeta comparada com o verde do resto da ilha. É outro mundo, sem árvores e açoitado pelo vento, e o contraste com os trilhos húmidos do interior é a melhor lição de geografia que a Madeira lhe pode dar.

Como usar Machico: três itinerários honestos

Machico funciona melhor como base do que como destino isolado. Eis como eu jogaria as cartas:

  • Se tem meio dia: centro histórico de manhã, almoço de peixe, e o terraço do forte ao fim da tarde. Mergulho rápido na praia se o tempo ajudar.
  • Se tem um dia inteiro: acrescente a Vereda do Larano de manhã cedo e recompense-se com a poncha ao almoço. À tarde, a arte urbana e a praia.
  • Se tem mais tempo: use Machico como campo-base para o leste e parta daqui para a Ponta de São Lourenço, para Caniçal e para Santana, no norte, com as suas casas de colmo triangulares. Para esse dia, vale a pena seguir o ritmo certo das coisas com este roteiro de 24 horas em Santana.

E claro, o Funchal está sempre ali, a vinte e cinco minutos de via rápida. Mas faça o caminho inverso ao da maioria: durma em Machico, vá ao Funchal de manhã para as levadas clássicas, que conto neste guia das levadas essenciais do Funchal para abril, e regresse ao leste para jantar com calma, longe das filas dos restaurantes da capital.

Como chegar e mexer-se

Do aeroporto, dez minutos de carro ou táxi pela via rápida. Há também autocarros da rede da ilha que ligam Machico ao Funchal várias vezes ao dia; confirme localmente os horários, que mudam consoante a época. Dentro da cidade tudo se faz a pé, e é essa a graça. Para os trilhos e para Caniçal, porém, o carro é praticamente indispensável, porque os transportes públicos são escassos e demorados.

Um conselho final: não trate Machico como uma sala de espera do aeroporto. Trate-a como aquilo que é, a primeira cidade da Madeira, com o pé na areia e a cabeça nas montanhas, à espera de que alguém, finalmente, abrande.

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